quarto móbil No poema de Joaquim Cardozo intitulado Os Objetos Antes da Noite, há a imagem de uma
OS OBJETOS ANTES DA NOITE
Por que os objetos se esvaziaram Se desocuparam dos seus volumes? Das suas cores se derramaram E emagreceram nos seus limites,
Deixando no ar, apenas, halos extremais? – Por quê ? Se ainda não é noite. . . A sombra ainda não chegou
E sem a sombra todos eles não perderam A sua utilidade, e, nem enlou-
queceram. Por que então ficaram assim noturnos? Por quê ? Se ainda não é noite. . . De transparências inconstantes De arquiteturas oscilantes
Parece que regrediram ao ser do ante-ser
À sugerência do que seriam antes da forma que lhes deram. – O que aparece é o que parece: um parecer
Por que essas imagens de fraturas E dentre as fendas um sorriso oculto? Um trismo da forma, um cirro mudo De uma esquecida morte: incerto vulto. É como se fragmentos já fosse tudo. Por quê ? Se ainda não é noite. . . Fora da ilusão dos meus sentidos Oh! meus pobres objetos anti-diurnos Quanto mais guardados, tanto mais perdidos Tão tristes e taciturnos,
Tão tristes que parecem que estão mortos No esquecido seu lugar ¿noturno?
Mas, por que brilham? De uma luz de fora? Em verde, azul, e rosa de anúncios luminosos Quando começa a escurecer nas ruas da cidade. Cores fora-surgindo da primeira sombra
– Primeira camada do crepúsculo dourante – Por que brilham? Se ainda não é noite. . . É que talvez, talvez. . . é que
A noite: várias sobrepostas: Tardes sobre tardes, sobre muitas, Muitas de muitas outras acrescidas
– A noite: monte de tardes, é que vem tarde Vem tarde.
(CARDOZO: 1970)
Os objetos perdidos de Joaquim Cardozo não são apenas objetos amorosos, no sentido de uma paixão do poeta por algumas várias mulheres (tema que alguns dos poemas de Joaquim Cardozo tratam, mas que especificamente não são o foco deste trabalho), mas apenas no sentido do quanto o fantasma dos objetos perdidos se envolve como uma membrana dos entornos do poema, sopro e vento, desejo e querer, como no citado poema acima, para empenhar um desejo e uma intenção melancólica da contemplação do vazio, do ausente, através da constituição de um ermo que é a acedia
ou o deserto, acedia e deserto. Agamben diz que o “objeto da intenção melancólica é, contemporaneamente, real e irreal, incorporado e perdido, afirmado e negado” (2007: 46), ao mesmo tempo. Escrever esta dialética seria uma tentativa de dar corpo aos próprios fantasmas, de tornar predominante numa prática expressiva da linguagem, no poema de Joaquim Cardozo – que está como exemplo aqui –, aquilo que não poderia ser captado nem conhecido. Não é, em momento algum, uma tentativa de tomar a posse dos objetos, mas sim de mantê-los – em seu desaparecimento ou não aparecimento – em seus limites como uma profanação, num gesto, para interromper o mito do objeto ausente, perdido, nomeado. Para interromper a história numa súplica que é a fala inacabada do poema, uma interrupção ou um começar ativo – “Tardes sobre tardes, sobre muitas,/ Muitas de muitas outras acrescidas / – A noite: monte de tardes, é que vem tarde / Vem tarde.” –, uma fala que está ali para inacabar uma participação, para montar um deserto.
Note-se que no poema, nos primeiros versos, os objetos já aparecem sem volume, sem cor, sem limite de forma e vazios. Assim, os objetos depostos de sua forma por Joaquim Cardozo estão fazendo frente ao fetiche, porque não ousa fazê-los existir outra vez, dar-lhes outra forma, alguma que seja, mas prefere mantê-los na fantasmagórica realidade do objeto perdido, sem desespero, sem nenhuma revolta, mas apenas uma experiência interior que opta por uma “oscilação da arquitetura”, uma forma oscilante, o informe. Nos versos “Fora da ilusão dos meus sentidos / Oh! meus pobres objetos anti-diurnos / Quanto mais guardados, tanto mais perdidos / Tão tristes e taciturnos, / Tão tristes que parecem que estão mortos / No esquecido seu lugar ¿noturno?”, ele inverte e retira o procedimento melancólico do EU para os objetos, e sabendo que nestes não se pode evocar nada que não seja a partir do fragmento da palavra que os tenta roçar, integralmente como sensibilidades inteiras, numa presença da ausência, imaterial e intangível, para um além de si mesmo. Objetos sem epifania, sem valor de uso, sem valor de troca. E o que interessa é a noite que demora a chegar trazendo uma superposição de tardes conjuntas, o que interessa é que junto com a noite cheia de tardes vem uma sombra, uma assombração, esta figura para além do humano, este mistério, esta outra matemática, esta “fantasmática inapreensibilidade do ser vivo” (AGAMBEN: 2007, 87) em que a poesia pode fulgurar como assombração.
A imagem da sombra, da mancha, da sombra manchada, que comparece no poema Canto do Homem Marcado, que abre esta parte do trabalho – “Sou um homem manchado de sombra / No sonho, no sangue, no olhar, / Sou um homem marcado” –, é a mesma que se revolve num poema de seu livro de 1975, O Interior da Matéria, intitulado As Sombras Manchadas. Este poema recupera a volubilidade da noite, que é o nome e o tempo sem, escuridão e limite, possibilidade e infinito, que sempre vai fulgurar a vida tomada por dentro da sombra, em todas as suas manchas fragmentadas, que seja. A noite é um dos temas que indica algumas sugestões à vida pequena no seu mais terno e
resoluto desamparo; mas é ao mesmo tempo aquilo que pode preservar esta mesma vida pequena, como imagem, e que faz da poética de Joaquim Cardozo uma articulação com a idéia da vida sempre em curso, como um curso ininterrupto, uma autobiografia radical (anamnese ou esquecimento, acidente ou contemplação distraída, mas autobiografia radical).
E assim “la vida es conducida hacia el día, hacia el lenguaje, hacia el mundo, pero el dia del lenguaje, el dia del mundo tienen a sus espaldas esa silenciosa noche infantil del comienzo” (SLOTERDIJK: 2006, 50), em que podemos revolver a imagem da criança e o seu ato do desembrulho, referida por Bloch, para retomar naquilo que pode ser a imagem da sombra, a assombração, o fantasma. Sloterdijk continua dizendo que “sigue a la transparente noche de la Nada en donde el mundo busca su ocaso antes de que pueda ponerse; sigue a los inhóspitos crepúsculos en los que crecen las sombras de los nombres y destinos no pronunciadas” (2006: 51). É a transparente noite do nada com seus inóspitos e ao mesmo tempo doces crepúsculos, onde crescem as sombras e o desconhecido, é a noite que vem como uma imagem recorrente nesta poética do começar. O poema