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Conhecimento Situado e Conceito de Gênero

No documento Uma teoria político-feminista do cuidado (páginas 32-36)

1.1 Um campo de Estudos Feministas

1.1.1 Conhecimento Situado e Conceito de Gênero

No início da década de 1980, pesquisadoras como Lorraine Code (1981) e Sandra Harding (1982) perguntaram-se sobre a importância epistemológica (ou não) do sexo anatômico do agente do conhecimento e das experiências vividas por mulheres. Em especial, deu-se atenção ao tema do poder e para o fato da posição social dos sujeitos afetar o que e como se sabe. Para essas autoras, as diferenças no campo da experimentação e da interação individual com o mundo levariam a diferentes perspectivas. Neste sentido, a identidade do agente de conhecimento é relevante para a compreensão dos processos implicados na tomada de conhecimento e há um vasto campo de experiências, diferenciadas entre si, alocadas nas mais variadas posições sociais.

O conhecimento humano seria sempre situado e marcado pelas relações nas quais cada indivíduo se encontra. Além disso, certas posições sócio-políticas apresentariam uma vantagem epistêmica em relação a outras servindo de ponto de partida para uma produtiva investigação sócio- científica. Esse seria o caso de grupos marginalizados e/ou desprovidos de status, como as mulheres. Sua posição periférica e marginalizada permitiria perceber detalhes da realidade social e dos demais atores sociais (incluindo os grupos privilegiados) suscitando questões potencialmente valiosas para as teorias sócio-políticas (HARDING, 1993; BOWELL, s/d). Assim sendo, a investigação científica, especialmente aquela que se preocupa com relações

5Não é a exigência de rigor científico que é criticada, mas a delimitação entre saberes que contam (autorizados por quem decide o que é ciência) e saberes que não contam ou são descritos como secundários ou inferiores. Para feministas, toda teoria é produto das circunstâncias históricas, esteja-se consciente disso ou não. É preciso, pois, ter uma objetividade forte (HARDING, 1993) mediante a consciência da própria situação histórica e de que nosso conhecimento é socialmente situado. Só podemos observar o que somos capazes de ver e isso ocorre a partir do nosso lugar social.

de poder, deveria começar com o estudo da vida e das questões levantadas por esses grupos6.

Para as feministas, seria preciso, pois, desenvolver formas de conceituar a realidade que reflitam os interesses e valores das mulheres e que se baseiem na interpretação da mulher sobre a sua própria experiência. A construção de uma realidade mais justa, livre e igualitária exigiria a modificação das teorias e da realidade levando em conta o ponto de vista situado das mulheres. Tal ponto de vista precisaria ser construído em conjunto, pelos mais variados sujeitos (negras, lésbicas, idosas, migrantes, neurodiversas, burguesas, operárias...), respeitando a pluralidade das experiências e identificando os pontos em comum.

Simultaneamente à discussão sobre a importância metodológica das narrativas das mulheres e da inclusão das mesmas como sujeitos e objetos de conhecimento, feministas atreladas às Ciências Sociais e à Antropologia começaram a desenvolver um conceito que auxiliasse a pensar a recorrência do fenômeno da dominação masculina, sem atribuir-lhe causas naturais, como ocorria com as demais teorias. Até meados da década de 1970 não havia nenhuma teoria que explicasse a grande variedade e similaridade da opressão das mulheres através das mais diversas culturas e ao longo da história. A análise marxista era usada com o intuito de explicar esse fato, no entanto, apesar da evidente utilidade das mulheres para o sistema capitalista, antropólogas apresentavam registros de sociedades não-capitalistas nas quais a dominação das mulheres também era uma realidade (ZIRBEL, 2007, p.130). Em meio a esse debate, um ensaio antropológico defendeu a ideia de que todas as culturas possuem um sistema de modelagem das personalidades e comportamentos humanos, identificado por esta autora como um sistema de sexo/gênero (RUBIN, 1975).

Diferenças físicas individuais são comumente utilizadas pelos grupos humanos como base para a criação de expectativas sociais que auxiliam na definição de comportamentos considerados apropriados e que determinam, igualmente, acesso a direitos, recursos e posições de poder. Tais expectativas podem variar de conteúdo e grau entre as várias sociedades, não havendo, por exemplo, um padrão universal para o papel masculino ou feminino que perpasse todas as culturas (SPADE e VALENTINE, 2008). No entanto, 6A Standpoint Theory foi desenvolvida por feministas que levaram em consideração a dialética senhor-escravo hegeliana e a ideia marxista de que há um “ponto de vista do proletariado” que se faz presente na consciência de classe. São representantes deste tipo de trabalho em Epistemologia, Nancy Hartsock (1983) e Donna Haraway (1988), além de Dorothy Smith, Hilary Rose, Patricia Hill e Sandra Harding (todas com textos publicados em HARDING, 2004).

Gayle Rubin (1975) e outras feministas apontaram para a semelhança no que diz respeito à criação de um desequilíbrio de poder que favorece alguns homens, em especial, e ao grupo dos homens de maneira geral. Parafraseando Marx que, em sua obra Wage Labor and Capital, indagara o que é um escravo negro, Rubin perguntou o que vem a ser uma mulher doméstica ou domesticada. A resposta estaria na organização das relações sociais. Uma mulher é uma representante da espécie humana que se torna uma doméstica (ou uma esposa, uma prostituta...) em certas relações. Tornava-se necessário compreender as relações que transformam a fêmea da espécie humana em um ser subordinado: as relações de gênero.

A percepção da existência de um sistema de gênero auxiliou as pesquisadoras a pensarem nas construções sociais e identitárias de mulheres e homens em termos de sistemas culturais e relações de poder. Após algumas décadas de trabalho nessa direção, é possível definir o gênero como um atributo cultural (e, portanto, mutável), eficaz e normativo, atuante no plano simbólico, identitário e das estruturas sociais, configurando um sistema que, por sua vez, não é neutro, mas opera gerando e distribuindo privilégios que propiciam diferentes formas de controle e subjugação.

O gênero é composto por um conjunto de imagens, ideias e definições que um determinado grupo humano tem sobre o que é masculino ou feminino, um homem ou uma mulher, um gay ou uma lésbica etc. Tal conjunto de ideias e imagens é utilizado para enquadrar cada membro em um comportamento considerado adequado. O ponto de partida, que serve de critério de escolha sobre quais conceitos e imagens devem ser usados para cada novo indivíduo, é um dado físico. A genitália humana é utilizada como base para o primeiro conjunto de classificação e divisão do grupo em duas grandes categorias (homens e mulheres), seguidas de outras classificações caso os indivíduos se desviem dos modelos comportamentais estabelecidos (virago, “bicha”, “sapatão”...).

A maioria das sociedades faz uso, de maneira explícita, de apenas dois gêneros (masculino e feminino) e que correspondem ao sexo biológico de machos e fêmeas. No entanto, ao longo da história foram registrados grupos que adotaram papéis de gênero para indivíduos cujo comportamento configurava o oposto daquele atribuído ao sexo biológico ou à crianças nascidas com as marcas genitais de ambos os sexos. Como exemplo, podemos citar certos grupos nativos da América do Norte que possuíam quatro papéis de gênero: homens-masculinos, mulheres-femininas, homens- femininos e mulheres-masculinas, sendo os dois últimos identificados como possuidores de uma espiritualidade dupla. A organização social em torno de quatro gêneros (ou a existência de indivíduos bi-espirituais) foi documen-

tada em mais de 130 grupos espalhados por um vasto território do Canadá e dos EUA (GILLEY, 2006; ROSCOE, 1991). Outro exemplo são as comunidades paquistanesas e hindus formadas por transexuais, transgêne- ros, travestis e eunucos (chamados de khwaaja sira ou hijras). Nesse caso, a não-regularidade da genitália masculina é o dado que autoriza o ingresso no grupo, havendo, em algumas situações, ritos de iniciação que incluem a remoção do pênis e do saco escrotal (NANDA, 1998; AGRAWAL, 1997).

Em sociedades com um sistema de gênero em funcionamento, o mesmo é eficaz e normativo uma vez que prescreve maneiras aceitáveis de ser e agir e, ao fazê-lo, produz determinados modos de conduta. O conjunto de imagens e ideias de gênero atua, simultaneamente, em três diferentes planos: no simbólico, no identitário e junto às instituições sociais (SEVENHUIJSEN, 1998, p. 48). No plano do simbólico, utiliza-se de imagens de feminilidade e masculinidade para atribuir significado a fenômenos que de outra forma seriam percebidos como não tendo relação com o gênero (chorar, não chorar, cuidar de outras pessoas....). No plano identitário, julga e controla as formas como homens e mulheres se mani- festam e desenvolvem imagens de si, produzindo identidades individuais e coletivas. Em se tratando das estruturas sociais, o gênero determina as posições dos sujeitos dentro das mesmas, bem como as formas conside- radas adequadas de acesso a direitos e recursos. Uma série de elementos e instituições (família, religião, leis, mídia, livros didáticos, narrativas etc.) é utilizada para produzir os efeitos de gênero, configurando um sistema.

As prescrições e os resultados produzidos pelo sistema de gênero não são neutros do ponto de vista moral ou político, visto que o mesmo autoriza e produz privilégios, relações desiguais de poder, dominação e violência. E como observa Lindeman (2006, p. 12), relações desiguais de poder “definem os termos sobre quem deve responder a quem, quem tem autoridade sobre quem e quem está dispensado de certos tipos de prestação de contas e diante de quem”. Em geral, o gênero interage com outros marcadores sociais (como raça, classe, nível de escolaridade, idade, religião, orientação sexual, nível de saúde mental, etnia etc.) e subordina não apenas mulheres a homens, mas homens negros a homens brancos, mulheres negras a homens e mulheres brancas, pessoas com certas marcas físicas ou neurológicas (de baixa estatura, com mais peso, neurodiversa, sem mobilidade nas pernas etc.) a pessoas com um físico padrão, pessoas de idade avançada (consideradas não produtivas do ponto de vista econômico) a adultos tidos como produtivos etc.

Paralelamente ao desenvolvimento da Teoria do Conhecimento Situado e dos estudos sobre o sistema de gênero, uma vasta e profícua

discussão feminista foi iniciada no campo da Filosofia Moral em torno do que ficou conhecido como Ética do Cuidado. Através do esforço conjunto de pesquisadoras das mais diversas áreas, principalmente na História, é possível verificar que importantes discussões éticas sobre a situação das mulheres (e que podem ser classificadas como feministas) vêm acontecendo no ocidente desde o século XV.7 No entanto, apenas na segunda metade do século XX parte dessas discussões conquistou algum espaço no campo da Ética e da Filosofia Moral por conta do desenvolvimento da Ética do Cuidado.

No documento Uma teoria político-feminista do cuidado (páginas 32-36)