CAPÍTULO III – URDIDURAS DE FRAGMENTOS ENFATIZADORES DA
III. 1 ‘Ficcional’ e ‘Referencial’
III.5 Maus diários
Voltamos ao tema do diário para seguir de perto Blanchot quando aborda o diário íntimo que parece tão livre de formas escriturais e tão receptivo a toda sorte de liberdades é submetido a opressora cláusula: “respeitar o calendário ... esse é o pacto que ele o Diário Íntimo assina. O calendário é o seu demônio, o inspirador, o compositor, o provocador e o vigilante”282 (interpolação nossa). No diário estabelece-se um pacto diabólico com os dias, o qual é selado com indispensável sinceridade (“ninguém deve ser mais sincero do que o autor de um diário ... é preciso ser superficial para não faltar com a sinceridade”283). Para aquele teórico, essa é uma grande virtude que exige coragem. Em LHI vê-se que essa coragem impulsiona a escrevente a uma escrita precipuamente em devir, segundo construção imaginária ligada, de alguma forma, ao mundo idealizado por Llansol. Acredita-se que Llansol não assume nenhuma postura política, social e religiosa, mantendo-se apartada de tudo que não contribua para a busca do espaço edênico, seu mundo em devir. Nesse escopo, os
277 LHI, 2009, p. 27. 278 LC, 1977, p. 37. 279 Ibidem, p. 26. 280 BARRENTO, 2017, p. 7. 281 OLIVEIRA, 2015, p. 54. 282 BLANCHOT, 2005, p. 270. 283 Ibidem, p. 270-271.
escritos llansolianos coadunam-se ao pensamento do ensaísta francês que explora a ideia de que tentar eternizar um fato é um dos vários motivos que faz com que o diário seja uma ‘empresa de salvação’284. E Llansol faz de sua escrita diarística ‘empresa de salvação’ à superficialidade de um diário tradicional, pois, como o próprio Blanchot ressalva: “a profundidade exige a resolução de não manter o juramento que nos liga a nós mesmos e aos outros por meio de alguma verdade”285. É por isso que Llansol diz: “Os bons escritores fazem os maus diários. Aceito fazer um mau diário”286. Trata-se de sutil e poética ironia. Llansol sabe que maus diários são ótimas narrativas, pois essas são livres e ultrapassam a superficialidade daqueles os quais encarceram o escritor. Como aponta Guimarães (1997, p. 222), Llansol abandona a frágil proteção do calendário e, até mesmo, as datas da história e transforma-se em combinatória irregular. Com a profundidade de seus escritos, Llansol faz bem e não mal diário ao legente, pois inquieta-lhe a existência ao expressar sua (dela) revolta ao ‘padrão dominante’. “A minha escrita nasce quase sempre de uma revolta”287, fazendo-os se questionarem e confrontarem-se com a ‘impostura da língua’. Os escritos de Llansol destituem a língua de sua impostura quando aproveitando-se da ideia barthesiana de trapaça com a língua jogam com os signos desviando-a de seus mecanismos estereotipados (LEVY, 2001, n.p.). Trapaça que investe na “potencialidade da palavra de ser dirigida a alguém e ser escutada por alguém outrem: Interlocutor”288 (interpolação nossa). Impostura que escritores de maus diários contribuem para a manutenção da habitualidade de uma vida sem contestações e/ou inquietações. “[...] tão ausente com a boca penetrada de silêncio”289. A resignada vida do ‘assim foi... é... e será!’. “O discurso que é só expressivo não cria interlocutores, cria ouvintes. O discurso para a eficácia cria adversários, adversários/escutadores. É o discurso mais equilibrado, é o que seria capaz de uma justa medida em torno do sentido”290. “E, por isso, quero fazer comunidade com
284 BLANCHOT, 2005, p. 274. 285 Ibidem, p. 271. 286 LHI, 2009, p. 61. 287 Ibidem, p. 31. 288 Ibidem, p. 27. 289 LC, 1977, p. 54. 290 LHI, 2009, p. 29.
as plantas e os animais; com os homens, gostaria apenas de comunicar através das atitudes (do silêncio, e de algum amor)”291.
O (pseudo) mau diário (a inquietação) aceito(a) fazer por Llansol é produzido(a): dissociando o tempo292,293 e o espaço294; fragmentando aquilo que poderia ser seu enredo; e, acumulando em metamorfoses295 as passagens que o constituiriam. “[...] Tinham a impressão de caminhar através do tempo, o espaço não era nada; deixaram a casa, a janela, o rio, o deserto, o bosque, as regiões polares e concentraram-se na palavra”296. “[...] Mais do que uma escrita metafórica, a escrita de Llansol é uma escrita metamórfica, ‘em que tudo se transforma em tudo, em leves metamorfoses em que só perdemos os sentidos’297 e em que a representação ‘se faz ao nível da palavra’298 [...]”299.
Em LHI, Llansol desconstrói a expectativa por um tradicional diário, uma vez que ultrapassa padrões textuais, ‘facilidades da escrita’300 e a impostura da língua. Consequentemente excede301 a prática da leitura quando lança o leitor à escrita imagética, alçando-o à categoria superior mediante a praxia da legência de textos plurais e des-hierarquizados. “________ a primeira imagem do Diário não é, para mim, o
291 LHI, 2009, p. 112.
292“Consciência corporal, que se situa no nível da pele, como inscrição. Não necessidade de olhar, mas
profusão de tempo e de lugares. Um desejo de sair, de banhar-se no futuro.” (LHI, 2009, p. 44-45). “[...] Por escrever está o nosso futuro” (LC, 1977, p. 73).
293 “Com quarenta anos, o passado amplifica-se e perde os limites. Sobrepõe-se ao futuro, que emerge já
no ciclo do tempo. Não é o meu futuro, mas o da comunidade das coisas e dos humanos.” (LHI, 2009, p. 58) “Mas se eu me concentrar num fragmento do tempo, Agora, Esse fragmento revelará todo o tempo.” (LC, 1977, p. 76).
294Llansol dissocia o espaço (vinculando-o ao domínio da escrita e do corpo) do tempo (correlacionando-o
ao poder e à história). Em LC, concebe os Lugares sobrepondo tempos, em multiplicidade ou simultaneidade. Dessa forma, esfacelando a identidade e implodindo a continuidade narrativa, via silenciosa de negação da continuidade espaço-temporal, a escritora desenvolve sua (des)construção do literário, aprofundando o texto de LC no espaço-tempo da errância; esse, um instrumento valioso para a palavra sujeita perenemente à metamorfose e ao ‘devir como simultaneidade’.
295 “Comprei este caderno para que, de certo modo, a experiência do tempo possa ser recuperada. [...] um
dia, ler estes textos acumulados em estreita correlação com a ‘minha tensão de esvair-me e acumular- me em metamorfoses’ me poderia proporcionar um prazer semelhante.” (LHI, 2009, p. 60).
296 LC, 1977, p. 54. 297 LHI, 2009, p. 145. 298 Ibidem, p. 32.
299 MATEUS, 2015, p. 69.
300 É inequívoco ser difícil ao leitor ‘levantar o véu’ dos textos llansolianos.
301 “A língua do texto llansoliano faz uso de uma energia tensiva que procura dar a ver a coisa não através
da representação, mas pela sua presentificação. Exercita-se no texto pela escolha de uma escrita da imagem e não da metáfora. A metáfora ‘possui’ a coisa; a imagem ‘dá a ver’ a coisa.” (SANTOS, 2008a, p. 19).
repouso na vida quotidiana, mas uma constelação de imagens, caminhando todas as constelações uma sobre as outras”302.
A sobreimpressão é o modus operandi no qual, em contínua transmutação, Llansol povoa o mundo de cada ser. É uma técnica visual em que paisagens irrompem, deslizam e imbricam umas sobre outras conferindo substância, corporeidade e vida aos fragmentos. Os fragmentos detêm uma textualidade luminosa que se inscrevem na mente do leitor. São reais-não-existentes que se interpenetram em cada cena fulgor elaborada pela escrevente e lapidada pelo legente. “Cada um não é apenas a razão que aparentemente domina, nem fração daquilo que, acumulado, seria a razão universal – na escrita como gesto de dirigir-se a outro, o corpo que escreve é também aquele que, desconhecido de si mesmo, implica-se nessa oferta”303.
Nessa oferta de si, Llansol tentou escrever LHI e LC todos os dias304. Como escrito por ela, esse ‘mau diário’ não somente registrava o resumo de atividades do seu cotidiano, como fugia à linearidade temporal de um dia a dia fechado. “A inscrição recorrente das datas evidencia a proposta de fazer da escrita um exercício repetido, marcado pelo desejo de aprendizagem [...]”305.
Inicio neste momento [23 de Junho de 1976] um texto que certamente não terá fim ______ (LHI, 2009, p. 167).
[26 de Julho de 1976 [...]] Estou hoje transformada numa sombra enorme; corrijo as provas d’O Livro das Comunidades e de manhã houve um acontecimento triste, que no princípio foi desesperante. Deixou-me numa tristeza abandonada. Mas compreendi, apanhei numa iluminação que a minha escrita não é um efeito, o efeito do meu penoso carácter. Ela existe, ela é a
causa, o que antes de mim me dividiu em acidentes de uma geografia
sentimental e perceptiva tão global e globalizante na sua ausência de estruturação, que é quase impossível ter por suporte um ser humano. (LHI, 2009, p. 172)
Passei, neste dia [3 de Setembro de 1976, sexta], por uma cadeia de desejos: curar, aprofundar, alimentar, interrogar e conhecer a matéria de que faço parte. (LHI, 2009, p. 176) (grifos nossos)
302 LHI, 2009, p. 19. 303 FENATI, 2016, p. 164.
304“O diário, como a palavra indica, é uma escrita que se faz no dia a dia: na definição de Lejeune, ‘uma
série de vestígios datados’ (LEJEUNE, 2008, p. 259). O diário se caracteriza por ter data e pequenas anotações que Lejeune chama de entradas ou registros. O diarista não escreve necessariamente todos os dias, mas existe uma preocupação de marcar a passagem do tempo. Como diz Blanchot, o diarista tem de respeitar o calendário, este é o pacto que ele assina, o calendário é seu demônio (BLANCHOT, 2005, p. 29).” (FIGUEIREDO, 2013, p. 29).
É certo que em LC a produção literária deu-se de forma aleatória pois não seguia a fixidez de um tradicional diário e com menor frequência em relação ao LHI, como assinalado por Llansol em: “[23 de Outubro de 1976 [...]] Há muito tempo que não escrevo n´Geografia de Rebeldes . Hoje devo escrever; entre mim e eles, como figura, está a terra do jardim, com suas flores e vegetais no exterior, com seus bolbos nas caves do Outono e da geada”306. A figura do jardim é um mundo-outro onde se inscrevem (e escrevem) os corpos que ali povoam. O jardim é um espaço potencial cujos horizontes (éticos e estéticos) produzem ideias e beleza recuperadoras e reafirmadoras daquilo que o passado tem para oferecer de libertador e formador de consciências (BARRENTO, 2017, n.p.).
Entretanto, Fenati diz que Llansol “distingue a escrita dos diários [entre esses, LHI] da escrita dos livros – o contato com os diários é menor, nada tem a ver com o ritmo da escrita dos livros (quando não puder correr em O Livro das comunidades, escreverá no diário – diz ela)”307 (interpolação nossa). “Se não escrevo n’O Livro das Comunidades, escrevo aqui. Se não posso correr n’O Livro das Comunidades, tenho o contacto menor desse texto”308. Sobre isso, “pelas finalidades que Llansol anuncia, escrever o diário parece ser lançar uma âncora, um modo de criar estabilidade, longe daquele que seria o movimento errante dos entre livros LHI e LC”309 (interpolações nossas). Entende-se que tal movimento errante refere-se ao LHI e LC que se imbricam sob diversos modos, dentre eles, a subjetividade polifônica.