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OS ELEMENTOS NÃO HUMANOS E SUA SIGNIFICÂNCIA NO

10 A SOCIOMATERIALIDADE OPERANTE NO ARTESANATO

10.1 OS ELEMENTOS NÃO HUMANOS E SUA SIGNIFICÂNCIA NO

Ao discorrer acerca da ação, Czarniawska (2004) destaca a presença, ou não, da intenção na ação tanto dos humanos, quanto dos não humanos, visto que, segundo a autora, a intenção pode também deixar de existir em quaisquer dos atores sociais. De maneira convergente a essa ótica, durante o período de observação se identificou a ocorrência de conflitos internos, envolvendo os atores sociais humanos e não humanos, independente de existência de intenção na ação dos atores.

No que diz respeito aos atores não humanos no contexto da Associação dos artesãos do bairro, em várias oportunidades a comunicação realizada entre os membros durante as reuniões da Associação resultava em desarmonias e ambiguidades, aspectos que motivaram o afastamento das proprietárias das lojas onde se dava a observação participante (Diário de campo). Essas mesmas desarmonias e ambiguidades foram identificadas em outras manifestações relacionadas aos atores sociais, por exemplo, quando da utilização do aplicativo WhatsApp. Observou-se que a intenção das ações dos sujeitos, ao inserirem alguns comentários no grupo criado para a comunicação dos membros, era, por vezes, motivo de conflitos internos que geralmente eram expostos durante as reuniões. O referido aplicativo era o meio mais utilizado

para a comunicação na Organização. Isso decorria, principalmente, pelo fato de que o horário e local de realização das reuniões sempre eram informados no mesmo dia do evento, incorrendo numa relação de dependência com este ator social não humano.

Outro elemento não humano bastante mencionado em reunião, mas pouco utilizado, constitui- se pelas atas de reunião. O enfoque relativo a este elemento se dá na medida em que ele se limitava à anotação, em um livro, dos pontos a serem discutidos no dia e na assinatura de uma lista de presença. Desse modo, nenhuma anotação sobre decisões, acontecimentos ou planejamentos eram registrados em ata, apesar das reiteradas solicitações, por parte das associadas para que isso fosse feito.

Nessa ótica, a informalidade existente nas reuniões se apresentava como outro motivo de conflito interno, tendo em vista que a ausência de registro dificultava a dinâmica organizacional pela incerteza quanto às decisões e atividades anteriores realizadas pela associação (Diário de campo). Diante disso, observou-se certa carência de convergência de interesses associados entre os sujeitos. Os significados gerados, em várias oportunidades, não eram equivalentes, resultando em induções diversificadas e geradoras de conflitos que dificultavam a dinâmica das ações da Associação, tanto no ambiente organizacional interno, como no externo.

Apesar dos conflitos internos existentes, foram identificadas iniciativas que buscavam demarcar o lugar da associação. Isso foi observado quando da inclusão de um outro elemento não humano no período de observação, o qual contribuiu para uma identidade organizacional, o logotipo da Associação, apresentado na Fotografia 11. Ele foi providenciado pela presidente quando da participação da entidade numa feira de artesanato em outro estado.

Fotografia 11 – Logotipo da Associação dos Artesãos do Pontal da Barra impresso em sacolas para utilização em feiras

Fonte: Autora, 2016.

O logotipo foi aprovado pelas associadas quando de sua apresentação em reunião e a criação do logotipo gerou expectativas nas associadas. Tais expectativas incidiram diretamente na possibilidade de melhoria da imagem da Associação e, consequentemente, em contribuição para a demarcação de seu lugar, o qual auxilia, portanto, na construção da identidade organizacional e influencia no sensemaking das associadas.

O sensemaking se encontra diretamente ligado à identidade dos atores organizacionais e se destaca naquilo que as pessoas pensam sobre elas (WEICK; SUTCLIFFE; OBSTFELD, 2005). Em vista disso, o ânimo entre as associadas quando da apresentação do logotipo em reunião foi bastante perceptível diante da perspectiva de uma boa impressão aos clientes e potenciais consumidores. Nessa medida, considerando as reações das associadas quanto à boa imagem a ser transmitida, observou-se uma influência da logomarca contribuindo na alteração contínua da identidade dos membros associados à organização.

Segundo Alcadipani e Tureta (2009, p. 656), “uma organização é algo extremamente complexo e multifacetado, sendo o resultado de diferentes e heterogêneos processos que, muitas vezes, não possuem coerência entre si, embora preservem alguma identidade em comum”. Tais características descrevem o ambiente organizacional encontrado, ao tempo em que as diversas ações das filezeiras, diferentes e heterogêneas entre si, caracterizando-se por estratégias ou táticas com interesses independentes, encontravam motivos para a preservação de uma identidade organizacional.

Indo além da participação na construção da identidade organizacional, os elementos não humanos se encontravam presentes na dinâmica do cotidiano do comércio local. Isso se depreende considerando que eles são tidos como colaboradores da atividade humana ao tempo em que se destacam pela presença e movimento espacial, compondo a organização (WILHOIT; KISSELBURGH, 2015). Assim se percebeu através da observação participante, por meio da qual se notou que a comunicação pelo aplicativo WhatsApp colaborava diariamente na informação relativa aos ônibus que se encaminhariam ao bairro.

A importância dessa informação se destaca pelo fato de que ela atuava no sensemaking das artesãs, tendo em vista que a presença de grupos turísticos ao bairro motivava seu trabalho. Nessa acepção, a utilização do aplicativo com a resultante informação recebida, funcionava como um incentivo por meio de expectativa de venda. Tais perspectivas, infelizmente, não eram percebidas pela maioria, incluindo-se as proprietárias das lojas de observação participante, na medida em que optavam por apenas aguardar a vinda dos clientes.

De acordo com algumas artesãs, principalmente as mais antigas, as interferências dos elementos não humanos traziam sequelas, incidentes tanto no processo de produção, quanto no que diz respeito à interação:

Mas hoje não se vê mais ninguém com tear, assim, na porta, como antigamente de noite aquela turma, quando eu botava aqui minhas filhas tudinho pra trabalhar, e era numa casa... coisa pra poder fazer isso aqui. Porque eu fiz isso aqui foi suado, trabalhando pra ter meus filho, tudo pra trabalhar eu botava. [...] É celular, computador, televisão. A televisão, não, porque eu assisto a televisão, mas... mas... mas faço. A minha filha faz, assiste televisão mas é fazendo. Mas outras pessoas, não. É... é só é ali na... no... pronto, a minha neta mesmo, essa daí, ela não quis... nunca mais! E eu ensino, olha que eu só ensino, faça isso. Faz aquele pedacinho, para, por causa do celular. Não é verdade? É! As mensagem, né? (Entrevistada F13) Observou-se que, de acordo com a entrevistada, as opções tecnológicas, anteriormente inexistentes, passaram a contribuir em dois fatores: o primeiro, para um afastamento do convívio comunitário entre as artesãs; o segundo, dificultar o processo de produção entre as novas gerações. As conversas informais também permitiram a confirmação desses fatores, aliado ao aspecto de que grande parte dos sujeitos da nova geração não pretendiam ter o artesanato como uma fonte de renda, mas apenas como um complemento de renda a ser buscado em último caso. As redes sociais, por sua vez, não se apresentaram relevantes no organizing local tendo em vista a utilização não absoluta, particular e independente das filezeiras, relativa à sua atividade.

Quando do questionamento sobre os objetos indispensáveis ao desenvolvimento da atividade do bordado filé, as entrevistadas mencionaram os seguintes: a agulha, a linha, a rede e o tear. Quanto à tesoura, foi percebido que se caracterizava por um artefato não mencionado, mas bastante adotado devido à sua utilidade. Apenas duas delas também incluíram a fita métrica, justamente aquelas que trabalhavam segundo os padrões exigidos pela certificação recebida do INPI. A relação existente entre a prática desenvolvida e os objetos pode ser percebida no relato abaixo:

Os objetos...? Primeiramente o tear, sem o tear você não trabalha, sem o tear você não trabalha. Tem que... se não tem um que preste, manda fazer um bonitinho, organizadinho pa trabalhar, né? Tem que ter o material, tem que ter a linha, tem que ter a rede, sem a rede e sem a linha você não trabalha, né isso? A agulha, a agulha... sem agulha você não trabalha, só com ar mão e os dedo você não trabalha, tem que ter agulha. Já prestou atenção, né, alguém trabalhando por aí? (Entrevistada F3) O entendimento referente à impossibilidade da prática diante da inexistência dos artefatos novamente demonstra a relevância dos elementos não humanos no organizing do artesanato bordado filé do Pontal da Barra. Ao tempo em que a realização do trabalho das filezeiras dependia de que elas obtivessem os materiais para o desenvolvimento de seu ofício, essa ideia condiz com a compreensão de que as práticas relativas ao artesanato bordado filé se apresentam “emaranhadas ao social e ao material na vida organizacional cotidiana” (ORLIKOWSKI, 2007, p. 1438, tradução nossa).

Reforçando tal afirmativa, a relação da atividade com os elementos não humanos não se limitava apenas à realização de tarefas, mas também se estendia às “maneiras de fazer” (CERTEAU, 1998) o bordado. Isso se dava “porque se você não aprende os jogos das, das cores da linha você não faz um filé bonito” (Entrevistada F1). À vista disso, a utilização das cores se apresentava como um fator importante à beleza da peça, fazendo parte do processo de produção e atuando como um incentivo ao trabalho da artesã, tendo em vista a colaboração proporcionada no que diz respeito à obtenção de renda:

O colorido... as cores da linha vivas são muito importante. A gente vende também muito assim também, porque o pessoal quando ver assim uma cor assim... você também tem que saber fazer a combinação, né? A combinação das cores, aí chama muita atenção. A gente já vende às vezes até no tear, até no tear você vende, tá entendo? Você vende no tear, porque elas acham logo bonito [...] (Entrevistada F3). Tendo sido observados aspectos em que se destacava a atuação dos não humanos na dinâmica do cotidiano analisado, nota-se, entretanto, que a significância destes no artesanato bordado filé do Pontal da Barra não se limitava aos aspectos mencionados. Considerando-se que “as cores exercem grande influência no ambiente, modificando-o, animando-o ou transformando-

o, e assim, podem alterar a comunicação, as atitudes e a aparência das pessoas presentes, pois todos nós temos reações às cores” (BOCCANERA, N.; BOCCANERA, S.; BARBOSA, 2006, p. 344), percebeu-se, que sua utilização envolvia efeitos no corpo, na mente e na produção do conhecimento dessa atividade artesanal, o que será explorado na subseção a seguir.

10.2 O BORDADO FILÉ COM EFEITOS NO CORPO, NA MENTE E NA PRODUÇÃO