8 A SEPLAN E O ORDENAMENTO LEGAL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ESPORTE E LAZER NOS TERRITÓRIOS DE IDENTIDADE DO ESTADO DA BAHIA
8.2 O CONSELHO ESTADUAL DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL (CEDETER) E OS COLEGIADOS TERITORIAIS (CODETER): RESOLUÇÕES EM FOCO
8.2.1 Conselho Estadual de Desenvolvimento Territorial – CEDETER
A Resolução CEDETER publicada no Diário Oficial do Estado da Bahia em 25 de janeiro de 2011 resolveu no seu Artigo 1º – “Aprovar o Regimento Interno do Conselho Estadual de Desenvolvimento Territorial – CEDETER”. No seu Capítulo I – Da Natureza – estabelece que:
Art. 1º – O Conselho Estadual de Desenvolvimento Territorial CEDETER –, fórum permanente de caráter consultivo instituído pelo Decreto nº 12.354 de 25 de agosto de 2010, órgão de instância colegiada da Secretaria do Planejamento da Bahia, rege-se por este Regimento Interno.
O referido regimento prevê no Capítulo II, artigo 2º “Do Conselho”, as atribuições e competências do Conselho Estadual de Desenvolvimento Territorial, são elas:
Art. 2° – O CEDETER se constitui em espaço no qual diferentes esferas de governo e da sociedade civil organizada debatem e propõem diretrizes para a elaboração e implementação de políticas públicas e estratégias integrantes do Programa Territórios de Identidade, visando especialmente:
I – A integração e compatibilização de políticas públicas com base no planejamento territorial;
II – A ampliação dos mecanismos de participação social na gestão das políticas públicas de interesse do desenvolvimento dos territórios;
III – A valorização das diversidades social, cultural, econômica e geográfica das populações baianas;
IV – A redução das desigualdades regionais, proporcionando o desenvolvimento territorial sustentável;
V – A redução das desigualdades de renda, gênero, geração e etnia nos territórios baianos e a promoção da equidade social.
A partir da leitura dos itens II e IV do artigo 2º do Regimento Interno, percebe-se que o Governo cria espaços de interlocução junto à sociedade civil, especialmente nos Territórios de Identidade, com a finalidade de “ampliar a participação social na gestão das políticas públicas de interesse do desenvolvimento do território”, com vistas à redução das desigualdades de todos os tipos e observando a “valorização das diversidades de renda, gênero, geração e etnia”.
Entretanto, há que se considerar, conforme se lê no Artigo 1º, que, pelo caráter apenas consultivo do Conselho, as discussões e deliberações daí resultantes poderão ser ou não acatadas pelo Governo, principalmente quando conflitarem com os interesses da Política Estadual de Desenvolvimento do Estado. Espera-se que espaços tão importantes de diálogo entre o Governo e a Sociedade civil, como o Conselho, não se reduzam apenas a processos de legitimação de planos, programas, projetos e ações estratégicas de Governo, mas que funcionem, efetivamente, como locais de expressão de desejos, demandas e necessidades dos diferentes segmentos da sociedade presentes nos Territórios de Identidade. Tais espaços podem propiciar voz e voto aos atores locais para que estes possam representar, concretamente, seus territórios, no processo de elaboração e implementação de políticas públicas que configurem o planejamento territorial, conforme propõe o artigo 3º do mesmo Regimento Interno:
I – Propor políticas públicas para o desenvolvimento territorial;
II – Propor estratégias de implementação do Programa Territórios de Identidade;
III – Elaborar os critérios de agrupamento de municípios para a formação de Territórios de Identidade, a partir de estudos técnicos e indicadores, realizados pelos órgãos estaduais competentes;
IV – Analisar propostas de criação e modificação dos territórios de identidade; V – Criar procedimentos para homologação dos Colegiados Territoriais de Desenvolvimento Sustentável – CODETER;
VI – Promover o apoio político-institucional à atração de investimentos públicos federais, do setor privado e da cooperação internacional, destinados ao fortalecimento das atividades de geração e incremento da renda e da qualidade de vida dos habitantes dos territórios;
VII – Analisar e sistematizar as propostas dos CODETER referentes às políticas públicas de interesse comum dos Territórios de Identidade;
VIII – Propor intercâmbio com organizações e instituições estaduais, nacionais e internacionais, públicas ou privadas, visando à implementação de políticas e programas de Governo para os territórios de identidade;
IX – Fomentar e promover eventos que estimulem o debate, a reflexão, a compreensão e a difusão da abordagem territorial para o desenvolvimento do Estado;
X – Propor alternativas institucionais de territorialização da gestão de políticas públicas do Estado, inclusive gestão associada;
XI – Promover o assessoramento e apoio técnico e institucional aos colegiados territoriais;
XII – Elaborar e aprovar o seu Regimento Interno, bem como homologar os Regimentos Internos dos CODETER.
Como se verifica nas atribuições já mencionadas, o CEDETER tem um papel fundamental na organização do planejamento estratégico do Estado, principalmente no que se refere às ações que irão incidir sobre as políticas dos Territórios de Identidade. Atribuições como: “I – Propor políticas públicas para o desenvolvimento territorial”; “III – Elaborar critérios de agrupamento de municípios para a formação de Territórios de Identidade, a partir de estudos técnicos e indicadores, realizados pelos órgãos estaduais competentes”; “IV – Analisar as propostas de criação e modificação dos Territórios de Identidade”; “V – Criar procedimentos para homologação dos Colegiados Territoriais de Desenvolvimento Sustentável” – CODETER e “VII – Analisar e sistematizar as propostas dos CODETER referentes às políticas públicas de interesse comum dos Territórios de Identidade”, dão ao CEDETER um significativo controle sobre as ações e programas resultantes das reuniões e fóruns promovidos por este Conselho.
Não se pode esquecer que, nesse universo, as deliberações tomadas dependem essencialmente da composição do Conselho e da correlação de forças e interesses que permeiam o debate entre o Governo e a Sociedade Civil, e entre os próprios grupos existentes nos Territórios de Identidade.
É importante observar, nesse particular, que, normalmente, os grupos sociais vinculados ao esporte e lazer têm tido dificuldades de fazer valer as suas demandas junto ao poder público. Isto se deve, sobretudo, pela concepção dos gestores em relação ao esporte e ao lazer e pela hierarquia existente entre os setores da
administração pública, que dão maior importância às demandas de educação, saúde, trabalho, segurança etc., em detrimento de outras, como o esporte e o lazer. Ressalta- se, ainda, a falta de organização e capacidade de reivindicação dos segmentos da sociedade civil vinculados ao esporte e lazer nos Territórios de Identidade.
No texto do Regimento do CEDETER, ainda é possível ver no Capítulo III – “Composição”, qual o quantitativo de representações da sociedade civil e das instituições que participam do Conselho e quem são seus representantes. No seu Artigo 8º, o Regimento estabelece que:
O CEDETER é composto por 54 (cinquenta e quatro) membros, sendo 18 (dezoito) conselheiros titulares, tendo cada um 02 (dois) conselheiros suplentes, totalizando 36 conselheiros suplentes, com direito a voz e voto nas deliberações, distribuídos da seguinte forma:
I – 01 (um) representante da Secretaria do Planejamento, que o presidirá; II – 01 (um) representante da Secretaria de Desenvolvimento e Integração Regional, que exercerá a vice-presidência;
III – 01 (um) representante da Secretaria da Saúde; IV – 01 (um) representante da Secretaria da Educação; V – 01 (um) representante da Secretaria de Cultura;
VI – 01 (um) representante da Secretaria de Desenvolvimento Urbano; VII – 01 (um) representante da Secretaria de Relações Institucionais;
VIII – 01 (um) representante da Secretaria da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária;
IX – 01 (um) representante da Delegacia Federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário;
X – 01 (um) representante do Ministério da Integração Nacional;
XI – 08 (oito) representantes dos Colegiados Territoriais de Desenvolvimento Sustentável – CODETER.
Nesta composição, é possível perceber que a grande maioria dos representantes que participam do CEDETER estão vinculados a órgãos do Governo do Estado. Dos 18 membros titulares previstos, 10 são representantes de secretarias do Governo da Bahia, enquanto apenas 8 membros são representantes dos Colegiados Territoriais de Desenvolvimento Sustentável (CODETER).
Como mencionado anteriormente, a partir do instante em o Governo passa a ter maioria no Conselho, fica estabelecida uma correlação de forças desigual com a sociedade civil, pela qual o governo tem poder total de decisão sobre os assuntos que ali transitam e nas suas respectivas Câmaras Técnicas, principalmente sobre aqueles temas mais polêmicos, críticos e delicados para a gestão pública. Nestes conselhos, o
Governo tem a possibilidade de aprovar por maioria apenas o(s) projeto(s) de seu interesse.
Tal situação é ainda mais cômoda para o executivo estadual, quando se analisa a questão considerando a relação com os suplentes. Neste caso, o Governo pode atingir até um quantitativo de 20 suplentes contra os 16 restantes dos CODETER. Sem contar que muitas vezes, a depender das articulações estabelecidas entre o Governo e os Colegiados Territoriais, estes podem votar a favor do Governo, sobretudo nos pontos que tenham comum acordo ou que por qualquer motivo possam ser beneficiados.
Chamou-nos a atenção o fato de que, na composição do CEDETER, só exista a disponibilidade para 8 membros dos Colegiados Territoriais e seus respectivos suplentes, uma vez que, considerando a existência de 27 Territórios de Identidade no Estado da Bahia, deveria existir pelo menos 1 representação por território. Embora não existam informações claras nas resoluções do CEDETER, a esse respeito, parece que a opção por apenas 8 membros dos Colegiados Territoriais na composição do Conselho Estadual se dê pelo fato do Governo não querer perder a hegemonia das decisões nos assuntos discutidos nas Câmaras Técnicas.
Outra questão importante abordada no Regimento Interno refere-se à condição dos convidados a participarem das reuniões do Conselho. Estes, conforme se lê, a seguir, não têm direito a voto, apenas a voz, o que diminui sua possibilidade de intervenção no processo decisório.
§ 1º – Poderão participar das reuniões do CEDETER, na condição de convidados, com direito a voz, mas sem direito a voto, personalidades e representantes de órgãos e entidades públicos e privados, representantes dos Poderes Legislativo e Judiciário, bem como técnicos, membros dos CODETER e outros que reconhecidamente possam contribuir para enriquecer as discussões e tomadas de decisões.
§ 2° – Os Conselheiros serão indicados pelos órgãos de Estado e pelos 26 CODETER, considerando a decisão do fórum da Coordenação Estadual dos Territórios – CET.
Nesta última situação, bem como nas outras já apontadas, percebe-se a limitação pelos menos quantitativa de representantes da sociedade civil. Isto sem falar que aqueles que estão supostamente com a responsabilidade de representar os interesses da população junto ao Governo, que, neste caso, são os membros dos
Colegiados Territoriais, muitas vezes são cooptados, seja por interesses regionais, locais ou pessoais, comprometendo a organização do planejamento territorial.
Na sequência da discussão, destaca-se o Capítulo IV do Regimento Interno, que faz menção à “Estrutura Organizacional” do Conselho Estadual do Desenvolvimento Territorial. Neste tópico, no artigo 9, prevê-se que a estrutura do CEDETER compõe-se de: I – Plenário; II – Presidência e Vice-Presidência; III – Secretaria Executiva; e IV – Câmaras Técnicas.
Da estrutura organizacional importa saber neste momento a função do Plenário, por ser o fórum de deliberação maior do Conselho, conforme se observa no Artigo 10: o “Plenário é o fórum de debate e deliberação do CEDETER e terá 04 (quatro) reuniões ordinárias por ano, de acordo com calendário indicativo previamente aprovado na última reunião de cada ano”.
No mesmo capítulo, artigo 11, parágrafo 3º - observa-se: o “Plenário deliberará a partir das propostas encaminhadas à Secretaria Executiva diretamente pelos Conselheiros, ou por meio das Câmaras Técnicas, com antecedência mínima de 15 (quinze) dias antes da data prevista para a reunião”. Ainda sobre essa matéria o artigo 13 aborda as competências do Conselho:
Art. 13 - Compete ao Plenário do Conselho:
I – Deliberar sobre as Câmaras Técnicas e definir seus objetivos, sua coordenação, suas atribuições, suas competências e suas composições, por meio de Resoluções Específicas, observadas as disposições constantes de Atos normativos prevalecentes que regulem matérias a serem tratadas pelos mesmos;
II – Receber e analisar os resultados do trabalho das Câmaras Técnicas, bem como, revisar, se for o caso, suas deliberações, além de atuar como instância recursiva.
Tais atribuições previstas para o Plenário mostram a importância deste na estrutura organizacional do CEDETER, principalmente como espaço de discussão, deliberação e encaminhamento das decisões tomadas pelo Conselho que serão levadas ao Governo para aprovação junto ao Plano de Desenvolvimento dos Territórios.
Por fim, é importante comentar a respeito do funcionamento do Conselho, que além da Presidência e Vice-presidência, com suas respectivas competências, também trata das Câmaras Técnicas. Segundo o Regimento no seu artigo 26, secção VII:
Art. 26 – As Câmaras Técnicas têm por finalidade assessorar o Plenário do CEDETER, objetivando aprofundar análises, elaborar estudos, projetos e pareceres sobre os assuntos de suas áreas de competência e de relevância para Política de Desenvolvimento Territorial do Estado, bem como sobre temas específicos por delegação do Plenário do referido Conselho, na forma do presente Regimento.
Art. 27 – Compete a cada uma das Câmaras Técnicas, observadas as respectivas atribuições:
I – Analisar tecnicamente matérias enviadas pelo Plenário ou pela Secretaria Executiva;
II – Formular propostas normativas para os assuntos de sua competência; III – Propor estudos e projetos de impacto de interesse da Política de Desenvolvimento Territorial.
Art. 28 – As Câmaras Técnicas serão instituídas pelo Plenário, mediante proposta do Presidente, ou de, no mínimo, um terço dos Conselheiros, por meio de Resolução do CEDETER que estabelecerá suas competências, composição, prazo de instalação e funcionamento.
Art. 29 – Na composição das Câmaras Técnicas serão considerados a natureza da temática de sua competência, a finalidade dos órgãos ou entidades que participam do CEDETER, os atos normativos relativos aos temas a serem tratados e a formação ou notório saber de seus membros.
As Câmaras Técnicas são muito importantes, uma vez que os pareceres relativos aos assuntos discutidos na pauta do Conselho Estadual de Desenvolvimento Territorial são elaborados por estas Câmaras, o que significa dizer que elas representam uma primeira instância de aprovação ou não dessas questões.
8.3 NORMATIZAÇÃO DA DINÂMICA DE FUNCIONAMENTO, ORGANIZAÇÃO E