Capítulo 4. Pessoa/indivíduo e afeto nas relações familiares e
4.7. Convivência, afeto e constituição do sujeito
Os interlocutores compreendem que a convivência constrói relações e indivíduos. A temática da convivência foi discutida, tendo em vista argumentos nos processos judiciais e nos artigos científicos do campo do Direito, que traziam a problematização da ausência de convivência com o filho como sinal do abandono afetivo, interferindo no desenvolvimento da pessoa. Os sujeitos entendem a convivência como algo do construído, onde afeto, valores sociais e morais e práticas cotidianas são importantes para a continuidade dos laços familiares e constituição das individualidades. É possível dizer que: "Pressupõem o pólo da alteridade para se definir e, nessa medida, só se "existe" em relação" (SALEM, 1992 apud SALEM 1997, p. 87). As práticas familiares e afetivas vividas na convivência produzem subjetividades, e forneceriam boas condições para se relacionar com as demais pessoas no mundo social: "Uma criança amada, uma pessoa amada é mais feliz, e
vai saber lidar melhor com as outra pessoas [...]", diz o advogado Erick. O afeto é um elemento que habilita para agência, habilita para viver experiências individuais e se inserir no mundo social. É preciso pontuar também que as práticas dos sujeitos mostram que a constituição se dá tanto com a presença como com a ausência do afeto, tanto com a presença como com a ausência do pai. Mudam os contextos, as dinâmicas, as relações, mas há a individualização de qualquer forma.
"Convivência" é partilhar experiências e momentos, tomar café juntos, participar de festas, conversar longamente, "ensinar e aprender", negociar as diferenças, fazer ligações telefônicas para saber como o outro está, preocupar-se com sua saúde física e com o que vivencia em seu cotidiano (alegrias, dificuldades, vitórias, etc.). É comprometer-se com o outro, dar e receber afeto, cuidar, orientar e fornecer limites. Uma das formas de pensar a constituição do sujeito contemporaneamente,
correlacionando com a convivência, encontra-se nas formulações de Foucault sobre os regimes de subjetivação. Em meio a relações afetivas e práticas cotidianas circulam poderes/saberes, que de forma produtiva individualizam mediante atos permanentes de reiteração (FOUCAULT, 1993, 1995; FONSECA, 1995). Nesse processo, tornar-se sujeito é objetivar-se por meio da sujeição a poderes e suas tecnologias. A palavra sujeito possui dois significados: sujeito a alguém pelo controle e dependência e preso a sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e torna sujeito. O poder é produtivo à medida que individualiza, ele produz o sujeito e capacita-o à ação. Assim, o indivíduo é objeto e efeito do entrecruzamento do poder e do saber (DREYFUS, 1995, p. 176). A família e suas práticas cotidianas, discursos, estratégias disciplinares, exemplos, orientações, limites, produz politicamente corpos e sujeitos, por meio de relações de poder.
Conviver é "ter contato", "estar presente" na vida do outro. A presença não implica estar constantemente junto fisicamente, mas promover o contato, sinalizar a preocupação com o outro. Conviver
"não é questão de quantidade (tempo) é questão de qualidade de afeto", diz a juíza Marise142. Em outras palavras, o que importa nas relações familiares é o tempo compartilhado com os filhos, manifestações de afeto e atenção. A qualidade da relação é mais importante do que a quantidade, sugerem os interlocutores; a distância física não equivale a não presença e nem que a relação não esteja sendo alimentada, haja vista que é possível tornar-se presente por meio de ligações telefônicas, internet, encontros eventuais. Para os interlocutores, convivência e afeto devem estar entrelaçados. O advogado Erick entende que a convivência
"traz amor, carinho, cuidado" às relações familiares e de parentesco. Do ponto de vista dos filhos, a inexistência da busca por contato, por convivência, significa que o sujeito "não se importa", "não dá atenção", por outro lado, atos que demonstram cuidado e atenção, adensam a relação. A convivência e as manifestações de afeto certificam os filhos de que são amados, isso imprime efeitos benéficos na construção de suas subjetividades. É a convivência e o investimento nos vínculos que geram proximidade, fornecendo elementos para que o outro seja visto
142 Para essa juíza, o pai ou a mãe que cuida da criança precisa ser "influência
positiva", alimentar valores como verdade, solidariedade, assumir as consequências dos atos. Caso contrário, a convivência torna-se prejudicial, e seria um ganho não conviver com "influências negativas" para a construção da subjetividade.
como significativo. O afeto é o principal veículo para identificar e vivenciar o investimento nas relações.
Conviver não assegura que exista afeto, alegrias e prazer; existem
"coisas boas e ruins", carinho e brigas, acordos e divergências como parte da convivência. O diálogo seria o meio para atingir a "boa
convivência" e negociar as diferenças, pois, se as divergências não forem discutidas, pode haver o rompimento da relação. Certas vezes, convivência e afeto sequer estão ligados, como pontuou a advogada Malibu, pois há famílias com laços afetivos rompidos, que "brigam por
herança, separação e que não ligam pros filhos". O vínculo afetivo é o que dá valor à convivência, sendo que ela pode ocorrer sem laços afetivos, em contextos com sujeitos descomprometidos ou como aponta o advogado Bernardo, em "ambientes violentos", devido à situações como alcoolismo, violência doméstica, etc. Os que vivenciam esses ambientes familiares costumam ser vistos como propensos a reproduzir essa dinâmica, o que comprometeria seu desenvolvimento individual, sobretudo no sentido psicológico e moral. Há grande peso nos efeitos da convivência, colocada na ordem relacional e social, tanto para o bem (resulta em pessoas afetivas, ajustadas socialmente, etc), como para o mal (descaso pelas relações, insegurança, criminalidade, etc). Contudo, os efeitos da convivência nos indivíduos nem sempre estão bem claros para os interlocutores, como quando refletem sobre a articulação entre características inatas e o "ambiente" em que vivem, o que será visto mais adiante. De qualquer modo, em suas realidades costumam centrar seus discursos na convivência afetiva, nas tensões produzidas e resolução dos conflitos através do diálogo.
A convivência remete, sobretudo, à fabricação dos vínculos e sujeitos, onde pais, mães, avós, tia, e outros, aparecem como responsáveis pela formação subjetiva, por meio dos eventos compartilhados, do afeto, dos exemplos, dos ensinamentos de valores e práticas, etc. Na convivência é possível imprimir limites, fundamentais para formação. Alucard recorda-se dos limites de horários, repreensões de comportamentos, dos questionamentos e críticas da mãe, os quais aprova, encarando atualmente como necessários para educar um filho. Entende que os limites dados pela mãe "contribuíram pra quem eu sou
hoje". No processo de constituição do sujeito, a lei que a família representa, suas interpelações e os poderes/saberes que circulam, individualizam, e instituem valores que servirão como base para a agência social. A fala de Alucard indica que tornar-se sujeito é um
processo de submetimento político e psíquico à lei (BUTLER, 2001). Essa validação dos limites colocados pela família, sobretudo pelos pais e
mães, foi mencionada de maneira geral pelos interlocutores, o que significa que alimentam um vínculo apaixonado pela lei, pelos limites e pelo que é pregado pelas famílias, que sustentam suas existências sociais e psíquicas.
Vínculos de pertencimento, sujeitos e proximidade podem ser construídos durante a convivência. Daiane e Jô procuram mostrar os esforços de Ana Maria, mãe de Daiane, para educar os filhos no cotidiano: ensinou a respeitar os mais velhos, serem independentes desde pequenos, tomavam banhos sozinhos, vestiam-se, visitavam familiares nos fins de semana (o que dava noção de limites), sabiam arrumar a casa, ou seja, procuraram mostrar que a convivência compromissada constitui vínculos e sujeitos. Jô faz alusão a um episódio com o filho, que só alguém que constrói intimidade com a convivência poderia vivenciar a situação como ela: certo dia, entrou no quarto do filho, e ele "estava brincando com o pinto", ficou desconcertada, não o condenou. Após o impacto inicial, pediu "socorro pros homens, pai (seu
ex marido), tio", pois estava com medo dele se machucar, teve que aprender a lidar com essa dimensão do universo masculino. Para ela, o fato de não condenar a masturbação do filho indica a ele que pertencer àquela família significa ter liberdade para dialogar, proximidade e confiança para tratar de assuntos íntimos. O vínculo familiar é fabricado no cotidiano, a partir da ligação de sangue, por exemplo, mas vai além dela. O vínculo de pertencimento, como ensina Schneider (1984), é feito. O próprio sentimento de pertencimento do grupo dá-se nas ações cotidianas, onde há um processo permanente de fabricação do vínculo e da pessoa. Nas ações cotidianas, como mostram Daiane e Jô, compartilham-se momentos, vivencia-se o afeto, confiança, ensina-se e se aprende, o que inclui divergências, ansiedades, mas é preciso que exista convivência para que os valores e vínculos familiares e de parentesco daquele grupo sejam alimentados.