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4.3.2 Análise das entrevistas da categoria Turismo de Cruzeiros

4.3.2.3 Impactos positivos do turismo de cruzeiros

O interesse no turismo de cruzeiros por parte das entidades que compõem o COMTUR passa necessariamente pela identificação dos impactos positivos que o setor pode proporcionar, seja nos ambientes econômico, social, cultural ou ecológico conforme o SISTUR proposto por Beni (2002).

O fator da divulgação do destino turístico foi citado como um impacto positivo do turismo de cruzeiros e preponderou em vários relatos. A inclusão de Balneário Camboriú como destino do turismo de cruzeiros abre um canal de divulgação maior para o município já reconhecidamente turístico.

Para os entrevistados, a projeção de Balneário Camboriú como destino turístico será maior ainda quando o município entrar para a rota dos cruzeiros internacionais.

Atualmente, os turistas nacionais são a maioria a desembarcar no município, conforme relatos dos entrevistados e a própria pesquisa realizada pela Secretaria de Turismo municipal.

Um estudo da Florida Caribbean Cruise Association de 2011 demonstrou que turistas de cruzeiros planejavam retornar após a visita de cruzeiros nos seguintes destinos: Caribe (50%), Bahamas (21%), Havaí (13%), México (13%), Europa (12%) e Alaska (11%). Essa pretensão de retorno aos destinos após a visitação por cruzeiros marítimos é uma informação importante e corrobora com a ideia dos conselheiros de que o turismo de cruzeiro pode ser uma exposição da cidade a mais como destino turístico (DOWNLING; WEEDEN, 2017).

De acordo com a Organização Mundial do Turismo (2012) destino turístico é um local que possui produtos turísticos como atrações e serviços, definido por limites físicos e administrativos que definem a sua gestão. Os destinos ainda incorporam a

comunidade local como parte interessada que pode se organizar e criar redes para formar destinos turísticos maiores.

O apelo do destino turístico e as experiências que ele fornece são moldadas pelas atrações que possui, pelas facilidades ofertadas pelos setores público e privados, acessibilidade, recursos humanos disponíveis, imagens (cenários) e preços (UNWTO, 2012).

As atrações turísticas em geral são a maior motivação inicial para o turista escolher um local como destino. As atrações podem ser naturais (como praias e montanhas), construídas (como monumentos e edifícios históricos) ou culturais (como museus e teatros - que não deixam de ser construções também). O domínio pode também ser público ou privado (UNWTO, 2012).

As facilidades do destino turístico incluem acesso a serviços básicos como fornecimento adequado de água, esgoto e energia elétrica, transporte público entre outros. Em geral, estes são os equipamentos que compõem a infraestrutura do SISTUR proposto por Beni (2002). Além destas, as facilidades também podem ser ofertadas pela iniciativa privada, como serviços de acomodação e hospedagem, turismo receptivo, guias e agências de viagens, entre outros (UNWTO, 2012).

A acessibilidade diz respeito também a infraestrutura utilizada para o fácil acesso ao destino turístico. É composto pelas malhas viárias, ferrovias, linhas de cruzeiros marítimos, entre outros. Além das instalações físicas, são necessários também cuidados de acessibilidade em relação a vistos e permissões de entrada e saída dos destinos turísticos (UNWTO, 2012).

Os recursos humanos fazem o diferencial como escolha do destino turístico a partir do treinamento e profissionalização daqueles que trabalham diretamente com o setor turístico. Para Cooper et al. (2001), o treinamento e profissionalização dos trabalhadores do setor turístico garantem uma melhor qualidade de serviço prestado ao turista, agregam valor ao produto turístico, aumentam as oportunidades de negócio, auxiliam na diversificação do setor através do desenvolvimento de múltiplas habilidades e proporcionam oportunidades de trabalhos e serviços a moradores locais, diminuindo a necessidade da contratação de mão de obra de fora do destino turístico.

As imagens e cenários fazem constituem também parte importante na escolha do destino turístico e devem ser capazes de proporcionar visões únicas e agradáveis.

Fazem parte também do conjunto do cenário moradores locais amigáveis, qualidade ambiental e segurança do destino (UNWTO, 2012).

A questão dos preços também é levada em consideração como fator de competitividade de um destino turístico. Para Cooper et al. (2001) a política de preços é uma das gestões mais complexas do setor turístico. Isto porque a multiplicidade de turistas de diferentes faixas salariais resulta em uma elasticidade significativa nos preços praticados no setor. Mesmo dentro de um único destino, turistas com motivações diferentes possuem e estão dispostos a gastar diferente. Turistas de negócios em um destino de praia, por exemplo, podem estar mais ou menos dispostos a consumir produtos de preços mais elevados do que turistas focados no turismo de sol e mar, no mesmo destino.

Além da possibilidade de promover o destino turístico de Balneário Camboriú, o aumento na movimentação econômica também foi citado como aspecto positivo da atividade do turismo de cruzeiro.

Os benefícios econômicos do turismo parecem evidentes (ARCHER;

COOPER; RUHANEN, 2005). Do ponto de vista internacional, o turismo pode ser visto como um produto de exportação “invisível” realizado no país. Ou seja, o turista internacional consome um produto ou serviço brasileiro em terras brasileiras. Esse consumo ajuda a equilibrar a balança de pagamentos nacional.

Do ponto de vista do turismo nacional (doméstico), o funcionamento da economia é parecido, porém, dentro dos limites do Brasil e que não altera a balança de pagamentos. Entretanto, há uma troca de riqueza entre as regiões nacionais.

Municípios indutores de turismo captam recursos de outras regiões, fomentando no local do destino turístico um aumento na geração de empregos, negócios, arrecadação de tributos entre outros ganhos econômicos (ARCHER; COOPER;

RUHANEN, 2005).

Evangelia e Maria (2012) salientam também para o efeito multiplicador do turismo de cruzeiro. A imagem a seguir demonstra o efeito multiplicador do setor.

Figura 10 - Efeitos multiplicadores do turismo de cruzeiros

Fonte: Adaptado de Evangelia e Maria (2012).

Como abordado na fundamentação teórica, o efeito multiplicador pode ser entendido como a cadeia de troca de bens e serviços que derivam das atividades turísticas. No esquema exemplificativo de Evangelia e Maria (2012) o turismo de cruzeiros fomenta a procura e utilização dos serviços de agentes marítimos, portos, agências de turismo, companhias de petróleo, rebocadores, construção naval e marinas (área verde da imagem). Estas atividades estão intimamente ligadas com o fornecimento de bens e serviços aos navios de cruzeiros. Por sua vez, os setores da área verde da imagem consomem serviços e produtos de uma outra cadeia produtiva (área azul da imagem). Neste sentido, os impactos na economia do turismo de cruzeiros podem ser observados de uma forma direta e indireta, caracterizando assim o efeito multiplicador do turismo de cruzeiros.

Esse efeito multiplicador foi citado pelos entrevistados. A permanência de navios de cruzeiros na cidade, segundo os conselheiros, pode ajudar a fomentar a

cadeia de serviços relacionados à manutenção dos navios, como mecânica naval, abastecimento de produtos e gêneros alimentícios e fornecimento de combustível.

Outro impacto positivo do turismo de cruzeiros foi a abordagem em relação à sazonalidade. Para os entrevistados, ainda que a temporada de cruzeiros seja no verão, época de temporada do turismo sol e mar em Balneário Camboriú, o turismo de cruzeiros começa antes e depois da alta temporada, compreendida entre o começo de dezembro e a o carnaval, e altíssima temporada de verão, compreendida do final de semana anterior ao natal e estendida até o primeiro final de semana após a virada do ano.

A sazonalidade no turismo apresenta características diversas. Efeitos diferentes são sentidos na sazonalidade entre o alto fluxo turístico e o baixo fluxo turístico. As causas da sazonalidade são igualmente distintas. O quadro a seguir ilustra as causas e os possíveis efeitos da sazonalidade no turismo de acordo com Mota (2001).

Quadro 19 - Causas e efeitos da sazonalidade turística

SAZONALIDADE TURÍSTICA

CAUSAS

EFEITOS

ALTO FLUXO TURÍSTICO BAIXO FLUXO TURÍSTICO Férias escolares Incentiva o mercado informal Desemprego

Tempo livre Inflação no núcleo receptor Queda no faturamento de empresas turísticas Fatores mercadológicos

(concorrência, moda, baixa segmentação de produtos)

Pode gerar prostituição Compromete a qualidade no atendimento

Fatores ambientais (guerras,

situações políticas, etc.) Degradação do meio ambiente Altera promoções dos produtos turísticos

fatores econômicos (variações no câmbio). Quanto aos efeitos da sazonalidade, em maior ou menor grau, Balneário Camboriú apresenta todas as características propostas por Mota (2001). Alguns destes problemas, inclusive, foram relatados pelos conselheiros nas entrevistas, em especial, o aumento da atividade informal, inflação de preços dos produtos e serviços e desemprego.

Assim, como fatores positivos do turismo de cruzeiros para Balneário Camboriú, houve uma predominância nos relatos dos conselheiros de que a promoção do turismo é um aspecto positivo direto do turismo de cruzeiros no município, bem como uma forma de diminuir o problema da sazonalidade, tanto na visão dos conselheiros representantes das entidades governamentais quanto dos conselheiros representantes das entidades não governamentais.

O quadro a seguir apresenta alguns relatos das observações desta subseção expostos pelos entrevistados.

Quadro 20 - Relatos dos entrevistados quanto aos impactos positivos do turismo de cruzeiros

CÓDIGO ENTIDADE RELATO

[E01] Ñ-GOV "O fato de estar divulgando a cidade é um deles."

[E02] Ñ-GOV "Por mais rápido que seja, isso traz a oportunidade de criar uma vontade nas pessoas em virem à Balneário."

[E03] GOV

"Então, as grandes companhias também ditam moda no turismo. Na questão do cruzeiro marítimo, onde as companhias vão através do mundo, e as pessoas começam a olhar os destinos e as cidades, isso é um grande diferencial, isso é um grande ganho: estar no roteiro de uma companhia de divulgação mundial. Aparecer lá o nome de Balneário Camboriú; isso é promoção de destino. [...] segundo é a pessoa do cruzeiro desembarcar, conhecer o destino e muitas vezes a pessoa retorna [...] por outros meios de transporte. Pode ser o aéreo, pode ser o terrestre..."

[E04] Ñ-GOV

"é uma forma dele conhecer o destino e retornar em outro momento. [...]

Mas, por outro lado, também tem o impacto cultural, social e econômico. Eu sempre questionei e sempre defendo que o cruzeiro marítimo, muitas vezes, não é no momento que está aqui que gera economia. Ele gera economia porque esse passageiro vai voltar para cá."

[E05] Ñ-GOV

"o quanto Balneário Camboriú não iria ganhar com isso em retorno de ICMS? Quanto não iria ganhar pelo pessoal estar trabalhando transportando o pessoal, quantos empregos isso tudo não iria gerar? Então isso sim, se chama incremento do turismo."

[E07] GOV

"Com investimento em turismo o município inteiro lucra e é maior a possibilidade de todas as pastas, independentemente de estarem ligadas ao turismo ou não, de serem beneficiadas com isso."

[E08] Ñ-GOV

"Eles vêm naqueles períodos que ainda não deu o “boom” da temporada.

Eles vêm de novembro até 20 de dezembro. Depois do carnaval eles começam a vir novamente. Está ótimo! Eles pegam pré-temporada e pós temporada. [...] a vantagem disso tudo é que foge do pico das altas temporadas e isso para nós é muito bom."

[E11] Ñ-GOV

"É bom para a região, mas, bom mesmo seria que houvesse o embarque e desembarque. Aí, o turista poderia vir, de todas as partes do Estado, inclusive de outros países do Mercosul. Poderiam ficar 2 ou 3 dias aqui em Balneário Camboriú, conhecer a região toda, usar nossos equipamentos e depois embarcar e seguir a rota que deseja."

[E12] Ñ-GOV

"Tudo aquilo que divulga Balneário Camboriú é muito importante. Avaliar hoje eu acho que é muito cedo. Até porque foi o primeiro ano que tivemos visitas de cruzeiros de uma forma efetiva."

[E13] GOV

"Tem esse lado positivo então que eu vejo que é uma forma de levar o nome de Balneário Camboriú para outros estados e até outros países. A questão da economia eu acho que, não só para Balneário Camboriú, mas para a região ela também é benéfica."

[E15] Ñ-GOV

"O cruzeiro é mais uma atividade turística que vai beneficiar a cidade.

Vamos ter mais empresas, vamos conseguir manter as nossas empresas aqui o ano todo. Nós temos esse problema da sazonalidade. [...] quem sabe futuramente a gente não possa ter, estender um pouco mais isso..."

[E16] GOV

"Acho que tudo vem a agregar valor para a cidade. Como a cidade ainda vive uma certa sazonalidade, e ela tem diminuído ao longo dos anos, nós temos que avançar muito mais porque outros destinos turísticos também

[E18] Ñ-GOV "A questão da prioridade de investimento está muito ligada à atratividade.

Então, sendo um negócio atrativo, vai haver investidores."

Fonte: Elaboração própria a partir das entrevistas concedidas (MAFRA, 2019).