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Conhecimento e transformação: deixando de ser “um qualquer”

4. AS FALAS ANCESTRAIS E A COSMOPOLÍTICA WAIKHANA

4.6. Conhecimento e transformação: deixando de ser “um qualquer”

Portanto, deste ponto em diante, as histórias dos diversos subgrupos e clãs Waikhana se particularizam, marcadas por brigas, disputas por prerrogativas, rupturas, deslocamentos, migrações e alianças com segmentos de outros grupos exogâmicos. Conforme já ressaltamos, são estas histórias que dão conta de explicar a atual divisão e organização dos segmentos waikhana, bem como sua distribuição pelo território. Esta é, assim, uma parte importante da narrativa no que diz respeito àquele âmbito de relações que tratamos no terceiro capítulo e que, inspirados em F.Cabalzar, chamamos de “política dos homens”. Pois conhecer estas histórias e, mais ainda, assumir um ponto de vista sobre elas, seria um modo de atuar numa política local permeada por controvérsias e disputas em torno da hierarquia e das relações atuais que se deslindam entre grupos, clãs e indivíduos tendo como base estes relatos sobre o passado.

Contudo, para aqueles interessados, sobretudo, nos saberes maiores que as falas antigas informam, esta seria também uma “história menor”, sem grandes poderes, já que remete a um tempo cada vez mais afastado do tempo-espaço mítico dos primeiros ancestrais, fonte das potências criativas responsável pela perpetuação da vida. É por isso que, mesmo com o trabalho de tradução incompleto da fala de Laureano, restando ainda por traduzir quase uma hora de gravação, pude perceber que para Marcelino o principal já havia sido cumprido, pois que é nesta “Grande História” aqui apresentada que estaria todo o conhecimento maior dos Waikhana: a partir dela seria possível acessar um poderoso corpus de saberes ancestrais cuja posse, hoje restrita a um pequeno número de conhecedores, permitiria manejar os mais importantes bahseye e, com eles, os poderes e vitalidades oriundos do passado mítico.

Podemos supor, assim, que com a previsão de um futuro em que não haverá mais os grandes conhecedores, ter acesso a essas falas, mesmo que por estes outros circuitos,

significaria, talvez, a possibilidade de vir a assumir certas funções vitais hoje ocupadas pelos velhos kumu. Isto, no limite, seria tomar para si a tarefa de garantir a própria continuidade da “cultura”, ameaçada com todas as mudanças que estariam afetando a vida dos Waikhana. Pois num contexto em que os próprios herdeiros destas falas não estariam mais interessados em aprendê-las de seus pais ou avôs, como estas poderiam continuar circulando e compondo almas e pessoas waikhana? Ou, na esfera mais circunscrita do clã, como assegurar a perpetuação e vitalidade do grupo quando já não houver mais quem seja, de direito, detentor destes saberes vitais? Entre os Wehetada Bahuí esta parece uma questão fundamental, já que, segundo dizem, o único filho homem de Laureano Cordeiro não estaria muito interessado nos conhecimentos de seu pai – pelo menos por enquanto, já que ele é ainda bastante jovem. Se este for realmente o caso, o que acontecerá então com a sua fala? Como estes saberes que Laureano porta, e que foram aprendidos diretamente dos antigos através de seu velho avô Raimundo (antigo chefe dos Wehetada Bahuí), poderão continuar circulando e servindo à perpetuação da vida?

De outro lado, o esforço destes que, já na meia idade, buscam aprender este tipo de conhecimento, como Marcelino e o próprio Dorvalino, parece estar também relacionado a um interesse pela aquisição de certas competências rituais que, no âmbito da (cosmo) política uaupesiana, constituiriam a condição básica para uma maior inserção no sistema tradicional de prestígio. Pois, como diziam os tukano de Iauaretê para Dorvalino, de que adianta dominar os conhecimentos dos brancos, ser padre, professor, coordenador pedagógico, se em relação aos próprios saberes se é ainda “um qualquer”, “um à toa”? O que se passa é que no universo tukano, há certas esferas de relações em que não basta ocupar uma posição de destaque na vida social pelo fato de exercer funções como estas acima referidas. Pois apesar da inegável importância que estes novos papéis sociais assumem no contexto atual do Uaupés, os saberes e habilidades que abarcam valem pouco do ponto de vista da lógica e da cosmopolítica tradicional, na qual, ao lado das posições hierárquicas, o status de “velho” parece constituir uma categoria fundamental.

Assim, ao que parece, para homens que estão chegando mais perto da velhice, exercer influência nos assuntos relacionados a estas novas esferas de atuação sociopolítica sem que se manejem também certas competências associadas aos chamados “conhecimentos tradicionais”, seria estar ainda numa posição política e intelectualmente frágil. Por isso, penso que a busca implicada nestas estratégias de acesso aos saberes ancestrais por meio das atuais iniciativas de “revitalização da cultura”, temática que guia toda a discussão deste trabalho, configura-se também num esforço em articular ou harmonizar estas duas esferas de relações que hoje se entrecruzam no universo uaupesiano. Pois realmente chama a atenção que entre os Waikhana, e particularmente, no âmbito do subgrupo Wehetada Bahuí, estes que estão encabeçando as iniciativas de “revalorização da cultura” e de registro dos “conhecimentos tradicionais”, são justamente homens cuja formação intelectual esteve, em grande medida, voltada aos conhecimentos escolares. Na verdade, o que parece estar em curso hoje, e isto em toda a região, é um movimento de apreensão dos saberes e competências ditas “tradicionais” por meio das habilidades adquiridas com a própria formação escolar.

Por fim, há ainda um ponto fundamental a ser ressaltado: o fato de que estes homens, além de pertencerem ao último dos subgrupos waikhana, conforme já discutimos no terceiro capítulo, também não ocupam posições de destaque na hierarquia de seu próprio clã. Dorvalino é de uma baixa linha do terceiro clã dos Wehetada Bahuí, chamado Manu Yuhkuphin (ver Quadro 1, p. 82). E Marcelino, ainda que pertença ao primeiro clã deste subgrupo – o qual também leva o nome de Wehetada Bahuí – não faz parte da linha principal, aquela que, idealmente, deteria a prerrogativa da chefia e o controle da atividade ritual. Nesse sentido, podemos supor que aquilo que observamos no terceiro capítulo em relação à esfera macro do grupo de descendência, a saber, certas inversões no sistema de prestígio envolvendo subgrupos e clãs, poderia, num futuro próximo, se replicar na esfera mais circunscrita do grupo Wehetada Bahuí. Pois, justamente, aqui, como ali, uma mistura de contingências e agenciamentos pode vir a gerar certas flutuações no sistema sociocosmológico da hierarquia e do prestígio, fazendo com que os irmãos menores acabem por exercer um controle sobre as falas ancestrais em

detrimento daqueles que seriam, idealmente, os seus herdeiros legítimos – como o filho de Laureano, por exemplo.

Tudo isso, enfim, nos leva a constatar que aquilo que destacamos em determinados momentos deste trabalho enquanto esferas complementares, mas distintas do universo de relações waikhana e tukano em geral, se encontrariam, na verdade, articuladas numa mesma dinâmica vital: o que chamamos de “política dos homens” não seria mais do que um agenciamento para dentro da esfera humana dos saberes e poderes oriundos do passado mítico e que são manejados no âmbito de uma cosmopolítica que, como vimos, envolve os humanos, os ancestrais, os demiurgos, a Gente Peixe.