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CONGRESSO DOS VENTOS

No documento Joaquim Cardozo: um encontro com o deserto (páginas 91-96)

primeiro móbil Carlos Drummond de Andrade, no prefácio para o primeiro livro de poemas de Joaquim

CONGRESSO DOS VENTOS

Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;

Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão cingida, Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre lentos

[ telhados, Chegaram os mais famosos, os mais ilustres ventos da Terra:

– Mistral, com seus cabelos de agulha, e os seus frios de dedos finos, – Simum, com arrepiadas, severas e longas barbas de areia quente, – Harmatã, em fúrias gloriosas e torvelinhos, trazidos da Costa da Guiné, Representante das margens do Nilo credenciou-se Cansim,

E Garbino, enviado das praias catalãs.

Vieram as Monções das margens do Oceano Índico, Os ventos da Tundra siberiana vieram. . .

E os Alísios desceram do Equador, clandestinos, Num grande transatlântico.

Chegaram ainda os ventos da América:

– Barinez, respirando doçuras de rios azuis, afluentes do Orenoco, – Pampeiro, eremita e solidão de horizontes sub-andinos,

– Minuano, assobiando longamente a tristeza ritmada das coxilhas. Também os ventos nordestinos se acharam presentes:

O Nordeste e o Sudeste; os ventos Banzeiros, O Aracati das praias cearenses,

O vento Terral, velho boêmio das madrugadas. Ventos, muitos e todos, ventos de todos os desertos, De tempestades selvagens, de escuramente outonos. . . Nesse congresso em tantas veemências se afirmaram Quanto em glória e rebeldia se exprimiram. . .

Com açoites e eloqüentes rajadas falou Harmatã; Com citações de Esopo e de La Fontaine

Descreveu com minúcia os modernos fornos solares E admitiu o emprego futuro de ventos magnéticos. Depois que Cansim relembrou o seu feito guerreiro

Envolvendo em altas nuvens de areia as legiões do rei Cambises – Isto, há mais de dois mil anos –

Garbino repetiu com sopros noturnos e vagarosos A velha história do abandono e desprezo dos ventos Agora, solitários, vagando por todos os quadrantes. A assembléia inteira levantou-se amotinada; Um vendaval sem freio, um furacão,

Percorreu aquelas instâncias de planície tranqüila; Uma onda de revolta se ergueu contra os motores, Contra os ventiladores e os túneis de vento.

Mas apesar daquele tumultuoso debater de línguas meteóricas Podia-se ouvir muito bem a voz lamentosa do Nordeste:

– Eu que, há trezentos anos, desembarquei das velas do almirante Loncq Na praia de Pau Amarelo,

Que tremulei nas flâmulas e nas bandeiras das naus de D. Antônio de [ Oquendo Aqui estou, nesta várzea, reduzido a professor de meninos:

Hoje vivo ensinando a empinar papagaios. . .

Voltando a calma, em alentos de aragens murmuradas, Terral contou como ajudava as plantas nos amores: – Levando nas dobras do seu manto o pólen das anteras, Velivolvendo e suspirando entre ramagens.

Por fim, sucederam-se festas, danças de roda. . . Músicas e cantos de longes mares tempestuosos,

Rodopios, volteios, caprichos, remoinhos, piões e parafusos. . . – Com sestros de capoeira exibiram-se o vento Banzeiro e o Sulão. Barinez leu uma mensagem de Romulo Gallegos,

E já pelos dias finais daquele mês todos partiram. . . Erguendo o seu vôo sobre as nuvens varzinas Regressaram, um após outro,

Para as noites e as tormentas das suas terras natais.

O último que se pôs a caminho foi o vento Aracati:

– Cortou uns talos de chuva Com eles fez uma flauta E se foi, tocando e dançando, E se foi pela estrada de Goiana.

(CARDOZO: 1962)

Ora, é este o cairós: “um tempo da história em que a iniciativa do homem colhe a oportunidade favorável e decide no átimo a própria liberdade.” (AGAMBEN: 2005, 128) E um cairós é este tempo em que todos os tempos se concentram e que livra o homem da obstinação de medir o tempo, de quantificar o tempo, de pensar a história como se fosse um progresso sem fim, como chega a sugerir Joaquim Cardozo nos versos: “Comparou as vantagens da energia do sol e a do vento, / Descreveu com minúcia os modernos fornos solares / E admitiu o emprego futuro de ventos magnéticos”. Esta admissão não é o que parece interessar a ele, mas sim uma noção de tempo que é uma expansão, um tempo expandido, para provocar na história uma forja que se faça a partir da destruição e que abra caminhos, que se mova arejando, que rompa através das ruínas. E aí, a bucólica imagem insensata, que vai do jogo com a escritura do poema até uma relação com a história, quase uma desistência – “Aqui estou, nesta várzea, reduzido a professor de meninos: / Hoje vivo ensinando a empinar papagaios” – pode ser remontada num outro contágio entre os pontos inextensos e inapreensíveis da imagem para uma libertação através do gesto com a linguagem para tocar uma possibilidade de uma história autêntica, e não a exclusão deste tempo inseguro, outro, que se move como prazer e desejo, como vento e encontro impossível. Joaquim Cardozo termina o poema com uns versos que se misturam ao sabor do vento Aracati, um vento forte, que entra lateralmente na costa nordestina, nordeste a sudoeste, pelo Ceará, e que sai “– Levando nas dobras do seu manto o pólen das anteras, / Velivolvendo e suspirando entre ramagens. / Por fim, sucederam-se festas, danças de roda... / Músicas e cantos de longes mares tempestuosos, / Rodopios, volteios, caprichos, remoinhos, piões e parafusos”.

Numa passagem de um relato de Joaquim Cardozo, um manuscrito sem data, acerca de uma sezão sem fim, que o tomou de assalto dentro de um barco, com ataques de frio e febre, deitado numa rede da Baía da Traição, ou no porão do barco – uma lancha a vela – em que viajou até Cabedelo, depois num banco do trem Paraíba-Recife, volta-se a encontrar a efígie frouxa do instante numa paisagem para a acedia que é toda composta por um entorno de imagens do vento, ventos que se iniciam para a impossibilidade de se medir o tempo, de se medir a história e para a compreensão do evento da vida pequena: quando se pode morrer. O ato mais radical do relato é a composição da autobiografia apagada como desvio da escritura, através da figuração do vento que comparece – tanto no poema como no relato abaixo – como a imposição de um vazio acidental e expansivo para dentro, como uma interrupção perigosa da passividade e do desastre. Porque o desastre pode se compor na impropriedade de um nome, na desaparição de um nome; Blanchot diz que o desastre é um tempo em que já não se pode por em jogo uma vida que se procura, nem “por deseo, ardid o violencia” (1987: 41), e que “mediante esse juego, seguir manteniendo, tiempo em que calla lo negativo y a los hombres ha sucedido el infinito inquieto” (1987: 41). O jogo de Joaquim Cardozo com o vento é que há uma morte possível e, como tal, a iminência de morrer passa a ser uma fala que suplica a este infinito inquieto e numa busca da vida através de um desvio da escritura para tocar num rumor as possibilidades de um real impossível, num vento que é o jogo do desvio da escritura: “um vento contínuo, batido, meticuloso; jogava, oscilava, dançava sobre as águas; se erguia, aprumava-se, subia; e de novo, do sul, nos trazia uma vibração de asas diluídas, desfeitas, decompostas, um ritmo pesado, seguro, constante”; e num desafio de enfrentamento do desconhecido que estremece – “penetrávamos com a vela inclinada, até um ponto muito avançado, no mar, como procurando contornar o vento, ou descobrir dentro dele uma passagem; depois cambando e molhando a vela, voltamos até bem perto da praia, num ziguezague lento e monótono” – até uma espera para uma fresta, um neutro da linguagem do vento, seu negativo, sua diferença oculta, seu fragmento de morte: “A lancha velejava sempre ao longo da muralha do vento, à procura de uma fresta, de uma fenda, na ventania desesperada, de uma abertura para poder passar e, do outro lado, encontrar outro vento mais amigo, suave e leal”. O relato passa a ser um informe do vento como um informe da escritura autobiográfica, uma desconfiança, uma falsificação da aparência da própria morte: “escribir para que lo negativo y lo neutro, en su diferencia siempre oculta, en la proximidad más peligrosa, se acuerden mutuamente de su própria especificidad” (BLANCHOT: 1987, 39) :

Agora, de volta, viajamos com vento contrário, o vento Sulão, que soprava do sul, do fundo escuro da noite, de um longe sul de um horizonte que se perdia entre nuvens

espessas; um vento que vinha, lambendo a superfície das águas, erguendo as ondas da maré baixa, impulsionando as nuvens escuras e fragmentadas.

O vento era um vento contínuo, batido, meticuloso; jogava, oscilava, dançava sobre as águas; se erguia, aprumava-se, subia; e de novo, do sul, nos trazia uma vibração de asas diluídas, desfeitas, decompostas, um ritmo pesado, seguro, constante; com ritmos, ora permanentemente do sul, ora ligeiramente variando para leste, para o horizonte do mar; mas sempre contra, contra a nossa vela aberta naquela noite incompleta, naquela noite que, dentro em pouco, iria concluir-se.

Para avançarmos na direção de Cabedelo, precisávamos bordejar, éramos forçados a bordejar, o que iria prolongar a viagem em muitas horas. E os tropeços que iria dar esse bordejo em ziguezague de linhas retas, de linhas líquidas e vacilantes? A que horas avistaríamos Cabedelo? Bordejamos.

O Barco navegava penso de um lado.

Bordejamos, assim, ao longo de toda a costa da Paraíba: desde a Baía da Traição até o porto de Cabedelo: penetrávamos com a vela inclinada, até um ponto muito avançado, no mar, como procurando contornar o vento, ou descobrir dentro dele uma passagem; depois cambando e molhando a vela, voltamos até bem perto da praia, num ziguezague lento e monótono. Depois, puxando de novo as escotas da vela latina da lancha e cambando-a, dirigimos de novo o barco para o longínquo horizonte marítimo. Era um bordo difícil, de oscilações muito longas, um movimento como de negaças diante do Sulão que continuava a soprar sem cessar. A assobiar e a zumbir num assobio agudo e melancólico, um uivo como se viesse de uma matilha de lobos perdidos e famintos naquele mar generoso. Fomos assim bordejando, procurando vencer o forte vento que não nos dava trégua, que continuamente soprava naquele fim de noite, naquela vindoura madrugada; o barco ia adernado de um lado; por isso, ficávamos sentados do outro lado como contrapeso; junto a nós estava o taiassu – a âncora da lancha – para manter melhor o equilíbrio, mas o vento forte continuava a adernar o barco.

(...)

Com aquele bordejo contínuo comecei a enjoar de maneira intensa, mas o bordo continuava. A lancha velejava sempre ao longo da muralha do vento, à procura de uma fresta, de uma fenda, na ventania desesperada, de uma abertura para poder passar e, do outro lado, encontrar outro vento mais amigo, suave e leal.

(...)

Tudo que era da Baía Formosa deixei, deixei os barcos a vela, o vento Sulão, a aldeia de Marcação, as belas praias da Paraíba; somente as sezões me acompanharam,

amorosamente me acompanharam, até Pernambuco, até o Recife, até a Rua da Estância, onde eu morava.

(CARDOZO: manuscrito, s.d.)

A assombração desta passagem permitiria esta mordedura no tempo, este antipensamento fundado agora num tempo saído dos eixos, ou num outro ponto, ínfimo, que seria o do pequeno ponto de sentido que se abre para o infinito, para o deserto. Isto abriria também, numa interrupção, a poética de Joaquim Cardozo para o tal encontro inesperado com a assombração, construindo uma ficção dela e nela mesmo, sabendo o quanto disso é o impasse sempre provável e irresoluto do poema moderno sem u-topos: uma espécie de não há como, não houve como, não haverá como. Um sem saídas e ao mesmo tempo um aberto ao silêncio do rumorejar. Agamben vai dizer que uma idéia da linguagem pode ser um lugar onde realmente exista silêncio, um lugar onde a beleza humana se abre ao silêncio, e que isto “no es simplesmente una interrupción de la conversación, sino silencio de la misma palabra, el hacerse visible de la palabra: idea del lenguage.” (1988: 97) Ou ao menos, que seja, o silêncio como rumor e estremecimento de um território mais instável ainda, mais inseguro ainda, silêncio que não é mais um órgão, mas sim uma sensibilidade inteira, o coração dilatado. Uma espécie de corpo giróvago, vazio, sem posse do tempo, sem posse territorial, com o máximo de identidade e sem nenhuma outra que não seja alguma qualquer, a de um deserto sem qualidades, como já disse, por exemplo, ao reproduzir a expressão radical de Blanchot: O deserto é o fora.

segundo móbil

No documento Joaquim Cardozo: um encontro com o deserto (páginas 91-96)