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6 FAZENDO PARTE DO COTIDIANO LOCAL

6.1 CONHECENDO O BAIRRO

O Pontal da Barra se localiza numa região de restinga, diante do canal do Calunga, o qual interliga a lagoa Mundaú (antes dessa desembocar no mar) à lagoa Manguaba (SANT'ANA, 1989) e possui a última praia do perímetro urbano, na zona sul de Maceió. O local era anteriormente tido como um bairro de pescadores que moravam em choupanas cobertas de palha, as quais se localizavam espalhadas pelo canal (LAGES et al., 1979).

O bairro existe desde 1792, na época, com apenas 30 edificações e 56 habitantes, vindo a contar com o fornecimento de energia elétrica somente em 31 de janeiro de 1954, durante o Governo Arnon de Mello (SANT'ANA, 1989). O local apresentou um grande crescimento populacional, no ano de 2010 já contava com uma população de 2.478 habitantes e 915 domicílios (CARVALHO, 2012b). Os nascidos no bairro são denominados Pontalenses. De acordo com Sant'Ana (1998), o local viveu por anos praticamente esquecido pelos poderes públicos, tanto que só veio a ter uma maior facilidade de acesso ao turismo em 1965, com a construção de uma rodovia, paralela ao mar, destinada a ligar a Escola de Aprendizes de Marinheiros ao centro da cidade. O mesmo autor menciona também aspectos que trazem uma maior compreensão sobre as origens do comportamento dos habitantes locais. Segundo ele, a fácil obtenção de meios necessários à sobrevivência pela interação homem-ambiente, adquiridos pelos recursos renováveis dos ecossistemas produtivos das lagoas e canais, os levou a um intenso isolamento, enfatizando suas características de comunidade fechada principalmente, pelos fortes laços de parentesco (SANT'ANA, 1989), tendo São Sebastião como padroeiro local (CODÁ, 2015).

Apesar de se localizar numa área de beleza natural, o Pontal sofre com a degradação ambiental. Mesmo com o reconhecimento de significativas alterações ambientais e na população local, aliado ao entendimento de que os benefícios econômicos seriam anulados pelos altos custos sociais (SANT'ANA, 1989), a fábrica da Salgema iniciou a produção de cloro e soda cáustica com a instalação de sua unidade industrial na região da restinga em fevereiro de 1977 (CARVALHO, 2012a). Tratando-se de um complexo industrial de grande porte, o Complexo Cloroquímico de Alagoas (SANT'ANA, 1989), ou Salgema S.A., teve seu controle acionário transferido para a empresa Trikem, atualmente denominada Braskem S/A,

controlada pelo grupo Odebrecht (CARVALHO, 2012a), continuando a provocar danos tanto ao meio ambiente, quanto à população local, os quais buscam ser atenuados por projetos ambientais e sociais.

Apesar dessa interferência industrial no ambiente, o Pontal da Barra se trata de um bairro tombado “através de proposição anexada ao Processo CEC-n°3, de 11 de agosto de 1987” (SANT'ANA, 1989, p. 123). Referido tombamento se deu por duas etapas diferentes. A primeira, pelo bairro do Pontal da Barra e sua restinga e, posteriormente, com a Zona da lagoa Mundaú e seus canais (SANT'ANA, 1989). Para se ter uma melhor ideia dos efeitos advindos com a implantação de referido complexo industrial nas proximidades da comunidade do Pontal, observe-se trecho abaixo sobre a finalidade do tombamento do bairro:

O pedido de tombamento do conjunto de bens constituído pelo Bairro do Pontal da Barra e de sua respectiva restinga [...] objetiva salvaguardar a área a ser tombada, das especulações imobiliárias, de uma maior degradação de seu meio ambiente natural (solo, água, ar atmosférico, fauna e flora), no caso da instalação de novas fábricas, ou mesmo de depósito de substâncias químicas, dentro de uma restinga de tão pequeno porte, como é a de Maceió [...] (SANT'ANA, 1989, p. 137).

Realizado como uma forma de proteger o local, a pesquisa empírica demonstrou que o tombamento do Pontal é fato conhecido pelos moradores. Os mesmos também possuem o conhecimento de que habitam nas proximidades de uma Unidade Industrial de Cloro-Soda que oferece ameaças consideráveis, tanto ao entorno, quanto à qualidade de vida dos habitantes da comunidade do bairro onde vivem. À vista de tais aspectos, a Braskem S/A por meio de projetos socioambientais, como o Projeto de Meio Ambiente, iniciado em 2001 no bairro do Pontal da Barra, busca oferecer incentivos às práticas sustentáveis, cursos, qualificação educacional e diversificação de ocupações, auxiliando no fomento à mobilidade social da comunidade (CARVALHO, 2012a).

Os habitantes do bairro dispõem de 1 igreja, 1 escola municipal de Ensino Fundamental 1 e 2; 1 posto de saúde ao lado da escola; 1 creche próxima ao estacionamento dos ônibus; 1 colônia de pescadores que funciona como um local de reuniões e eventos; 1 balança para a venda de peixe; farmácias populares; padarias; e mercearias ao longo do bairro. Não há bancos, correios ou lotéricas disponíveis aos moradores, os quais dispõem de apenas um caixa eletrônico 24 horas, localizado na única pousada local.

Uma vez que existe uma forte vinculação da Braskem S/A com o Pontal, com várias menções à indústria durante à realização da pesquisa empírica, observou-se a necessidade de possibilitar ao leitor um breve conhecimento a respeito dessa ligação.

No que diz respeito ao turismo local, seu desenvolvimento se deu na mesma época da divulgação do artesanato por parte da Empresa Alagoana de Turismo (Ematur) na década de 1970, em exposições interestaduais e após o acesso facilitado, com a construção da mencionada rodovia (SANT'ANA, 1989). Anteriormente as artesãs se dirigiam às portas de hotéis, repartições públicas ou ao cais do porto para a venda em navios (SANT'ANA, 1989) de seu artesanato filé. Ao tratar dessa época, Codá (2015) possibilita um bom panorama histórico sobre os primórdios do artesanato filé do Pontal da Barra:

Era preciso ir ao encontro do turista. E um dos poucos que ousavam ir até os navios, atracados no porto de Maceió, era Carlos Codá, com uma mala cheia de toalhas e colchas de filé, geralmente da malha miúda. [...] A maioria das filezeiras, por outro lado, traziam suas obras para vender, por preços bem abaixo do devido valor, a Laurentino, em Maceió, o terror não do sertão, mas das mulheres rendeiras do Pontal da Barra. Era um homem mal humorado, de uma avareza insuportável em relação às linhas que comprava por atacado, em São Paulo, e que as repassava às filezeiras, pesando numa balança a quantidade de linha que cada uma levava. Se na volta, com as peças feitas, o peso não fosse o mesmo, ah, aí o galo cantava na casa de Noca! As filezeiras mais danadas discutiam e não deixavam por menos, pois ele também precisava do trabalho delas e não havia concorrência; as mais tímidas tremiam e chegavam até a chorar de raiva (CODÁ, 2015, p. 43-44).

Mas não é só do artesanato que vive o Pontal, seu potencial turístico abrange também agradáveis passeios lacustres como o passeio das nove ilhas, um dos mais conhecidos no local, realizado pelas águas da Lagoa Mundaú. Nos dias atuais, o Pontal conta com cerca de 120 lojas, em que o filé se apresenta como seu produto principal e mais 25 lojas de produtos artesanais diversificados, num total de 145 lojas de artesanato efetivamente abertas, mas com espaços disponíveis para a instalação de mais lojas.

Este número foi contabilizado pela pesquisadora na área que se localiza entre a igreja do bairro e a última loja de artesanato, próxima a um grande estacionamento onde costumam ficar os ônibus de turismo. O referido espaço comercial diz respeito à concentração de lojas do local e tem uma extensão de cerca de um quilômetro, numa rua estreita e de mão única, com calçadas irregulares e estreitas, em que também se encontravam situadas as lojas que serviram de locais de observação para a pesquisa, as quais são descritas na subseção a seguir.

6.2 CONHECENDO OS LOCAIS DE OBSERVAÇÃO