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Apesar de existirem numerosos e diversificados estudos sobre o turismo, “a investigação científica tem-se caraterizado por um lento desenvolvimento” (Silva, 2004: 10). Tal facto pode ser justificado pela “incompreensão da real complexidade do turismo, surgindo, por isso, prioridades como a promoção ou a perspetiva industrial deste sector, em detrimento de uma perceção global e mais adequada à interdisciplinaridade das experiências dos seus vários intervenientes, ao planeamento, ao desenvolvimento tecnológico e às próprias políticas a desenvolver” (Silva, 2004: 11). Em Portugal, apesar de nos últimos anos os estudos na área do turismo terem aumentado substancialmente, existe, ainda, segundo Firmino (2007: 24) “uma lacuna no conhecimento da indústria do turismo ao nível empírico.”

O turismo, sendo uma “disciplina” transversal, mas com fundamentos epistemológicos próprios, teve origem nas várias ciências sociais, nomeadamente na História, Geografia, Economia, Sociologia, Política, Antropologia e na Gestão (Firmino, 2007). A revisão da literatura na área do turismo permitiu constatar a complexidade do fenómeno turístico, bem como conhecer melhor e mais aprofundadamente a sua natureza multifacetada.

Numa investigação como esta, dada a natureza do trabalho em questão, importa divulgar as principais tendências na evolução do conhecimento do turismo, bem como as suas várias dimensões teóricas, consideradas determinantes para o presente trabalho. O turismo, segundo Silva (2004: 12) pode ser visto de várias formas:

• “como experiência humana, levando ao desenvolvimento e teste de modelos que ajudam a explicar os comportamentos humanos;

• como comportamento social, onde se destacam as análises sociológicas das relações visitante-residente e as análises económicas da afetação de recursos escassos e o valor social atribuído ao próprio crescimento turístico;

• como componente geográfica, onde sobressaem a identidade e análise de regiões com vocação turística;

• como recurso, com as investigações a privilegiarem o equilíbrio entre preocupações ambientais, sociais e económicas;

• como actividade empresarial, onde a investigação tentará encontrar as melhores soluções em termos de eficiência das estruturais organizativas;

• como indústria, onde o destaque vai para a organização industrial da cadeia de valor.”

Dada a grande diversidade de elementos que constituem o turismo, nenhuma área científica, por si só, pode acomodar, tratar ou compreender o turismo na sua totalidade, e os problemas não podem ser resolvidos, recorrendo-se a um único método de pesquisa (Silva, 2004).

A respeito do conhecimento e da análise do turismo Jafari (1990; 2005) identificou, desde a década de 1960, quatro plataformas do conhecimento em turismo, referenciando, para cada uma delas o posicionamento, face ao turismo, da sociedade e do meio académico. A primeira plataforma apresentada pelo autor é a plataforma de defesa (advocacy platform), surge no período em que o turismo era defendido por investidores e organizações internacionais, pois era visto como um fenómeno que apenas trazia benefícios para os territórios. Neste primeiro período, que compreende o período de reconstrução e expansão económica pós Segunda Guerra Mundial, enfatizavam-se os benefícios do turismo, pois acreditava-se que o turismo era capaz de reconstruir economias porque criava emprego e trazia divisas do exterior (Santos et al., 2009). Esta plataforma dá especial relevo aos benefícios económicos da atividade turística, vista como complacente do ponto de vista ambiental e, em particular aos países em desenvolvimento, uma alternativa economicamente viável (Jafari, 1990). Pela razão acima exposta, segundo Hardy et al. (2002), esta plataforma pode ser vista como precursora do conceito de turismo sustentável.

A segunda plataforma é denominada plataforma da advertência (cautionary platform) e surge a partir do momento em que a sociedade toma consciência de que o turismo não tem apenas impactos positivos, mas também negativos, sobre a sociedade. Nesta fase, o turismo é identificado como uma atividade essencialmente voltada para os turistas e, ignorando as necessidades das comunidades locais, que gera conflitos e destrói a cultura local e os recursos naturais.

A terceira plataforma é a de adaptação (adaptancy platform), que aparece no início dos anos 1980 e se carateriza por enfatizar as formas alternativas de turismo, nomeadamente o turismo verde, no sentido de minimizar os seus impactos negativos. Nesta altura, a comunidade académia, as organizações governamentais (OG) e as organizações não- -governamentais (ONG) assumiram um papel importante na defesa de um turismo mais sustentável e os estudos sobre o turismo passaram a focar formas de operacionalizar um turismo que provocasse menos impactos negativos (Gomes et al., 2006).

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um turismo sustentável (Jafari, 1999; 2005). Com o objetivo de se entenderem as suas estruturas e funções subjacentes, nesta plataforma o turismo é visto como um todo, como um sistema (Lopes et al., 2010). Esta plataforma adota um enfoque holístico para o estudo do turismo, não se limitando à consideração dos seus impactos ou formas, isto é, realça a necessidade de uma abordagem sistémica, vê a atividade turística numa perspetiva holística (Lopes et al., 2010).

As plataformas de Jafari (2005), que contribuíram para a reformulação constante dos conceitos de turismo, mostram as mudanças que, ao longo do tempo, ocorreram nas abordagens à problemática do turismo. Estas quatro plataformas, que surgiram cronologicamente pela ordem apresentada, não se substituíram entre si, mas antes, as quatro coexistem atualmente. Porém, foi a última, a plataforma do conhecimento que ficou responsável pelo despertar dos académicos do turismo a nível mundial (Jafari, 2005).

O turismo é um poderoso “agente” responsável por alterações a nível económico, ambiental, social e cultural (Eusébio, 2006). Dado o seu papel relevante e a sua natureza interdisciplinar, multifacetada e complexa, o turismo tem sido alvo de diversas abordagens que têm dado origem a uma multiplicidade de definições (Firmino, 2007; Harill, 2004). Nesta ordem de ideias, pretendendo-se nesta investigação avaliar o papel do turismo enquanto motor de desenvolvimento e dada a diversidade de definições de turismo, considera-se crucial uma análise conceptual do turismo.

O primeiro conceito de turismo, que remonta a 1911, é atribuído ao economista austríaco Herman Schrattenhofen, segundo o qual turismo é um conceito que compreende todos os processos, especialmente os económicos, que se manifestam na chegada, na permanência e na saída dos turistas de um determinado país (Barreto, 2003). Contudo, no decorrer do século XX outras definições surgiram. Segundo Smith, Jafari escreveu em 1997 a primeira definição já com uma dimensão académica: “o estudo do homem fora do seu habitat quotidiano, do sector de actividade que satisfaz as suas necessidades e dos impactos que aquele e este produzem no meio sociocultural, económico e físico dos seus anfitriões” (Smith, 1988: 180). Segundo Mathieson e Wall (1982, citado em Henriques, 2003: 22) “o turismo consiste no movimento temporário para destinos fora do lugar normal de residência de trabalho, bem como nas atividades desenvolvidas durante a estada e as facilities criadas para satisfazer as necessidades dos turistas.” Esta definição, para além de enfatizar, quer o lado da procura, quer o lado da oferta, destaca-se, no conjunto de muitas outras definições, no sentido em que ela agrupa um conjunto de características inerentes ao turismo.

Pela análise das definições de turismo existentes, Leiper (1979), por sua vez, identificou três orientações nas conceitualizações: (i) uma Económica – que traduz a importância económica e empresarial do turismo, mas criticada por não reconhecer alguns dos elementos básicos do turismo (temporal, humano e físico); (ii) outra Técnica – que visa a caraterização e

mensuração dos mercados turísticos; e, por último, (iii) uma Holística – que procura captar a totalidade da natureza do turismo. Na tentativa de colmatar as deficiências existentes nalgumas definições de turismo, Leiper (1979: 403-404) defini-o como um:

“ (…) sistema que abarca as viagens discricionárias e a permanência temporária de pessoas fora do seu local habitual de residência por uma ou mais noites, excetuando as deslocações efetuadas com o objetivo principal de obter remuneração nos pontos dessa rota. Os elementos do sistema são os turistas, as regiões geradoras, as rotas de trânsito, as regiões de destino e um setor turístico. Com características de um sistema aberto, a organização dos cinco elementos opera-se em ambientes mais amplos: físico, cultural, social, económico, político, tecnológico, com os quais interage”.

Outros autores (Gunn e Var, 2002; 1994a; Inskeep, 1994, Moscardo; 2011; Poon, 1993) definem, também, o turismo como um sistema, destacando a interdependência que existe entre os diferentes atores. Das várias abordagens existentes, considera-se que a abordagem sistémica de Leiper (1979) é aquela que mais se ajusta a esta investigação, uma vez que ao incorporar diferentes elementos (geográficos, humanos, organizacionais) e ao interligá-los entre si, adota uma perspetiva interdisciplinar do fenómeno turístico. Por sua vez, a Organização Mundial do Turismo (OMT) define turismo como o conjunto de (WTO, 2001: 1):

"actividades que as pessoas realizam durante suas viagens e permanência em lugares distintos dos que vivem, por um período de tempo inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer e negócios e outros não relacionados com o exercício de uma atividade remunerada a partir do local visitado.“

Apesar de existir uma panóplia de definições de turismo, segundo Henriques (2003), nenhuma ganhou até ao momento o estatuto de aceitação generalizada. Hunt e Layne (1991), Smith (1988; 1989) e Leiper (1993) justificam essa indefinição pela natureza interdisciplinar do turismo, levando a que cada investigador o defina em função da sua formação académica. Contudo, apesar de não existir uma definição consensual, que sirva as várias abordagens que se debruçam sobre esta área do conhecimento, segundo Bull (1995) existem aspetos do turismo que são tidos em consideração em todas as definições, nomeadamente as necessidades e as motivações dos turistas, a forma como os destinos turísticos são selecionados, as interações que se desenvolvem entre os turistas (procura turística) e aqueles que atuam de forma a satisfazerem as necessidades dos turistas (oferta turística). A Tabela 3.2 apresenta algumas definições de turismo, agrupadas em duas abordagens.

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Tabela 3.2 – Definições de turismo

Autor/Ano Conceito Abordagem

Leiper (1979)

O turismo é um setor que é constituído por empresas, organizações e equipamentos que satisfazem necessidades específicas dos turistas, através do fornecimento de bens e serviços para satisfazer necessidades específicas desses mesmos de turistas.

Oferta

Mathieson e Wall (1982)

O turismo é um movimento temporário para destinos fora do lugar normal de residência e de trabalho, bem como as atividades desenvolvidas durante a estada e as facilidades criadas para satisfazer as necessidades dos turistas.

Oferta/Procura

Mclntosh e Goeldner (1986)

Turismo é um setor fragmentado em muitas partes e várias

atividades. Oferta

Smith (1988)

Bens e serviços utilizados pelos visitantes, sendo que alguns desses bens e serviços são destinados exclusivamente aos visitantes e outros podem ser utilizados por visitantes e residentes.

Procura

Herman von Schulland (1910)

Soma das operações, fundamentalmente de natureza económica, relacionadas com a entrada e o movimento de estrangeiros

dentro de um determinado país, região ou cidade. Procura Murphy (1995)

A oferta de turismo é altamente fragmentada, com muitos tipos de negócios e muitos níveis de industrialização, todos eles tem com a finalidade de contribuir para a satisfação do visitante.

Oferta

Bull (1996) O turismo é a oferta organizada de bens e serviços aos visitantes

num dado destino. Oferta

Costa (2005)

O turismo integra um vasto sistema de atividades transversais que inclui matérias relacionadas com a economia, sociedade, cultura, património e ambiente, de especificidade intrínseca às características dos produtos e da atividade da «indústria» do turismo (intangibilidade e perecibilidade).

Oferta

Fonte: Adaptado de Costa (2005), Eusébio (2006) e Renda (2012).

Independentemente do conceito de turismo, não há dúvidas que se trata de “um fenómeno social da modernidade, de dimensão global e com manifestações diferenciadas nos territórios” (Renda, 2012: 13). Frequentemente descrito como uma atividade multifacetada que ultrapassa os sectores convencionais da economia, o turismo requer dados de natureza económica, social, cultural e ambiental (Lickorish e Jenkins, 2000).