6 FAZENDO PARTE DO COTIDIANO LOCAL
6.3 CONHECENDO O ARTESANATO BORDADO FILÉ
O bordado filé tem procedência vinculada a áreas da península ibérica, sendo encontrado nos últimos séculos em territórios de Portugal e da Itália e, posteriormente no Brasil, durante o período colonial, foi incluído em atividades educacionais para as mulheres da época (INBORDAL, [2015?]). Seus registros históricos não conseguem identificar, com precisão, quando ele surgiu no Pontal da Barra, sendo conhecido, entretanto, que os primórdios da atividade no local se deu em paralelo ao trabalho masculino na zona de pesca (LAGES et al., 1979).
Considerando que o filé, nome originário do francês “filet”, trata-se de um trabalho feito com uma agulha sobre um suporte pré-existente, ele se encontra internacionalmente catalogado como um Bordado (INBORDAL, [2015?]). A respeito dos primórdios desta atividade artesanal:
Geralmente as peças trabalhadas eram em branco e bege. Não se via filé colorido, como hoje, e se limitava a colchas, toalhas e paninhos de mesa. Uma ou duas
filezeiras mais ousadas faziam, esporadicamente, uma ou duas camisetas de homem. E, quanto às suas origens, dizem que tudo começou a partir de redes de pescaria (CODÁ, 2015, p. 44).
A pesquisa empírica revelou que, em tempos pretéritos, o filé seguia desenhos padronizados, ou seja, era feito com riscos, prática abandonada com o passar do tempo. Hoje, o processo de feitura de uma peça de filé é completamente artesanal e livre de padrões de desenhos estabelecidos. A atividade se compõe por duas etapas a serem realizadas pela filezeira.
Considerando algumas descobertas interessantes sobre as práticas adotadas referentes a este processo, observa-se a necessidade de melhor defini-lo para um melhor entendimento sobre as observações realizadas no decorrer do trabalho. Com esse propósito, o passo a passo de seu processo de produção é apresentado na Figura 2 abaixo.
Figura 2 – Processo de produção da rede de bordado Filé
Fonte: Caderno de Instruções do Filé (INBORDAL, [2015?]).
As dimensões da malha do bordado Filé em Alagoas são variadas, geralmente tendo os espaçamentos de 0,8mm, 1,0 cm e 1,5 cm (INBORDAL, [2015?]). Estando pronta a malha, a artesã prossegue para a segunda etapa do processo de preparo de sua peça. Para isso, utiliza-se de um tear (cujo tamanho varia de acordo com a vontade da filezeira), a agulha de bordar, a linha, uma tesoura e uma fita métrica.
Dessa forma, estando com todos os materiais necessários ao preenchimento da malha, o processo de produção do bordado, pelo preenchimento da rede previamente preparada, segue conforme demonstrado na Figura 3.
Figura 3 – Processo de produção do bordado Filé
Fonte: Caderno de Instruções do Filé (INBORDAL, [2015?]).
Segundo Dantas (2012), a rede tem seu preenchimento feito pela memória, sendo os pontos mais conhecidos: bom-gosto, tecido, jasmim, olho-de-pombo, três marias, barafunda, rosa, besouro, palhinha, girassol, quadrado cheio, quadrado aberto e aranha.
A goma caseira é utilizada quando a peça já está finalizada e atualmente não costuma ser aplicada no vestuário, mas é continuamente usada em peças de cama, mesa e banho, como uma forma de dar uma melhor aparência e firmeza nas peças. A observação permitiu descobrir que essa goma tem sido substituída pelo verniz a base de água, mas tal prática ainda é de conhecimento da minoria das filezeiras.
Após sua aplicação, a peça precisa secar ao ar livre e à sombra. Algumas filezeiras possuem em seu quintal armações em madeira denominadas girau, as quais são utilizadas para a secagem das peças, conforme se observa na Fotografia 4. Após a secagem, resta apenas retirar a peça da grade e aparar cuidadosamente com a tesoura.
Fotografia 5 – Peças de filé sobre o girau, secando no quintal de uma loja
Fonte: Autora, 2016.
Um aspecto importante sobre o filé de Alagoas diz respeito ao seu reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. Nesse sentido, o Governo do Estado de Alagoas instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem Patrimônio Cultural Alagoano (ALAGOAS, 2011), tendo o bordado filé sido registrado como patrimônio cultural imaterial do estado em 2014 (SEBRAE, 2014).
Tal reconhecimento foi materializado em agosto de 2016, através do recebimento do selo de certificação de Indicação Geográfica (IG), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), significando que a produção do Estado de Alagoas tem qualidade diferencial na atividade do bordado filé, passando a ser o estado especializado nesse tipo de produção (ALAGOAS, 2016b).
Apesar do certificado ter sido entregue ao Instituto Bordado Filé das Lagoas Mundaú- Manguaba (Inbordal), cujas artesãs filiadas passaram a contar com o registro comercial em suas peças (MACEIÓ, 2016), o selo poderá ser adquirido por qualquer artesã residente na região lagunar Mundaú-Manguaba, desde que siga os padrões estabelecidos para a concessão (ALAGOAS, 2016b). A relevância dessa atividade artesanal no estado pode ser observada na Figura 4 abaixo.
Figura 4 – Distribuição dos artesãos que produzem o bordado Filé no Estado de Alagoas
Fonte: Caderno de Instruções do Filé (INBORDAL, [2015?]).4
Conforme pode ser notado, o artesanato bordado filé se encontra intrinsecamente vinculado ao Pontal da Barra e, mais especificamente, às práticas cotidianas das artesãs do bairro. A forma como se processa a relação do artesanato com as práticas cotidianas locais, analisada por meio do estudo empírico realizado, passa a ser descrita nas seções a seguir.
4 A fonte original da figura acima referenciada é da Secretaria de Estado do Planejamento e Desenvolvimento
Econômico de Alagoas, 2014, entretanto, por impossibilidade de obtenção da fonte original, foi utilizada a figura da fonte secundária, a qual foi referenciada.
7 O COTIDIANO BUCÓLICO EM SEU DINAMISMO REGIDO PELA