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O conjunto das relações ambientais considera a interação dos subsistemas ecológico, social, econômico e cultural, interdependentes entre si, sempre em mutação, mas não autossuficientes. Neste sentido, as relações entre os quatro subsistemas são próximas, podendo ser inclusive sobrepostas e geram efeitos de ação e reação uns nos outros.

2.2.1.1 O subsistema ecológico do SISTUR

O subsistema ecológico, do conjunto das relações ambientais, se preocupa com as perspectivas ecológicas do processo de planejamento turístico. Os impactos que a atividade do turismo não planejado e não sustentável provocam no meio ambiente causam degradação e deterioração ecológica. São mais frequentes os

problemas de geração de resíduos, liberação de gases poluentes, contaminação de solos, rios e mares, desmatamento, erosão de dunas, equipamentos e monumentos esteticamente deteriorados, alteração nas atividades de caça e pesca, entre outros (BENI, 2002; COOPER et al., 2001).

Dias e Aguiar (2002) perceberam que houve um aumento de efeitos negativos do turismo brasileiro nas áreas em que o turismo natural, que envolvia de forma mais direta o meio ambiente, era uma das principais atrações, especialmente nas áreas mais próximas da costa brasileira. Citam os autores que em cidades praianas, por exemplo, a verticalização ilegal de prédios próximos à beira-mar é uma realidade, criando “verdadeiras muralhas” (2002, p. 116) construídas.

Cooper et al. (2001) estabelecem algumas informações necessárias para estabelecer o impacto ambiental que o turismo pode causar em uma região. Para esses autores, é fundamental o histórico de dados para que a comparabilidade possa ser feita. Além disso, são necessárias informações de outros setores, que não do turismo, para que uma linha de referência possa ser estabelecida. Ainda, sugerem a criação de inventário de fauna e flora aliados a índices máximos, estabelecidos de forma clara, de impacto das diferentes formas de turismo.

Entretanto, não se pode partir do princípio que apenas o turismo é o responsável pela degradação ambiental no espaço turístico (e essa visão reforça a multiplicidade das relações entre os subsistemas). Aspectos como exploração comercial ou industrial não turística em zonas de turismo (como por exemplo uma indústria automobilística em zona próxima a retiros rurais) podem interferir diretamente no ecossistema sem que haja uma relação direta da atividade turística.

Ainda assim, Beni (2002) enumera algumas medidas (não exaustivas) a serem planejadas para uma conservação dos recursos naturais: educação ambiental, capacitação profissional, estudo de impacto ambiental, capacidade de carga, plano de manejo e controle ambiental. O autor salienta que da preservação e sustentabilidade do subsistema ecológico depende não só o turismo, mas como também a própria existência humana.

Além destas relações ambientais, no sentido de locus e território, o subsistema ecológico não se refere apenas sobre a conversação e preservação do meio

ambiente, mas sim, do estudo das relações que o ambiente turístico provoca (e é provocado) com os outros subsistemas.

Beni (2002, p. 55) relata que o aspecto ecológico “assenta-se nas bases da Teoria Geral de Sistemas”, suportando um macrossistema que, dessa forma, interfere nos subsistemas menores. O planejamento do espaço ambiental de forma correta passa por compreender que as relações do subsistema ecológico são tão diferentes quanto forem as relações com os outros subsistemas. De outra forma, a relação do subsistema ecológico com o subsistema social é diferente da relação do subsistema ecológico com o subsistema econômico ou com o subsistema cultural.

2.2.1.2 O subsistema social do SISTUR

O subsistema social do SISTUR é o ambiente primário em que podem ser notados os aspectos psicossociais do turismo, considerando mais uma vez que a atividade turística está intimamente ligada à sociedade e ao ambiente, causando efeitos, positivos ou negativos, nelas.

Monterrubio et al. (2012) citam, por exemplo, impactos sociais negativos como resultado da atividade turística. Podem ser citados problemas como mobilidade, geração de lixo, geração de ruído, aumento de crime individual e organizado, aumento de preços de bens e serviços, redução na qualidade de vida, abuso de drogas, alcoolismo, prostituição, migração e redução nas oportunidades locais de recreação ao ar livre.

A mobilidade e o turismo possuem uma relação íntima, uma vez que o esquema básico do turismo é o de recepcionar o turista em algum local, no sentido espacial, fora de seu ambiente residencial. Ou seja, o turismo implica diretamente na movimentação de pessoas (sem contar outras movimentações como de bens, serviços, etc.).

Com o aumento da população brasileira e da melhoria das condições de vida no geral, mover-se entre locais ficou muito mais fácil. Além disso, recentemente, novas tecnologias estão remodelando (e facilitando) o transporte de pessoas. Pode-se citar a popularização de aplicativos de celular para caronas compartilhadas, aluguéis de

bicicletas e ciclomotores de pequeno porte, desenvolvimento de veículos autônomos que dispensam atuação de motorista, entre outras inovações.

Essa facilitação na locomoção gera, por consequência, um fluxo maior de pessoas se movimentando, aumentando assim o trânsito e piorando as condições de mobilidade.

Muitos dos impactos negativos não são criados na própria região em função do início da atividade turística. Costumes não saudáveis e insustentáveis podem ser importados de outras regiões pela própria movimentação dos turistas, como parte de um comportamento social e moral dos seus locais de origem e que são absorvidos nos locais turísticos pela comunidade (THEOBALD, 2005).

Entretanto, o turismo planejado e sustentável pode também mobilizar e criar melhorias nas condições sociais de um território turístico, como por exemplo o aumento de sentimento de orgulho de uma comunidade, aumento na qualidade de vida dos residentes, aumento da renda dos moradores e novas oportunidades de compras de produtos e serviços, além de novas instalações que os moradores locais podem utilizar (MONTERRUBIO et al. 2012).

O quadro a seguir demonstra outros impactos sociais destacados por Beni (2002, p. 84-85).

Quadro 2 - Aspectos sociais positivos e negativos

ASPECTOS SOCIAIS POSITIVOS ASPECTOS SOCIAIS NEGATIVOS O turismo é um meio de vida honesto e

aborrecimento e fastio de tudo e de todos Pode ser um meio de aproximação, de

conhecimento e de comunicação social

Permite o crescimento e desenvolvimento de muralhas de mútuas insatisfações, rivalidade e confrontos irracionais

O turismo é gerador de empregos Os empregos podem se tornar mal remunerados, excessivos e inseguros

Fonte: Adaptado de Beni (2002, p. 84-85).

Desta forma, o turismo é um fenômeno sociológico e ambivalente, que tanto pode causar impactos positivos como negativo, resultante da interatividade proporcionada pela atividade (BENI, 2002).

Assim, a interação promovida pela atividade turística deve ser levada em consideração no seu planejamento. As implicações causadas afetam diretamente a sociedade ao mesmo passo em que a sociedade afeta diretamente o setor turístico.

Os impactos da ação do homem na relação com seu ambiente inclusive são mensurados em índices como o Índice de Desenvolvimento Social (IDS) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) (BENI, 2002).

2.2.1.3 O subsistema econômico do SISTUR

O subsistema econômico do SISTUR é o ambiente das trocas mútuas de produtos, bens e serviços que o turismo proporciona. Assim, o turismo está em constante avaliação sobre a sua performance e o aspecto econômico é sempre um dos mais avaliados. Em função da complexidade, estimar a economia promovida pela atividade do turismo não é tarefa fácil.

Cabe ressaltar que, como formulador do SISTUR, Beni (2002) esclarece que opta pelo modelo capitalista do turismo no SISTUR. Sua justificativa fundamenta-se na disponibilização dos dados (maior em ambientes capitalistas do que em ambientes socialistas ou comunistas) e também pela predominância desse modelo econômico na própria atividade turística.

A atividade econômica do turismo pode ser explicada pela disponibilidade de uma série de bens e serviços que são dispostos aos turistas. Os turistas, neste caso, são consumidores que aceitam o sistema econômico a partir do momento em que realizam a troca de seus bens para usufruto dos produtos ofertados.

Sendo assim, o turismo é manifestação “contínua da atividade produtiva, geradora de renda, que se acha submetida a todas as leis econômicas que atuam nos demais ramos e setores industriais ou de produção” (BENI, 2002, p. 65). Compreende-se, então, que o turismo faz parte da cadeia econômica, e, em fazendo parte, e

conforme prevê o modelo do SISTUR, produz efeitos em outras atividades produtivas, através de seu efeito multiplicador.

Cooper et al. conceituam o efeito multiplicador no turismo como o

“reconhecimento de que as vendas de uma firma requerem compras de outras empresas dentro da economia local, ou seja, os setores industriais de uma economia são interdependentes” (2005, p. 166). Assim, a economia local transaciona bens e serviços entre diferentes atores e em níveis diferentes - superiores, como contextos internacionais, inferiores, como contextos microrregionais.

Além da movimentação financeira direta pelo consumo e troca de bens e serviços que o ambiente econômico do turismo gera, políticas públicas econômicas para o setor turístico podem servir de indutores para uma gestão macroeconômica de balanço de pagamentos, por exemplo. Assim, é possível utilizar-se do setor econômico do turismo como meio de gestão de macropolíticas que não diretamente da atividade turística, não somente pelo consumo de bens ou serviços turísticos, mas como também pela negociação de créditos de investimentos, fluxo de moedas e concessão de linhas de empréstimos, por exemplo.

Entretanto, os impactos econômicos podem ser negativos também. Esse aspecto é normal uma vez que ambientes econômicos deficitários fazem parte das características do próprio ambiente econômico.

O crescimento rápido e promissor do turismo em uma região pode acabar gerando uma dependência excessiva sobre uma única atividade econômica (o turismo). A migração de mão de obra, de um ambiente rural para uma região turística, por exemplo, pode acarretar em um aumento de custo na produção do setor agrícola, gerando inflação e distorções na economia local. Esse efeito de deslocamento, de uma despesa de determinada atividade econômica para outra atividade, deve ser previsto na análise econômica do setor turístico (COOPER et al., 2005).

Assim, como nas teorias econômicas, o equilíbrio é desejado para que o setor econômico do turismo possa ser sustentável. É necessário que se estabeleça uma relação entre custo e benefício para que o turista possa escolher a melhor forma de aproveitar o setor turístico e para que a força produtora que nela opera, oferecendo bens e serviços, possa obter ganhos sustentáveis, auxiliando no fomento do subsistema econômico do SISTUR.

2.2.1.4 O subsistema cultural do SISTUR

Para Beni (2002, p. 86), o espaço cultural é a “parte da superfície terrestre que teve a sua fisionomia e “aura” originais mudados pela ação do homem”. É consequência da intervenção do trabalho físico e mental do homem no espaço natural”. Assim, o subsistema cultural do SISTUR é uma vivência da ação humana, criada pelos seus hábitos, histórias, modismos e trejeitos. É o que dá, por fim, a caracterização comportamental de um local.

Assim, tantas são as culturas diferentes quanto existirem locais diferentes.

Inclusive, esse aspecto coloca um grau a mais no tocante à preservação cultural que o turismo precisa se atentar pois, não se distingue graus diferentes de culturas (melhores, piores, avançadas ou atrasadas). O que existem, de fato, são culturas diferentes, que demandam ações diferentes de preservação e sustentabilidade (DIAS;

AGUIAR, 2002).

Em 1942, Hunziker e Krapf (apud BENI, 2002, p. 87) estabeleceram que “sem cultura não há turismo”. Essa concepção demonstra a dimensão e interligação do aspecto cultural de determinada sociedade e a sua vinculação direta com a atividade turística.

O preservacionismo surge no século XIX como parte integrante de política cultural para preservar valores culturais ameaçados ou pelo tempo ou por negligência.

No começo, o Estado era o principal agente nesta tarefa, com a função de realizar tombamentos e de investir recursos na manutenção dos acervos culturais. Mais à frente, na década de 1950, esse movimento passa a ser agenda também de agências privadas (BENI, 2002).

Hoje, com os recursos econômicos, financeiros, de pessoal especializado reconhecidamente escassos na esfera pública em um contexto geral, a preservação da cultura passa por desafios, demandando ações e políticas públicas que possam auxiliar neste aspecto.

O turismo cultural, como segmentação do turismo, pode ser associado a outros setores do turismo (e a interdisciplinaridade do SISTUR favorece isto). Roteiros culturais podem ser aliados ao turismo de sol e mar, turismo de aventura, turismo de cruzeiros, turismo de negócio, turismo de eventos, entre outros (DIAS; AGUIAR,

2002). Surgem então possibilidades reais de fomento à preservação cultural aliado à atividade turística.

A preservação de identidade cultural, na verdade, é a preservação histórica da própria sociedade. São valores, crenças, símbolos e idiomas que passam a ser preservados e reconhecidos como parte formadora da sociedade local, tornando um atrativo turístico ímpar, que gera conhecimento não só ao próprio turista, mas também ao residente local, através do sentimento de pertencimento a uma sociedade que o significa.

O espaço cultural no turismo, via de regra, é de choque pois, o turista por definição básica é um estrangeiro no destino. É um indivíduo que parte de uma cultura formada e passa a conhecer e vivenciar uma nova cultura. Esse confronto de diferentes culturas pode causar impacto mutuamente (THEOBALD, 2005).

São inúmeras as situações indesejadas que a falta de planejamento turístico pode afetar no turismo local. Podem ser citados por exemplo, a perda de orgulho e pertencimento de identidade cultural dos habitantes locais, a adoção de novos comportamentos por uma população mais jovem que entra em conflito com a população mais velha da comunidade, perda de produção artística local, desigualdade social pela elitização em detrimento da estética simples, mercantilização e destruição de identidades culturais, autenticidades encenadas, entre outros (DIAS; AGUIAR, 2002; COOPER et al., 2005).

As ações para o desenvolvimento do turismo, portanto, passam diretamente por preservar a cultura local para tentar diminuir e reduzir ao máximo o impacto negativo causado. Devem-se buscar alternativas de conscientização, tanto da população local quanto do turista, para a importância da manutenção da identidade cultural a que eles estão submetidos.

Neste sentido, quando estruturadas de forma correta, as políticas públicas para o turismo podem ajudar a fomentar a proteção cultural dos destinos turísticos em uma dupla contribuição; de forma direta e de forma indireta. De forma direta, “tem-se como resultado a experiência cultural que enriquece a população visitada e a visitante com a aquisição dos valores que ambas possuem”. De forma indireta, “com o planejamento na verificação natural de pontos de dúvida entre o turista e o estrangeiro” (BENI, 2002, p. 87).

Dias e Aguiar (2002) enumeram também outros benefícios culturais que a atividade turística pode promover:

a. Fortalecimento da identidade e orgulho local como consequência do reconhecimento dos visitantes da história, música, artes, comida da região, etc.;

b. Troca de novas ideias e valores com o aumento da interação cultural entre visitante e habitante local;

c. Fomento da cultura local através da perpetuação e interesse renovado pelo reconhecimento cultural;

d. Valorização do patrimônio local com o aumento da preservação arquitetônica e patrimônio histórico; e

e. Aumento de tolerância e compreensão como fruto direto da troca cultural entre diferentes povos.

A ambiguidade, portanto, entre pontos positivos e negativos sentida nos outros subsistemas, se apresenta também no subsistema cultural do SISTUR. Essa característica demonstra que a falta de políticas públicas planejadas para o turismo pode causar impactos desastrosos, ao mesmo passo em que, estabelecidas diretrizes e ações sustentáveis, é possível uma otimização da atividade turística que minimize os impactos e os revertam na forma de bem-estar da sociedade.