Capítulo 3. Conjugalidades, questões de gênero, relações
3.3. Considerações sobre maternidade e paternidade
3.3.1. Pais e mães responsáveis: provimento econômico e afeto
Falou-se muito nos encontros etnográficos sobre o sustento dos filhos, o que é encarnado, sobretudo, na atribuição legal do tema muito citado e discutido nos casos de separação conjugal: o pagamento dos alimentos117. Os operadores de justiça entendem que alguns pais pagam os alimentos por obrigação, por imposição judicial, muitas vezes não investindo nos vínculos com os filhos. Outros pagam, mormente porque
"amam" os filhos, inclusive direcionando um valor superior, ou fornecendo produtos, lazer, que ultrapassem o valor estipulado, procuram oferecer suporte material, mas também afetividade em função desse amor. Os atores jurídicos utilizam, sobretudo, os recursos legais instituídos, mas também valores e concepções envolvendo responsabilidades, não apenas legais, mas também morais e afetivas para falar sobre a questão do provimento. No que tange aos filhos, pais, mães e tia utilizam a legitimidade da instituição judiciária, bem como suas experiências de relatedness, conflitos, não cumprimento de atribuições e certos valores morais e sociais, para discutir a responsabilidade de prover.
Há também, de forma geral, além das reivindicações em relação aos alimentos, outras em favor do investimento afetivo entre pais e filhos, cuidados e orientações, pressupondo um alargamento no sentido de incluir a afetividade como elemento importante, não somente para relação, mas para a constituição dos sujeitos. As cobranças se direcionam geralmente ao pai, tanto no pagamento constante dos alimentos como em relação ao investimento afetivo, pois normalmente é a mãe quem fica com as crianças, tem uma ligação estreita com elas, vai buscar uma fonte de renda para prover esses filhos, convive com eles, cuida e direciona recursos materiais e afetivos para eles. De qualquer forma, pais e mães são responsáveis legais pelo provimento material e investimento afetivo118, o que foi reivindicado por seu Marcos:
117 O alimentos representam uma quantia financeira destinada a prover às
necessidades dos filhos: educação, vestuário, não apenas a alimentação em si. Como pontua o desembargador Luciano: "É uma obrigação conjunta, a dos
alimentos, não é so do pai nem só da mãe". Contudo, as responsabilidades de pais e mães não se reduzem aos sustento, abarcando também educação, cuidados, proteção, etc.
“Porque a obrigação é minha, mas é da mãe dele também [...] e aquele papo furado: o que tu faz? Ah, eu vendo produto (menciona marca), sou autônoma [...]”.
Ele entende que o discurso de Sofia era apenas uma justificativa diante do juiz para mostrar que também possuía meios para prover o filho. Para seu Marcos, porém, isso não era suficiente para que ela arcasse com sua parte, pois não havia estabilidade. Sofia não poderia ser eximida das responsabilidades de provimento, que devem ser compartilhadas, mesmo que ela não destinasse grandes esforços, no entendimento de seu Marcos, para a tarefa de provedora. Todavia, de maneira geral, há cobrança maior quanto à participação paterna no pagamento dos alimentos.
O advogado Erick encarna o compartilhamento de responsabilidades em relação aos filhos no mecanismo jurídico da
guarda compartilhada, onde pais e mães negociam o período em que
permanecerão com os filhos: dias da semana, meses, etc. Assim, ambos poderiam cuidar da criança e "participar da vida dos filhos". Erick procura agregar ao provimento financeiro as relações afetivas construídas na convivência, como um bom caminho para alimentar os vínculos e comprometer-se. Apenas o pagamento dos alimentos não favoreceria a construção do vínculo, podendo até mesmo criar distanciamento, já que a participação fica suportada pelo pagamento da pensão, geralmente paga pelo pai, por essa razão a guarda compartilhada aproximaria pai e filho. Com um olhar psicológico nas questões de família, afirma: "Não que os pais não tenham amor pelos filhos, mas
eles confundem muito o ego ferido com a questão da filiação". Aponta para uma confusão entre as vivências conjugais e as ligadas à paternidade e maternidade, bem como para a angústia masculina, em alguns casos, quando os pais são distanciados do convívio dos filhos. Separar conjugalidade e maternidade/paternidade no contexto jurídico implica evidenciar os interesses dos filhos, figuras centrais, esquecidas em meio as brigas anteriores que se estendem (inclusive projetadas na questão dos alimentos, guarda, separações, para "atingir" o outro), proporcionando assim possibilidades de negociação, ofuscadas por
enfatizado pelos operadores de justiça. Os pais, mães, filhos, tia, detiveram-se mais na constituição dos contextos de conflitos e descumprimentos de atribuições.
mágoas, raivas, etc. Além disso, para esse advogado, separar essas dimensões significa refletir, e consequentemente, a possibilidade de reformular as atitudes de cada um e investir na alimentação do amor pelos filhos.
Em relação à construção cultural e social da paternidade, embora muitas mulheres estejam no mercado de trabalho participando do provimento do lar, a função de provedor da família é predominantemente masculina (Romanelli, 2003 apud Sousa, 2010 p. 67). O lugar de provedor do pai, de "não deixar faltar nada dentro de
casa", como pontuaram Alucard, Jô e Daiane, está naturalizado, em concordância com uma masculinidade dominante, bem como o lugar da mãe, associado a cuidados, sacrifícios e dedicação afetiva aos filhos. Segundo o advogado Bernardo, as mulheres estão com dificuldades para administrar a questão da obrigação dos alimentos, pois ainda "não se
adaptaram" a isso, nem a igualdade de condições na dimensão material:
"O homem paga a pensão e tá resolvido, estão acostumados, desembolsam uma porcentagem, a mulher não se acostumou em dar dinheiro". O advogado Erick também fez menção à postura das mulheres no que tange ao provimento material: "Geralmente as mães
querem que os pais paguem e só, de preferência não incomodem". Essas percepções são produtivas para pensar que as mulheres/mães também alimentam um sistema de valores que associa os homens ao provimento material. Há uma obrigação moral instituída socialmente acerca da relação homem/pai/provimento, mas que nem sempre é cumprida, o que gera retaliações. Pode-se contrastar com as obrigações morais maternas, que as mulheres/mães já cumprem, alocadas no âmbito da continuação da ligação vista como natural com filho: amamentação, cuidado, afetividade, etc. As mães que não zelam pelos filhos são vistas como exceções.
Para Alucard, o pai deve ser responsável pela educação e provimento financeiro: “Ajudar a educar e prover as coisas”. Utiliza o verbo ajudar por ter como referência central a atuação da mãe, sendo o pai, diante do contexto relacional existente, uma figura que contribuiria, mas não teria centralidade como ela. Educar significa "ensinar o que é
certo, errado", o que está associado a ser honesto, correto com as pessoas, assumir as consequências dos atos, contribuir com as responsabilidades na manutenção do lar, o que sua mãe a avós maternos fizeram. Sofia pontua que na "parte material não faltou nada, meu pai
supriu", remetendo à ideia de que outro homem fez o papel de provedor material, já que o pai biológico não quis reconhecer o filho.
Outro ponto enfatizado por Alucard relaciona-se às responsabilidades do pai biológico em relação a ele, e a obrigação de assistência material encarnada nos alimentos. Em suas formulações defendeu a desvalorização do vínculo consaguíneo, ao tempo em que expressa uma desconsideração pelos laços consanguíneos, frisa as obrigações e responsabilidades do pai biológico diante do ato de procriação: "Ele fez, ele tinha que obrigatoriamente assumir as
responsabilidades". Esse filho aloca a responsabilidade do pai biológico num campo moral, onde sua visão do universo masculino está vinculada ao ato de prover os filhos e, acima de tudo, assumir seus atos, não obstante as consequências. Responsabilidade também colocada em um campo moral por um dos reponsáveis pelo processo judicial de Mayara, Fábio, no caso de gravidez não planejada entre jovens, opõem-se a ideia dos avós assumirem as reponsabilidades, sobretudo de provimento. Fábio legitima seus argumentos, procurando defender a ideia de que quem deve assumir as responsabilidades e provimento são os responsáveis pela concepção da criança, foca na responsabilidade moral do ato de procriação e nas obrigações resultantes do compartilhamento genético.
A advogada Viviane entende que há dificuldades colocadas muitas vezes pela mãe nas negociações pós-divórcio. No entanto, o pai, além da obrigação jurídica em relação aos filhos, possui responsabilidade moral, ou seja, a moral é da ordem social, prevalecendo sobre a natural. Essa questão geralmente não se coloca para mulheres, porque ser mãe é se ocupar dos filhos. Viviane esclarece que se for ajuizada uma ação de alimentos, há também a
regulamentação da guarda e visitas. Entretanto, se quem não ficou
com a guarda (geralmente o pai), não for visitar, não se pode obrigá- lo119, o que não o desobrigaria moralmente de assistir e dedicar afeto ao filho. Estará, portanto, propenso a sofrer uma ação de indenização moral por abandono afetivo, o que pode impulsionar comportamentos que inibam esse tipo de ação. Ou seja, o social, por meio da legitimidade da instituição jurídica, impõe cumprimentos e satisfações não apenas das obrigações legais, mas também das morais. Com a naturalização das atribuições femininas e esforços para ir ao encontro das regras sociais, as atitudes morais das mulheres/mães em relação aos filhos, não foram problematizadas no contexto dessa pesquisa; ao contrário, suas práticas são exaltadas, no sentido da proteção e apoio material e afetivo diante da ausência do pai biológico.
Daiane e sua tia Jô mostram-se indignadas diante das atitudes do pai de Daiane, que se esquivou "o quanto pôde de pagar a pensão", saindo dos empregos e, inclusive, em uma audiência "mostrando o
sapato furado para o juiz". Jô entende que ele tinha obrigação de ter deixado os filhos e mulher abastecidos materialmente:
"Ele sabe que saiu de casa bem no dia de abastecer a casa e pagar as contas, ele deixou sem rancho, sem leite, ele sabia que ela (Daiane) mamava, deixou sem aluguel, sem luz, sem àgua; isso é amor?".
A advogada Viviane expôs que todo o abandono material implica o afetivo, pois ambos se entrelaçam: "Quando a gente tem um filho,
quer comprar uma roupa pra ele, proporcionar uma boa escola, quando ama, procura-se fazer o melhor, quando isso não acontece, que sentimento há?". Demonstrar desinteresse quanto ao provimento financeiro para Jô e Viviane é também privar afetivamente. Nesse sentido, provimento financeiro e afeto se misturariam, o entrelaçamento indicaria que a relação é significativa, sobretudo no caso do pai, que a relação afetiva precisa ser construída e o provimento é visto como uma atribuição masculina. Em outras palavras, se ele não investe no provimento do filho, principalmente depois da separação conjugal, indica que não ama, bem como abre para questionamentos morais de sua postura.