CAPÍTULO III – URDIDURAS DE FRAGMENTOS ENFATIZADORES DA
III. 1 ‘Ficcional’ e ‘Referencial’
III.2 Extratos biografemáticos de intensidade variada
LHI e LC constituem-se corpos em movimento que se nos oferecem a leituras, reflexões e questionamentos. Os dois livros são, ao mesmo tempo, ‘ficcionais’ e ‘referenciais’, pois neles se mesclam ficções e elementos biografemáticos que produzem extratos biografemáticos de intensidade variada e tensão entre si.
Na passagem “A minha escrita nasce quase sempre de uma revolta”216, externa- se revolta, pois se justifica que “A palavra é a escrita dos meus desejos e dos meus conflitos”217. Por oportuno recorre-se a LC. A Comunidade é constituída por figuras
215 GUIMARÃES, 1997, p. 223. 216 LHI, 2009, p. 31.
excluídas: a Geografia de Rebeldes. LHI e LC não são povoados por personagens, mas sim “módulos, contornos e delineamentos” ou “nós construtivos do texto”218. A revolta de figuras excluídas refere-se à manifestação subjetiva da comunidade de rebeldes, a qual traz em seu bojo o desejo por mudanças, nelas incluídas as sociais e as políticas. “Pascal refere que o desejo do que sentimos ter perdido é aquilo que funda verdadeiramente a condição humana. Somos, afinal, na medida em que não somos, e somos apenas enquanto procuramos.”219. A escrita llansoliana é a manifestação desse desejo, uma necessidade ‘orgânica’ de se expressar contra a impostura da língua a serviço dos príncipes, em busca do local onde impera o des-hierarquizado e plural.
Fugir à impostura da língua equivale a perder-se nela, atravessando a linguagem e ultrapassando as costumeiras acepções ou linhas de significação das metáforas, a fim de criar novas cadeias de sentido. Fugir à impostura da língua é a força motriz capaz de gerar diversidade subjetiva em cada legente. Fugir à impostura da língua é o espaço imaginante que Llansol proporciona aos legentes opondo-se ao discurso hegemônico e utilizando a escrita como instrumento de conforto e mitigação.
Em LHI, Llansol diz: “A minha escrita nasce quase sempre de uma revolta”220, citação que se reflete em “[...] compreendi que nenhuma meditação, nenhum texto, me serviriam além da minha própria escrita”221. No entanto, em aparente contradição, a escrevente consigna: “abrir o livro, ver a folha em branco, pegar em qualquer instrumento que escreva é de uma grande consolação”222. Em LHI afirma-se: “a palavra é a escrita dos meus desejos e dos meus conflitos”223. Essas assertivas dialogam entre si e são, respectivamente, instrumentos de confronto, de conforto e de busca de soluções para enfrentamentos do eu que escreve. Trata-se de uma textualidade fora da luz comum que lida com a palavra como algo vivo do discurso e de seu movimento. Os 26 Lugares ou cenas que compõem LC não abordam como fazer mundos, mas, de habitá-los, vivendo a escrita e sua dinâmica.
218 LLANSOL, 2011a, p. 121. 219 VASCONCELOS, 2016, p. 88. 220 LHI, 2009, p. 31. 221 LC, 1977, p. 85. 222 Ibidem, p. 53. 223 LHI, 2009, p. 28.
Muito é proporcionado ao leitor: textos des-hierarquizados lançam-no na escrita imagética, alçando-o na praxia da legência mediante questionamentos e criações textuais.
Dizer que LHI e LC fogem à tradicional escrita é pouco, pois têm qualidade, força e mobilidade textual para trespassarem gêneros literários, não se sujeitando a algoritmo que os subjugue a qualquer um deles.
Em realidade, Llansol inova, pois nas duas obras deixa de ser ela mesma para tornar-se outro que, na busca por (re)leituras224, mergulha em sua (dela) escrita de si e, ainda, atrai o legente esse uma parcela da outra metade que a constitui a também fazê-lo. “Olhávamo-nos mutuamente, trocando visões e recordações. Tinha a presença corpórea do livro sobre a mesa, ou seja, do outro, e o todo fazia parte da mesma voz”225. E isso é feito por meio de escrita impregnada da necessidade de se libertar, de se destituir da ‘impostura da língua’. “[...] compreendi o que é um verbo. Mergulhar alguém na ausência, falhar alguma coisa, mudar de vida, quebrar os hábitos”226 e em “Sempre à beira da escrita. São João da Cruz caminhou com eles dias e dias, sem ter tempo de se sentar por terra e escrever. [...] Sempre à beira da escrita era um cavalo do deserto. Pégaso”227.
O alçar do leitor mediante vôo tal qual do mitológico cavalo alado à categoria de legente se galga com a ruptura da ‘impostura da língua’. Assim nasce o legente: à custa da morte do leitor e diluição do autor na escrita. A escrita faz nascer e liberta. “Enquanto falamos, o outro [aqui manifestado pela parcela Pégaso] levanta vôo, porque meu pensamento foi cortado para deixar falar o outro [aqui, a outra metade de Llansol, nela inclusa a parcela legente]”228 (interpolações nossas).
Sobre Pégaso, vale observar a existência de várias lendas ressaltando a participação desse animal no cumprimento de missões – e o devir é, dentre elas, talvez a maior das missões – do homem. Em uma delas, o equino alado ajudou o herói
224 “Mais do que produzir imagens por uma ação intencionalmente direta do sujeito, o texto se produz sob
a força violenta das imagens que irrompem e configuram o seu objeto: um certo eu e um certo real articulados entre si e interdependentes” (OLIVEIRA, 2014, p. 4).
225 LHI, 2009, p. 113. 226 Ibidem, p. 60. 227 LC, 1977, p. 43. 228 LHI, 2009, p. 28.
Belorofonte a livrar o país da ameaça das Quimeras. Em agradecimento, Pégaso foi levado para o céu, mas um moscão enfureceu o animal que jogou Belorofonte – o Homem – de volta à Terra. Assim, com a utilização da figura de Pégaso por Llansol, entende-se que o Homem pode retornar ao Céu com auxílio desse mito, pois além de incorporar certa dose de simbologia do cavalo (beleza, lealdade, força, resistência e velocidade) há outras dimensões que lhe podem ser associadas às asas (imortalidade, vôos maiores, liberdade, espírito altivo, ligação entre o mortal e o divino). Ligação entre a Terra (o mundo onde o animal, aí incluído o homem, cavalga) e o Céu (o divino, onde animal, aí incluído o homem, intenta alcançar mediante seus vôos aquilo que sonha). E sempre o Homem buscará alcançar o sonho, mediante um dom poético, ponte entre o profano e o sagrado.
A escrita llansoliana decorre de sua consciência como escrevente, se engendra e deriva a partir de um todo que inclui processos como a inspiração e a atenção. Processos que são para-leituras229 correlatas de si, do mundo, de outros textos, figuras e coisas não objetivantes, mas impregnadoras de sentidos. Como afirma Albalat:
Eis aqui imagens, imagens da imaginação, que surpreendem pelo seu imprevisto, pela qualidade que sentimos difícil encontrar por nós próprios [mediante nós textuais próprios], que revelam o gênio, e de que não pode ensinar a arte [mas sim apresentar seu caminho].
[...] Uma imagem é uma relação de comparação e essa relação varia infinitamente conforme o cérebro que pensa e os olhos que vêem. (ALBALAT, 2015, p. 278) (interpolações nossas)
Segundo Lopes, são “textos que deixam ver outros por baixo [da superfície textual]”230 (interpolação nossa). Existem dobras dentro de (e entre) LHI e LC, propiciando-lhes intratextualidade, pois uma obra manifesta-se vergada à outra. A leitura é dobra de escrita. “[...] bordo e penso que sei bordar; [...]”231. O ato de escrever implica ver e penetrar matizes de outros textos que se lhes interpenetram: ‘manuscritos’ que foram ‘desmanchados’ para serem ‘entremeados’ e ‘recobertos’ por ‘fios textuais’ de um ‘discurso insinuado’. E, nesse processo, produz-se um bordado, uma reduplicação textual. Bordar é uma trama na qual “leituras-encontro desprovidas do tradicional
229O prefixo grego utilizado relaciona-se à possibilidade de realizar múltiplas leituras derivativas (i.e.,
para-leituras correlatas de enésimas ordens).
230 LOPES, 2003, p. 216. 231 LC, 1977, p. 66.
sentido de apropriação [...]”232 engendram a escrita de si com o Outro. Pela leitura, a imagem do Outro desperta imagens em legentes.
Nesse sentido, a escrita llansoliana é suporte, físico e subjetivo, para construção de uma existência maior, algo em eterno acontecer: o encontro com uma vida a devenir, em permanente porvir. “Penso e estudo textualmente. Visiono uma escrita viva que possa tomar por um encontro.”233. Isso também se confirma em: “Compreendi que nenhuma meditação, nenhum texto, me serviriam além da minha própria escrita”234, pois, a nosso juízo, esse é o lócus de construção do espaço edênico idealizado por Llansol. Assim, passemos a discorrer sobre tal espaço.