2.1 Joan Tronto e a Ética do Cuidado
2.1.1 O cuidado como processo de sustentação da vida
Tronto, juntamente com Berenice Fischer, definiu o cuidado como […] uma atividade genérica que compreende tudo o que fazemos para manter, perpetuar e reparar nosso mundo, afim de que possamos viver nele tão bem quanto possível. Este mundo compreende nossos corpos, nós mesmos e nosso meio ambiente, tudo o que tentamos manter interligado em uma complexa rede que dá suporte à vida (TRONTO, 2009, p. 103).31
Uma das primeiras observações que se pode fazer quanto a esta definição, além dela ser muito abrangente, é a de que o cuidado assim definido não aparece como uma questão marginal da vida de seres humanos, mas central para a sua existência. De igual forma, não é algo confinado às 30Como observam Moliner, Laugier e Paperman (2009, p. 17), não se trata de negar que as mulheres tenham desenvolvido saberes e um conhecimento do mundo construído por meio do trabalho de cuidado que desempenham. O que Tronto não aceita é a ideia de que a natureza tenha algo a ver com isso. Parafraseando Simone de Beauvoir, essas autoras comentam que (p. 15) não se nasce alguém que cuida, nós nos tornamos assim.
31Uma definição elaborada, inicialmente, em “Toward a Feminist Theory of Caring” (TRONTO, 1990). Voltaremos a essa definição no capítulo quatro, elaborando algumas críticas a ela.
relações pessoais ou familiares, nem mesmo apenas a seres humanos. Há, igualmente um fator de durabilidade e não apenas de ocasiões pontuais. Além disso, ainda que não haja uma referência direta a este fato, podemos deduzir que também as instituições sociais e políticas entram no escopo das atividades realizadas no intuito de dar suporte à vida, assim como manter e perpetuar o mundo no qual se vive.
Quanto à larga abrangência da definição, Tronto admite ser muito difícil trabalhar com ela, mas acredita ser este um dos seus aspectos essenciais uma vez que o cuidado se faz necessário em todos os lugares e é tão universal e onipresente, tão ubíquo à vida humana “que quase nunca é considerado pelo que realmente é: um conjunto de atividades mediante as quais agimos para organizar nosso mundo de sorte que possamos viver nele tão bem quanto possível” (TRONTO, 2009, p. 14).
A generalidade das atividades de cuidado estaria atrelada a dois aspectos importantes que pouca atenção receberam das teorias morais: a constante necessidade que se tem das mesmas e a posição na qual nos encontramos em meio a vasta rede de atividades necessárias à manutenção da vida (como agentes e objetos). Visto ser necessário sempre cuidar de nós mesmos, tais atividades nunca serão suficientes ao ponto de não precisarmos mais de grande parte delas. Além disso, são atividades cotidianas, corriqueiras, repetitivas e necessárias que correspondem, simultaneamente, a uma capacidade de agir e a uma dependência. Em relação ao cuidado, somos, a um só tempo, agentes e objeto da ação de outros.
Apesar dessa centralidade e onipresença do cuidado na realidade social, o mesmo foi ignorado por teóricos políticos. O universo das atividades de cuidado seria compreendido como algo relativo às classes baixas da sociedade (mulheres, membros de determinadas castas, traba- lhadores, imigrantes etc.), aqueles que são comumente os mais excluídos da política (TRONTO, 2009, p. 15). Esses dois fatos (a invisibilidade nas teorias de algo tão central à realidade humana e a associação desse algo com classes consideradas subalternas) poderiam nos dar informações significativas sobre o contexto político dos argumentos morais das sociedades modernas.
Como observa Garrau (2008, s/p.), Tronto desloca o questionamento em torno do cuidado. Ao invés de privilegiar a questão do conteúdo de uma Ética do Cuidado e sua relação com uma Ética da Justiça (como suas ante- cessoras vinham fazendo) ela privilegia o problema político do contexto no qual as atividades de cuidado entram em cena para perceber o que é ou não percebido como teoria moral. Assim, tornou-se possível estabelecer uma relação entre a marginalização do cuidado como orientação moral e a invisibilidade social das suas atividades, bem como das necessidades humanas mais básicas.
Tronto (2009, p. 32-33) pontua que certas ideias funcionam como limites/fronteiras em relação àquilo que excluem. No caso do cuidado, três ideias em especial teriam servido para desqualificá-lo, limitando-o e tornando-o invisível e/ou circunscrito a um espaço específico.
1. A ideia da distinção entre moral e política (considerando a primeira como algo próprio para o campo das relações pessoais e a segunda como o campo da manutenção da ordem pública, da alocação dos recursos e dos argumentos gerais e resolução de conflitos) (TRONTO, 2009, p. 33-36).
2. A ideia do ponto de vista moral imparcial e abstrato para fundamen- tar teorias (que desqualifica a aproximação das condições concretas de uma sociedade e privilegia a razão como única fonte confiável de conhecimento) (TRONTO, 2009, p. 36-37). 3. A ideia da distinção entre vida pública e vida privada (e a circunscrição
das mulheres e das atividades de cuidado ao espaço do privado) (TRONTO, 2009, p. 37-38).
As três ideias precisariam ser compreendidas como construções humanas atreladas a determinado contexto e, por isso, passíveis de modificação. Observá-las de perto poderia revelar uma estrutura que privilegia alguns indivíduos dentre o todo da sociedade e, como observam Molinier, Laugier e Paperman (2009, p. 12), esse seria o motivo pelo qual o cuidado é visível apenas em parte, uma parte cuidadosamente circunscrita: às mulheres, aos pobres, aos imigrantes.
Tronto acredita que as atividades de cuidado, tal qual estão organizadas política e socialmente, legitimam a manutenção e acumulação de poder e privilégios para os mais poderosos. E esse quadro teria se formado com o aparecimento dessas três fronteiras durante o século XVIII, marcado por transformações cruciais na forma de vida de um número muito grande de pessoas por conta da revolução industrial (novos costumes, diminuição das distancias, acumulação de capital, necessidade de novas regras de grupo, de organizações políticas etc.).32 Esse novo contexto demandaria um “minimalismo moral” (TRONTO, 2009, p. 59), algumas regras básicas e gerais, passíveis de aceitação por um grupo mais largo de pessoas para regular e acomodar com mais facilidade conflitos sociais.
32Período identificado por Habermas como o da transformação estrutural da esfera pública na Alemanha (em, O Espaço Público. Arqueologia da Publicidade enquanto Dimensão Constitutiva da Sociedade Burguesa, texto de 1962) e por Élizabeth Badinter (1999; 2002) como o da formação de uma opinião pública na França.
Teorias morais contextuais, como as que estavam sendo elaboradas pelos filósofos iluministas escoceses Francis Hutcheson, David Hume e Adam Smith (enfatizando a importância dos sentimentos morais do senso comum, como a benevolência e a simpatia/empatia, e as relações de proximidade entre os indivíduos) estariam fadadas à rejeição. Por outro lado, a concepção kantiana da moral e da ética encaixaria perfeitamente aos propósitos dessa nova forma de organização social, voltada às relações mais formais e de mercado. Uma moral universalista, rigorosamente separada da ideia de interesse pessoal e baseada em regras e um conjunto de princípios racionais, abstratos, objetivos, imparciais (TRONTO, 2009, p. 57). A imparcialidade passaria, então, a ser fortemente associada ao ponto de vista moral e ao raciocínio da justiça. De igual forma, uma separação mais rigorosa entre vida privada e vida pública se tornaria possível nos discursos político-sociais.
Quanto à situação das mulheres na sociedade, poder-se-ia dizer que, no momento histórico em que poderiam exigir um lugar na vida moral e política ocidental,
[…] as fronteiras que iriam conter seus argumentos em uma esfera moral privada, menor, já estavam traçados. A fronteira entre a esfera privada e a esfera pública e o postulado segundo o qual os atores morais devem assumir um “ponto de vista moral” universalista, abstrato, removeram, no final das contas, toda a eficácia dos argumentos das mulheres. (TRONTO, 2009, p. 55).
A partir do estabelecimento das três fronteiras morais, os senti- mentos, a proximidade, o ponto de vista concreto, as mulheres e o cuidado até poderiam ser valorizados, mas se encontravam alocados em um ponto periférico, do outro lado da fronteira do político e do que seria considerado como realmente importante. Como observa Garrau (2008), as fronteiras apontadas por Tronto são também as fronteiras sobre as quais se funda a compreensão moderna de cidadania assim como um modelo de autonomia pensado como independência. Voltaremos a essas questões ao longo dos próximos capítulos.
2.1.2 A relação entre autonomia e irresponsabilidade privilegiada