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O poder transformativo das atividades de cuidado

No documento Uma teoria político-feminista do cuidado (páginas 56-58)

1.4 Dos atributos morais às atividades de cuidado

1.4.2 O poder transformativo das atividades de cuidado

Virginia Held, assim como Sara Ruddick, também fez uso do modelo mãe-filho para pensar as relações de cuidado. No entanto, ao invés de focar no tipo de pensamento desenvolvido nas atividades maternas, Held concentrou-se nas pessoas que as exercem (mothering persons) e no resultado das suas atividades. A relação mãe-criança, ao invés de ser vista como algo biológico e natural, é concebida como metáfora, ou um “tipo ideal” weberiano, para abordar uma forma de conhecimento moral negligenciada. Em Feminism and Moral Theory (1987), Feminist Morality (1993), Non-Contractual Society: a Feminist View (1994), dentre outros, ela explora este tipo de conheci- mento moral e o poder transformativo do processo de criação de crianças.

Para Held, o resultado das atividades envolvidas no processo de cuidado infantil iria muito além do meramente reprodutivo visto que transforma entidades biológicas em seres humanos sociais (HELD, 1987/2007, p. 160). A complexidade e criatividade envolvida não seria em nada inferior a de outras atividades humanas, uma vez que “criar novas e melhores pessoas é tão 'criativo' quanto criar novos e melhores objetos ou instituições” (HELD, 1987/2007, p. 161). A compreensão

[...] da língua e de símbolos e de tudo o que criam e tornam real ocorre nas interações entre criança e cuidadores/as. Nada parece ser mais distintamente humano do que isso. [...] aqueles que maternam criam novas pessoas. Eles mudam seres humanos, a cultura e as estruturas sociais que deles dependem, por criarem o tipo de pessoas que podem continuar transformando a si mesmas e seus entornos (HELD, 1987/2007, p. 160-161, grifo nosso).

Pelo resultado que gera, o cuidado é definido como uma atividade moral e uma atividade política criativa. Tal definição permite a Held pensar questões de justiça, direitos e poder envolvidas nas relações de cuidado.21 A situação de vulnerabilidade da criança e a posição de poder da pessoa que materna são apontadas como base para se pensar a necessidade de princípios 21Virgínia Held encontra-se entre as duas gerações de eticistas do cuidado e seu trabalho assume gradativamente características mais políticas. Optou-se por colocá- la nessa parte da tese por conta da sua tendência inicial de pensar as relações de cuidado atreladas à maternidade e das mudanças que ocorrem no campo de pesquisas sobre o cuidado após Joan Tronto. Tronto é considerado o marco central da mudança de foco das pesquisas, da Ética para o Político, como veremos a seguir.

concernentes a direitos e obrigações que auxiliem a evitar dominação (HELD, 1987/2007, p. 163). Uma relação degenerada entre cuidador- criança (ou cuidadora-esposo) pode ser tão ou mais opressiva quanto a de um empregador-empregado e ainda mais cruel. Por conta disso, seria preciso uma habilidade moral maior ainda para abordar questões de justiça e direitos no domínio da família do que nos outros locais de trabalho.

Ao pensar o poder em uma relação não abusiva, Held (1994, p. 125) observa que o mesmo não é comumente considerado de grande utilidade para quem cuida, uma vez que não lhe serve para o que é central na relação (promover o desenvolvimento da criança). O mesmo pode ser dito sobre a criança: diante da maioria dos projetos que tem para conseguir crescer, sua relativa ausência de poder lhe é praticamente irrelevante. De igual forma, o resultado das atividades de cuidado é inverso ao que se costuma pensar para relações de poder visto que implementa o crescimento transformativo da parte considerada fraca ou vulnerável na relação.

Held também toca no tema da justiça, mas de forma diferente da abordada por Gilligan, uma vez que pontua a existência de uma distribuição desigual de cuidados na sociedade e reivindica, para tanto, a intervenção da justiça. A distribuição desigual dar-se-ia de duas formas: no recebimento e no fornecimento de cuidado. As mulheres, em geral, não recebem a mesma quantidade de cuidado e suporte empático que oferecem aos demais membros da família e da sociedade (HELD, 1994, p. 226), o que seria uma clara violação da justiça distributiva. De igual forma, o encargo exclusivo das atividades de cuidado às mulheres torna esta uma área de exploração que também precisaria ser enfrentada pela justiça (HELD, 1993, p. 228). Como observou em Justice and Care (1995),

[…] as mulheres claramente precisam de mais justiça e equidade do que têm recebido na vida política, no trabalho, na escola, e especialmente em casa, na divisão do labor no lar. Onde o cuidado é talvez mais proeminente - em meio à família e no contexto da saúde e do bem-estar – a justiça é certamente tão necessária quanto (HELD, 1995, p. 1-2). Held defende a ideia de que os valores centrais à uma Ética do Cuidado feminista, que denuncia e enfrenta a posição desigual das mulheres em relação à distribuição desigual de cuidado, deveriam se fazer presentes no espaço público tanto quanto o são no privado. Apesar da justiça e das regras de direito serem um elemento central da organização pública, esta (e a própria humanidade) não subsistiria sem as relações de cuidado (HELD,

1987/2007, p. 173)22, o que tornaria o cuidado o valor moral básico, primordial. No trabalho de Held (1993; 1994) há, igualmente, uma crítica ao modelo político-liberal moderno (contratualista) entendido por ela como possuindo uma visão atomística da natureza humana e tendo como paradigma o homem econômico, alguém fundamentalmente voltado para si, auto-interessado, independente, em competição e com medo dos demais. Além disso, o status de pessoa (personhood) e o respeito entre os indivíduos estaria atrelado ao fato de se ter (ou não) direitos, como o direito à propriedade e o direito de não sofrer a interferência de outros em sua vida pessoal (ter liberdade, no sentido negativo de liberdade).

O princípio liberal da não-intrusão seria insatisfatório por excluir do foco da deliberação moral as necessidades de pessoas dependentes. O repertório moral precisaria incluir noções de intimidade, confiança e uma noção mais robusta de cooperação, bem como reconhecer a afetividade, as conexões e a compaixão como importantes fontes de raciocínio moral. Além disso, como observa Sevenhuijsen (1998, p. 12), a metáfora de Held implica uma visão diferente da privacidade e da pessoalidade ao colocar as atividades de cuidado entre aquelas que deveriam ser pensadas e valorizadas pelo todo da sociedade e propor que se pense na relação mãe-filho como um ponto de partida diferenciado para um modelo alternativo de raciocínio que, além de moral, é político.

No documento Uma teoria político-feminista do cuidado (páginas 56-58)