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PARTE I: Inovação e progresso técnico

2.2 A transmissão do conhecimento

2.2.1 Conhecimento e propriedade intelectual

Dois elementos centrais são determinados a priori para que ocorra o processo de transmissão de tecnologias: informação e conhecimento.

Dosi (1995) explicou que a informação se refere a qualquer proposição devidamente enunciada e codificada acerca de propriedades da natureza e que o conhecimento se expande para muito além disso, abarcando todo um referencial do receptor da informação, para decodificá-la e utilizá-la. Por exemplo, um artigo de pesquisa de qualquer fronteira do conhecimento é informação, mas a maioria dos seres humanos não é capaz de usar esta informação, pois não é capaz de realmente conhecê-la. Para isso, é preciso ter domínio da ciência em questão. Enquanto a informação é algo codificado e, até certo ponto, externo a seu detentor, o conhecimento de cada agente é único e, em alguma medida, intransmissível, ou seja, possui elementos intangíveis ligados ao conhecimento, não facilmente acessíveis ou copiados.

Em contrapartida, o conhecimento apresenta cumulatividade. Isso significa que, quanto mais se conhece, mais se está apto para a aquisição e transferência de conhecimentos (Dosi, 1995). Mas seu papel econômico vai além do aspecto técnico que isso pode sugerir (Possas, 1999). À medida que o conhecimento vai se tornando mais desenvolvido, se é possível replicá-lo para fins industriais, ocorre um movimento: os países que dominam essas tecnologias tentam coibir o fluxo desses conhecimentos, e os outros países que estão, em certa medida, retardatários nessas tecnologias tentam se apropriar/ aproximar dessa fronteira tecnológica (Chiarini, 2014).

Nesse jogo econômico, caracterizado pela interdependência das firmas, estar e/ou se aproximar da fronteira tecnológica é o mesmo que sobreviver no mercado. Entretanto, o conhecimento não é um processo trivial, facilmente acessível ou copiável e posto em prática automaticamente pelas firmas. Sua construção ocorre de forma coletiva, caracterizada principalmente pela lentidão e cumulatividade, e por meio de esforços de pesquisas (em universidades e institutos de pesquisa, mas também em laboratórios de P&D de empresas privadas), e trata-se de um recurso vital para o processo de aprendizado. Nesse processo, em diversos setores industriais, as firmas adotam medidas de diferentes estratégias competitivas, que seguem incessante busca pela construção de aptidões para geração de processos inovativos.

Supondo que uma firma com problemas decorrentes da colheita manual de determinado cultivo, como solução, investe em atividades de P&D e consegue desenvolver uma máquina que passe a fazer a colheita mecanizada. Na medida em que essa máquina pode ser replicada ou copiada, a tecnologia pode ser transferida para outras firmas/ países. Porém, trata-se de um processo moroso, que envolve inexoravelmente o processo de aprendizado e adaptação para que essa tecnologia seja incorporada. Em outras palavras, é necessário ter aptidão tecnológica. Por exemplo, se pensarmos no caso da Coreia do Sul, esse país fez um esforço prodigioso para erradicar o analfabetismo, investiu na estrutura educacional superior, como a formação de engenheiros, entre outros. Toda essa mudança estrutural acabou determinando o processo de aprendizado, e o país conseguiu incorporar e replicar diversas tecnologias no mercado. Como resultado, logrou diversas fronteiras tecnológicas, entre elas, o paradigma da Tecnologia da Informação e Comunicação (TICs) (Chiarini, 2014), mais além, conseguiu superar problemas sérios de subdesenvolvimento19.

De forma geral, as aptidões são um conjunto específico de competências (tecnológicas, inventivas etc.) e formam ativos complementares de uma determinada firma/ agente. As competências definem, portanto, o que uma firma pode fazer, moldam sua estrutura organizacional, limitam as escolhas possíveis e estão diretamente vinculadas à maior amplitude de possibilidades inovativas (Malerba; Orsenigo, 1993). As inovações aumentam quanto maior e mais expansivas são as oportunidades tecnológicas20, quanto maior for a cumulatividade do progresso técnico21, quanto menor o grau de apropriabilidade das inovações22 e quanto mais ampla é a base de conhecimento. Em outras palavras, quanto maior essa base de conhecimentos, maiores são as chances de aprendizado e maiores as chances de ampliar as aptidões tecnológicas necessárias para o processo inovativo (Chiarini, 2014). Nesse sentido, a possibilidade de codificar ou não o conhecimento determina em parte como serão os padrões de aquisição ou acumulação. Quanto mais codificado for o conhecimento, como é

19 Sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento, ver Furtado (1981, 1994).

20 Oportunidades tecnológicas podem ser criadas por avanços científicos e por avanços tecnológicos

realizados na própria firma ou em outras firmas/ instituições (Klevorick et al., 1995).

21 Se o progresso técnico for cumulativo, a vantagem relativa de um país em relação a outros não

provém de qualquer “dotação inicial”, mas de conhecimentos tecnológicos diferenciais, de experiências etc., que se produzem através do tempo (Dosi, 2006).

22 As condições de apropriabilidade resumem as possibilidades de proteger as inovações de imitação e

de extrair lucros de atividades inovadoras. As empresas utilizam uma variedade de meios, a fim de proteger as inovações, tais como patentes, inovação contínua etc. Baixas condições de apropriabilidade denotam ambientes econômicos caracterizados pela existência generalizada de externalidades (Malerba; Orsenigo, 1993).

o caso da patente23, mais rápida será a transferência. No outro extremo, quanto menos codificado, ou seja, quanto maior for o conhecimento tácito, a sua difusão será mais lenta.

Como as firmas dependem de sua base de conhecimento e das experiências passadas, a capacidade de inovação se diferencia entre os agentes. Portanto, é uma tentativa de capturar a grande variedade de conhecimentos e competências necessários para adquirir, assimilar, usar, adaptar, modificar e criar tecnologia (Kim, 2005, 1997; Radosevic, 1999). A aptidão tecnológica permite às firmas identificar o valor de novas informações externas, assegurar seu poder de barganha nas negociações de transferência de tecnologia, assimilar o conhecimento transferido e deixá-las mais sensíveis às novas oportunidades tecnológicas.

A importância da aptidão tecnológica está na ideia de capacitação das firmas e na possibilidade de criar vantagens comparativas, em contraposição às vantagens associadas à abundância de recursos naturais. Desse modo, fica evidente a intenção de se construir aptidões tecnológicas por outras vias de vantagens competitivas, sem serem as vias de vantagens da natureza (Furtado, 1994). Por isso, a geração e a transferência de conhecimento se transformaram em variável estratégica do desenvolvimento tecnológico, deixando de ser apenas um atributo incorporado aos produtos. Nesse sentido, a articulação entre ciência e apropriabilidade do conhecimento foi considerada o principal ativo da economia contemporânea global. Ao mesmo tempo, a garantia da propriedade intelectual firmou-se como pilar institucional do desenvolvimento de novos conhecimentos.

No caso do Brasil, o pilar institucional da propriedade intelectual foi reestruturado no início dos anos 1990, após a assinatura do acordo internacional sobre os aspectos de direito de propriedade intelectual relacionados ao comércio – Agreement on Trade-Related Aspects of

Intellectual Property Rights (TRIPS). As resoluções assinadas entraram em vigor somente em

1995, e, um ano depois, foi promulgada a Lei de Propriedade Intelectual (LPI), Lei nº 9.279/199624 (Vieira; Buainain, 2004). Nesse momento, foram regulados os direitos e obrigações relativos à propriedade intelectual, assegurando ao autor de invenção ou modelo de utilidade o direito exclusivo e temporário. A legislação estabelece alguns critérios para a concessão desse direito: novidade – quando desconhecida dos cientistas ou pesquisadores

23 Patente “é um documento que descreve uma invenção e cria uma situação legal na qual a invenção

pode ser explorada somente com a autorização do titular. Em outras palavras, é um dos meios de se proteger a inovação”. “Impede outras pessoas de utilizarem comercialmente a invenção patenteada, reduzindo a concorrência”. “Uma patente protege uma invenção e garante ao titular os direitos exclusivos para usar sua invenção por um período limitado de tempo em um determinado país”. “Um pedido pode ter a patente concedida num país e recusada em outro, ou pode ser extinta em um país e se manter válida em outro” (DL 101P BR – Módulo 7 – Patentes WIPO/ONPI/INPI).

especializados –, atividade inventiva – a invenção não pode derivar de forma simples dos conhecimentos neles reunidos –, industriabilidade – quando demonstrada a possibilidade de utilização ou produção do invento.

Ainda Vieira e Buainain (2007) mostram que, diferente de alguns países, como Estados Unidos e Argentina, no Brasil a LPI na forma tradicional de PI explicita não serem passíveis de proteção “o todo ou parte dos seres vivos, exceto os microrganismos transgênicos”, afastando a possibilidade de proteção de plantas e animais. No que tange à proteção relativa à manipulação dos genes humanos, aplica-se ainda a proibição geral de proteção das invenções que forem contrárias à moral e aos bons costumes25. Neste particular, a controvérsia é acirrada, pois setores da sociedade interpretam que a manipulação genética não deveria ser objeto de proteção, tal como ocorre com “técnicas e métodos operatórios, bem como métodos terapêuticos ou de diagnóstico, para aplicação no corpo humano ou animal”, que no país não são considerados como invenções.

Nesse sentido, tanto a polêmica como o marco institucional têm efeitos diretos sobre a dinâmica inovativa já que, enquanto no Brasil se veda a patente de técnicas, deixando desprotegidos os eventuais inventores, nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) essa proteção é acolhida. Salienta-se que no Brasil o patenteamento de organismos vivos é proibido. No entanto, para a tecnologia da transgenia estes organismos são passíveis de patenteamento. Dessa forma, todos organismos transgênicos no Brasil podem ser patenteados.

Na área agrícola, o Brasil optou pela Lei de Proteção de Cultivares (LPC)26. Portanto, há proteção vigente de plantas e cultivares. O objeto de proteção indica a variedade de qualquer gênero ou espécie vegetal superior que seja claramente distinguível de outros cultivares conhecidos. Para ser considerado como um cultivar, o grupo de plantas deve manter um padrão de características constantes, inclusive nas gerações subsequentes. O órgão responsável pela proteção de cultivares é o Serviço Nacional de Proteção de Cultivares

25 O debate em torno da biossegurança é bastante polêmico, preocupando-se com a manipulação

genética de um modo geral, mas com grande influência também na área vegetal. Diante desse cenário, foi promulgada a Lei de Biossegurança (LB), em 1995 (Lei nº 8.974/95), reformulada pela Lei nº 11.105 de 24 de março de 2004, que estabelece as normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados (OGMs) e seus derivados. A LB determinou a criação de dois grandes conselhos ou comissões: Comissão Técnica de Biossegurança (CTNBio) e Conselho Nacional de Biossegurança (CNBs), vinculado à Presidência da República, que tem como finalidade fixar princípios e diretrizes para ação administrativa dos órgãos e entidades federais com competências sobre a matéria, bem como analisar, a pedido da CTNBio, os aspectos da conveniência e oportunidade socioeconômicas e do interesse nacional (Vieira; Buainain, 2011).

26 Lei nº 9.456/1997. A lei pode ser acessada na íntegra no site: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/

(SNPC), que garante o livre exercício do direito de propriedade intelectual dos obtentores de novas combinações fitogenéticas, na forma de cultivares vegetais distintos, homogêneos e estáveis (Vieira; Buainain, 2011).

Ainda no marco regulatório, foram criadas a Lei de Inovação27 (2004) e a Lei do Bem28 (2005), ambas com medidas de incentivo à pesquisa e à inovação tecnológica, e instituída a Política de Desenvolvimento da Biotecnologia, em 2007, regulada pelo Decreto nº 6.401 de 2007. Esta prioriza quatro áreas setoriais estratégicas: saúde humana, agropecuária, industrial e ambiental (Vieira; Buainain, 2011). A política estabelece diretrizes e objetivos específicos para inovação, propriedade intelectual, biossegurança, bioética e acesso ao patrimônio genético, conhecimento tradicional associado e repartição de benefícios, entre outras regulamentações.

Como se vê, o país estabeleceu diversos instrumentos de incentivos e regulamentações para tentar articular a inovação e a propriedade intelectual. Todavia, apesar dos esforços institucionais, o cenário representado pelo volume de patentes depositadas é relativamente baixo, quando comparado a outros países (Chiarini, 2014). Nesse sentido, o conhecimento tecnológico, observado pelo desenvolvimento econômico, pode apresentar um problema quando não articula inovação e patentes.

Por exemplo, supõe-se que determinada firma e/ou instituição (pública ou privada) tenha aptidão tecnológica para desenvolver um produto novo, como a solução para um problema de produção agrícola. Para desenvolver o produto, a instituição percorre um caminho que envolve pesquisa (cumulatividade), desenvolvimento e inovação, além do financiamento necessário para seu desenvolvimento. Mas, se a instituição não se apropria do conhecimento tecnológico (através de mecanismos de propriedade intelectual), ela vai se distanciar dos direitos de lucro sobre o produto inventado. Caso a invenção seja, por exemplo, patenteada por outra instituição, e este produto tiver uma introdução bem-sucedida no mercado, a firma que patenteou que irá se beneficiar dos retornos da inovação. Isso porque, apesar dos diversos esforços da instituição em desenvolver o produto, ela não utilizou os mecanismos de propriedade intelectual e, portanto, encontra-se em desarticulação com a apropriabilidade da inovação.

Outra possibilidade de desarticulação entre ciência e propriedade intelectual pode ocorrer em instituições públicas de pesquisa, por exemplo, as universidades. Muitas vezes, os pesquisadores acabam por divulgar suas pesquisas em artigos científicos, sem levar em conta

27 Lei 10.973/2004, site: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-

2006/2004/lei/l10.973.htm>.

a proteção intelectual pela via de patenteamento. Quando se trata de informação científica e tecnológica, esses canais de divulgação científica podem abrir possibilidades para outros agentes/ países copiarem as ideias escritas nos artigos e se apropriarem dos conhecimentos divulgados por essas instituições. Na economia, se um país não articula ciência e propriedade intelectual (por exemplo, patentes), possibilita a transferência do seu conhecimento por via de divulgação científica para outros países. O conhecimento intelectual torna-se, desse modo, um ativo intangível capaz de gerar renda por meio do uso dos direitos de propriedade intelectual, através de licenciamentos, que incluem patentes, marcas registradas, direitos autorais, processos industriais e projetos e também segredos comerciais e franquias.

A contrapartida da apropriação privada é que o conhecimento envolvido seja revelado na patente. Isso garante que se torne público o assunto que está sendo protegido e que esse conhecimento envolvido seja de domínio público quando a patente expirar (Scotchmer, 2004). Para um conhecimento ser considerado patenteável, é necessário que o conhecimento seja materializado em uma máquina, em um produto ou processo manufaturado. Pode também se tratar de uma composição formada por duas ou mais substâncias e apresentar-se como um processo de produção, ou seja, aplicado para fins industriais. Regra geral, a invenção deve apresentar-se como uma novidade e com função industrial.

Como o conhecimento constitui a base para novas descobertas, as tecnologias envolvidas na maioria das patentes apresentam elevado grau de cumulatividade. Um estudo envolvendo informações tecnológicas de patentes e artigos científicos é o trabalho de Souza et al. (2015). Através da formulação de palavras-chave, foram investigadas redes de colaboração em etanol de 2ª geração.

No trabalho de Murakami (2015), a autora mostra, através dos IPCs, que as trajetórias na etapa de hidrólise enzimática para bioetanol estão sendo construídas. No trabalho de Krafft et al. (2009), os autores examinaram a estrutura e a evolução da base de conhecimento do setor de biotecnologia durante as décadas de 1980 e 1990, por meio da análise de informações de patentes disponibilizadas pelo banco de dados do Escritório de Patentes Europeu (European Patent Office – EPO) e da aplicação de ferramentas metodológicas típicas de análise de redes sociais. Concluíram que a metodologia de analisar informações de publicações e patentes é uma possibilidade de representar o conhecimento de fronteira tecnológica29.

29 “The possibility to represent knowledge as a network provides an adequate conceptual foundation

for the study of processes of knowledge generation and utilization in firms and industries. To identify all the variables and the connections present in the knowledge base of a firm at the lowest possible

As metodologias disponíveis e aplicadas são diversas, bem como há uma pluralidade de indicadores desenvolvidos para análise de documentos de artigos e de patentes (Murakami, 2015; Souza, 2013; Dal Poz et al., 2013), uma vez que estes são canais codificados de divulgação do conhecimento científico e tecnológico. Nesse mesmo sentido, as redes de colaboração internacional, atualmente, cumprem papel essencial na geração e transferência de conhecimento, ponto tratado a seguir.

level of aggregation would be a prohibitively expensive task. An approximate version can then consist of identifying relatively ‘small’ units of knowledge and their connections. We identify these ‘small’ units within the traces of knowledge which have been used so far, such as patents and publications” (Krafft et al., 2009).

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