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Capítulo 3. Conjugalidades, questões de gênero, relações

3.1. Conjugalidades acionando moralidades, valores sociais e

3.1.2 Conjugalidades e oficialização das relações: "Tudo

Os participantes da pesquisa vivenciam diferentes formas de conjugalidades: casamentos, uniões estáveis, relacionamentos curtos. Para alguns as uniões civis e religiosas assumem um status social diferente, sobretudo em razão de uma visão de que há legitimidade e valorização social da conjugalidade e da família que se constrói, bem como por sua prática estar condizente com certos valores familiares cultivados. Durante os encontros etnográficos, vivências referentes a uniões estáveis e relacionamentos rápidos foram construídas, porém alguns sujeitos faziam diferenciações entre essas e outras relações vistas como oficiais.

Adriane, mãe de Mayara, embora tenha declarado seu pesar por ter conhecido seu ex-marido, ao falar sobre a conjugalidade repleta de conflitos e sofrimentos vivenciada, explicita que houve formalização no âmbito civil e religioso, aos 16 anos, após ter "fugido" com ele. Nas vivências de Adriane pesam não somente os preceitos religiosos, mas as cobranças da mãe para estar em concordância com certas regras sociais que privilegiam o reconhecimento social da união e o lugar da mulher como esposa e mãe. A advogada Malibu também fez referência à união com seu ex-marido: "Tudo certinho, no civil e na igreja". Casou-se aos 18 anos de idade, e sua família cultivava rígidos padrões morais sobre o comportamento sexual feminino, que nortearam suas práticas nos

relacionamentos. Sofia, mãe de Alucard, também explicita que gostaria que "fosse tudo certinho", porém, diante da concretização de sua gravidez e dos conflitos advindos, não pensava em casar mais, era mais importante que houvesse um desfecho para o que ocorreu111. O diálogo seria um meio para reorganizarem as vidas após a gravidez, além de possibilitar a convivência entre Alucard e o pai: "Vamos casar? Não,

então vamos ser amigos [...] acho que ele perde não convivendo com o Alucard". O casamento civil e religioso parece ter um lugar de destaque para mulheres que se mostram constituídas em configurações familiares que zelavam pela preservação da virtude feminina por meio de comportamentos tidos como adequados, o que preservaria também a honra familiar.

Daiane, uma das filhas, conta que é "praticamente casada", chama o companheiro de "namorido", o que marca a estabilidade da relação que dura 6 anos, assim como a futura oficialização da união, que ela quer realizar em outro momento. Em seus projetos individuais, o casamento e o nascimento dos filhos possuem lugar central, contudo, precisam ser concretizados quando ela e o companheiro sentirem-se preparados, o que envolve bem estar material e preparação psicológica. Seu Marcos também mencionou que somente se casou quando decidiu que era o momento adequado, depois de vivenciar sua juventude. Diferencia os relacionamentos anteriores ao casamento civil e religioso com dona Mariah, que dura cerca de 20 anos, anteriormente, seus relacionamentos eram apenas efêmeros e descompromissados. Dona Mariah aponta para cobranças sociais dirigidas ao casamento e filhos, em razão do ato de procriação, diante de gravidezes não planejadas: "A

nossa sociedade diz que essa mulher vai casar com esse homem e fazer uma família", mas que a gravidez pode ocorrer, e nem sempre ser com

"alguém que goste", justificando o que ocorreu com o marido, no caso da gravidez de Sofia. De forma geral, pensando sobre o que dizem os interlocutores, o casamento pode representar reparação da honra feminina e familiar, diante de uma gravidez; concretização de projetos individuais; inserção num rol de relações sociais em que a legitimidade se dá por meio da oficialização.

111 Faz cerca de 10 anos que Sofia oficializou uma união civil com seu atual

marido, ele reside em outro país há 5 anos. A dinâmica da conjugalidade se estabelece por meio de ligações telefônicas, com inúmeras brigas, ciúmes, como mencionam Sofia e Alucard, bem como com a estipulação de quantias enviadas pelo marido para manter a casa, o que ele nem sempre cumpre.

Para dona Mariah, a casualidade de uma gravidez e a inexistência de afeto geram frustração para homens e mulheres. A ideia de que o casamento deve ser por amor e não pela configuração de certas circunstâncias também aparece nas formulações de Malibu, o que pode resultar em relacionamentos conflituosos e não comprometimento familiar: "As pessoas resolvem dar um passo bastante sério por um

amor que às vezes que não é um amor como deveria ser, pode ser atração sexual, conveniência, aconteceu uma gravidez [...]". Historiadores descrevem que, sobretudo a partir da revolução industrial, o afeto começa a ser considerado como a base da vida familiar. Os filhos, antes tidos como mão-de-obra para a empresa familiar, segurança na velhice ou meio de perpetuação da linhagem, passam a possuir um valor antes de tudo afetivo. Da mesma forma, o amor romântico caracteriza o matrimônio ideal, ditando a necessidade da livre escolha do cônjuge (FONSECA, 2007, p. 10-11). O que essas mulheres dizem é que o amor precisa ser construído e cultivado durante a relação conjugal, e deve ser o motivo da união por meio da escolha. Os filhos são a encarnação do amor vivido entre pais e mães, possuindo grande valor afetivo. Os imponderáveis de uma gravidez, aproximar-se ou permanecer com o outro por conveniência, imprimem fragilidade as relações, pois aquelas sustentadas pelo amor são mais estáveis e sólidas para enfrentar as adversidades. Ressalte-se que durante muito tempo a sexualidade, a procriação, a filiação e a aliança coincidiam. Não era a “natureza” – no sentido mais estrito de “biologia” – que mantinha tal filiação, mas sim o casamento, a instituição que fornecia o enquadramento da procriação e sexualidade (CADORET s.d., 16 apud ALMEIDA, 2008, p. 14).

Seu Aderbal, um homem de 70 anos, um dos pais que entrevistei, enfatiza os malefícios do relacionamento quando a oficialização da relação se dá através da coação. Conta que foi "obrigado a casar", em razão de uma gravidez, pois o pai da moça era delegado, no ano de 1968. Disse que gostava da moça, mas com as imposições, o amor que sentia tornou-se raiva, impossibilitando a continuidade da relação. A imposição da oficialização da relação abalou seus sentimentos por ela, indicando que o amor precisa ser construído pelo desejo de ambos. Além disso, as imposições e cobranças do pai dela, reforçando uma masculinidade que assume seus atos, no caso, por meio da oficialização, retirava a agência de seu Aderbal, bem como o colocava no campo dos que não assumem seus atos, o que contrariava a moralidade vigente e a visão que seu Aderbal possuía de si. Em contraste com a união anterior, a vida conjugal de seu Aderbal e sua atual esposa mostra que oficializar

a relação implica, além do amor e da escolha, querer enfrentar as dificuldades que surgem e construir uma família juntos: em 35 anos de casados, com 3 filhos, a esposa tem um lugar central para a família, fornece segurança e agiliza as atividades cotidianas. O casamento anterior representou um instrumento de reparação da honra da jovem de 16 anos e sua família. Com a imposição de oficialização da união, os conflitos em torno da gravidez e a posterior separação conjugal, construiu-se um contexto que gerou afastamentos, inclusive, segundo esse pai, adiando o encontro entre ele e o filho. O casamento é importante para seu Aderbal, sobretudo, como projeto de família.

3.2. Constituições discursivas das mulheres/ mães por lados opostos