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CAPÍTULO II – A PROBLEMATIZAÇÃO DA ESCRITA DE SI

II.2 Aspectos gerais sobre escritas de si

II.2.2 A consciência de Llansol como escrevente

Llansol concebe escrevente como “aquele que consigna em texto a sua experiência, para que ela fique sobre esta Terra e possa ser ligada à experiência de outros”209. De acordo com esse entendimento e considerando inexistir a constância do

206 Em LHI: “* Parámos, fico à espera no carro. Passado algum tempo deixo de esperar. Começo a tecer 

eu, que sei tão pouco de costura  o tecido da minha meditação. *” (LHI, 2009, p. 92). Em LC: “(Mais tarde, Ana de Peñalosa esquecera por completo o que julgava ver nesse olhar e nem o silêncio

meditativo de São João da Cruz fizera recordá-la. Letras nítidas e imperceptíveis.)” (LC, 1977, p. 73);

“Ana de Peñalosa não tinha livro, espetara a agulha no tecido e contemplava o deambular do peixe” (LC,1977, p. 66); e “Debruçada à janela, contemplou-os no pátio. Sem luz, continuavam a escrever:  É a noite radiosa. Não haverá muitas noites assim.” (LC, 1977, p. 68) (grifos nossos).

207 BARROS, 2011, p. 154. 208 FOUCAULT, 1992, p. 132. 209 LLANSOL, 2011, p. 66.

movimento autobiográfico, assevera-se que não se pode classificar escritos de LHI e LC como autobiográficos. De fato, elementos biografemáticos se manifestam na ‘consciência de Llansol como escrevente’ e mesclam-se210 com ficções. Tal consciência manifesta-se em situações como: (a) o ato de Llansol produzir pães (“Fazer o pão, desenhar no pão sinais, liberta-me as mãos dos movimentos da minha rota. E a escrita se transforma num outro traçado, e tudo noutro mundo elaborado, histórico e livre.” (LHI, 2009, p. 116)) para garantir a própria sobrevivência; (b) quando escrevia em cafés; (c) em momentos vivenciados com o esposo (“Comprei um alfinete de fechar um xaile, ele veio até nós na brocante de Monika. Era tão natural, na sequência dos meus pensamentos sobre o tecido. Na sequência de Florbela Espanca sobre a qual hoje li um artigo na antiga Modas e Bordados. Florbela Espanca antecede a minha obra, fui sua causa imediata, uma figura e uma época que desencadeiam uma pulsão  o livro quase completamente por escrever, como o baptizou o Augusto. Bebíamos café Aux Délices. Hoje. Mas há dias, quando íamos a Lovaina, disse ao Augusto, na paragem do autocarro, o que era a obra. A escrever, não sei se voltarei a encontrar os mesmos sentimentos e ideias. Tudo partiu do retrato de Florbela Espanca, se fez em torno de um olhar seu baixado sobre um livro.” (LHI, 2009, p. 157)); e (d) quando Llansol afirmava que não tinha tempo para escrever, uma vez que o ato de pensar requer tempo  “Por que é que o trabalho, na maior parte dos casos, só ocupa o tempo e garante o ganho, em vez de ser uma forma de expressão, ou uma participação directa na vida comum” (LHI, 2009, p. 221). A urdidura textual precisa de criatividade e tempo para ser tecida.

Nesse ponto, vale apresentar a origem do verbete biografema e o conceito que o delimita.

Inveterado inventor de neologismos, Roland Barthes, enuncia, em Sade,

Fourier, Loiola, livro de 1971: “(…) Se fosse escritor, e morto, como

gostaria que a minha vida se reduzisse, pelos cuidados de um amigável e desenvolto biógrafo, a alguns pormenores, a alguns gostos, a algumas inflexões, digamos: ‘biografemas’, em que a distinção e a mobilidade poderiam deambular fora de qualquer destino e virem contagiar, como átomos voluptuosos, algum corpo futuro, destinado à mesma dispersão!; em suma, uma vida com espaços vazios, como Proust soube escrever a sua, ou então um filme, à moda antiga, onde não há palavras e em que o fluxo da imagens (esse flumen orationis, em que talvez consista a ‘porcaria’ da escrita) é entrecortado, como salutares soluços, pelo rápido escrito negro do intertítulo, a irrupção desenvolta de um outro significante (…)”. Grafado entre aspas, o neologismo “biografema” passou a fazer parte da teoria

210 Relembrando: a pesquisa demonstrará que, em LHI e LC, discursos irrompem imagens do eu sob

suspeita  em face de suas infindáveis significações, e apesar de serem de categorias ‘referenciais’ e ‘ficcionais’  encontram-se em permanente tensão e propõem desafios de leituras.

literária, inserindo-se na crítica como aquele significante que, tomando um

fato da vida civil do biografado, corpus da pesquisa ou do texto literário, transforma-o em signo, fecundo em significações, e reconstitui o gênero autobiográfico através de um conceito construtor da imagem fragmentária do sujeito, impossível de ser capturado pelo estereótipo de uma totalidade. Mais tarde, em 1980, o semiólogo francês define, em A

câmara clara, seu novo neologismo; “(…) Gosto de certos traços biográficos

que, na vida de um escritor, me encantam tanto quanto certas fotografias; chamei esses traços de ‘biografemas’; a Fotografia tem com a História a mesma relação que o biografema com a biografia” (p. 51). O biografema

será, pois, um fragmento que ilumina detalhes, prenhes de um “infra- saber”, carregado de, barthesianamente falando, certo fetichismo, que vem a imprimir novas significações no texto, seja ele narrativo, crítico,

ensaístico, biográfico, autobiográfico, no texto, enfim, que é a vida, onde se

criam e se recriam, o tempo todo, “pontes ... entre realidade e ficção”.

(CEIA, 2010, n.p.) (interpolações e grifos nossos)

Assim, é possível afirmar que, com o biografema, a escrevente oferece um olhar fragmentário, disperso, superficial  algo em permanente construção. “Não é a narração que transmite a experiência de uma vida, mas é a construção de uma ficção que faz da vida experiência”211. Costa Lima diz que “[...] não há matéria ficcional que não contenha um fundo de história vivida. Só que essa matéria ficcional recebe o impulso do vivido para fazê-lo experimentar outras trilhas”212. E, daquilo que está sendo transmitido, o legente captura o punctum  detalhes, traços, pequenos elementos e aspectos subjetivos que mais lhe cativam, encantam, pungem.

E, também, não se pode afirmar LHI ser escrito sob a forma de diário. Há certa similitude com esta forma de escrita de si que funciona como cena primitiva – metaforicamente, um manancial que contribui para depuração de ideias (i.e., a gestação de LC). Em um diário típico, inexiste tal possibilidade de depuração. Assim, os escritos de LHI são registros de cunho diarístico, mas não típicos diários visto que além deste meio de depuração, não se observam todas as entradas (i.e., registros de datas). E, por sua vez, essas são apresentadas sem linearidade temporal. Ademais, por não ser típico diário, LHI não colmata o medo do vazio por ingressar na complexidade daquilo que Blanchot denomina narrativa em oposição ao diário.

Diários aproximam-se dos hypomnemata, pois esses serviam de matéria-prima para aqueles. Por isso, é identificável certa semelhança entre as duas obras. Ademais, enquanto os hypomnemata produzem registro introspectivo daquele que escreve, diários

211 LOPES, 1988, p. 85.

perfazem caminho inverso. Ambas essas formas de escrita de si adentram a mente do leitor e se aprofundam, sinergeticamente, em diferentes e aleatórios graus.

Escritos de LHI e LC não podem ser classificados como autobiografia, diário e

hypomnemata, pois elementos ‘referenciais’ e ‘ficcionais’ existentes naquelas duas

obras transmutam-se, continuamente, como os movimentos de um ser semi-submerso em sítio movediço213. Movimentos salpicados que não nos permitem identificar onde começam e terminam  se é que começam e terminam!  elementos ‘referenciais’ e ‘ficcionais’ encontrados naquelas três formas de escrita de si. Assim, autobiografia, diário e hypomnemata são conceitos por demais limitados, encapsulados e cristalizados para transmitir elementos ‘não capturáveis’ nos escritos de LHI e LC.

Arrematando este capítulo da pesquisa, asseveramos que constituintes de LHI são, aleatoriamente, incorporados aos escritos de LC, pois ideias daqueles fecundam, frutificam, desenvolvem-se, alimentam-se e são (re)trabalhadas, de forma palpável (em cadernos e materiais avulsos, mediante materialidade de palavras) e não-palpável (pensamentos, sentimentos, sensações, experiências de Llansol, outros eus, figuras e imagens que afloram do amálgama de tudo). Ideias que acabam sendo transmitidas para LC e propiciam: conexões rizomáticas214 entre LHI e LC, problematizações e tensões nas formas de escrita de si.

213 “Caminhando por entre areias movediças, a introdução nesse novo meio não terminava;” (LC, 1977,

p.33).

214 No Capítulo III, será desenvolvida abordagem sobre o processo rizomático de criação da escrita