2.4 OS CONTORNOS DO OBJETO EMPÍRICO
2.4.1 Conselho Estadual de Direitos Humanos como marco do movimento: contexto e
A luta pela criação do Conselho Estadual de Direitos Humanos, por intermédio da Lei N.º 5.165, em 19 de dezembro de 1995, está estreitamente vinculada à situação política e social vivenciada não apenas na Grande Vitória, mas em todo o Estado de Espírito Santo. São fartos os relatos de violações envolvendo o crime organizado e o próprio Estado. Grupos de extermínio implantavam um regime de terror e a impunidade gracejava, causando um sentimento de insegurança em parte considerável da população.
De acordo com o trabalho de Peres e Santos (2005), a cidade de Vitória apresentava um dos maiores coeficientes de homicídios por cem mil habitantes entre as capitais do país entre 1991-2000, com 53,71 no ano inicial da série, perdendo apenas para Recife e Porto Velho,
respectivamente com 54,13 e 53,91. Durante toda a década de 90, houve um crescimento contínuo destes números para, em 1999, alcançar 80,55, o maior índice do País, havendo um recuo considerável no ano 2000, para 54,40, embora continuasse alto, o quarto maior entre as capitais, muito acima da média nacional de 26,70.
Tal situação não se restringia apenas à capital capixaba. Com base em dados do DATASUS, registrou-se de janeiro a junho de 1997, 718 assassinatos na Grande Vitória, e 1.272 em todo o Estado, subindo para 1.551 no ano seguinte. Não podemos esquecer que, por detrás dos números, existem pessoas, vítimas da violência, assim são incontáveis os nomes de indivíduos, ligados quase sempre aos movimentos populares, mortos pelas organizações criminosas instaladas no Espírito Santo:
O braço armado do crime organizado, a Escuderie le Cocq agia livremente. Aumentava a lista dos crimes insolúveis – Jonathans Bulamarque, Laurindo Bus, Mestre Caio, o menor Jean Alves da Cunha, o biólogo Paulo Vinha, Paulo Damião Tristão (Purinha) tesoureiro do PT em Linhares, Verino Sossai do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Montanha, Valdício Barbosa dos Santos, diretor do Sindicato de Trabalhadores Rurais e coordenador das Comunidades Eclesiais de Base de Pedro Canário, a jornalista Maria Nilce, Padre Gabriel Mayre, Araceli, o presidente da Câmara Municipal de Viana João José, o deputado Antário Filho, os prefeitos dos municípios da Serra, José Maria Feu Rosa, e de São Gabriel da Palha, Anastácio Cassáro, o advogado Carlos Batista, o líder comunitário de Viana Josino Lisboa e tantos outros (VEREZA, 2010, p. 7).
A situação era tão calamitosa que o jornal Folha de São Paulo, de 24 de março de 200324, publicou reportagem intitulada “Entenda a crise no Espírito Santo, chamado de ‘Estado sem lei” em que mostrava a ramificação do crime organizado dentro do Estado por intermédio de ocupantes de cargos eletivos (deputados estaduais), membros do judiciário, empresários, secretários de governo, bicheiros e funcionários públicos. Repercutiam ainda no novo século não só memórias, mas práticas das décadas passadas de flagrante desrespeito aos direitos humanos.
Neste cenário de extrema violação de direitos, é lançada em 1993 a Campanha Nacional contra a Impunidade provocada pela Ordem dos Advogados do Brasil – ES, Fórum Cidade Campo que organizava mais de quarenta entidades ao redor de si e o Movimento Nacional de
24 FOLHA DE SÃO PAULO. Entenda a crise no Espírito Santo, chamado de “Estado sem lei”. Folha Online.
24/5/2003. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u71738.shtml>. Acesso em: 21 fev. 2015.
Direitos Humanos. Essa campanha trazia em seu repertório de ação, passeatas, protestos em frente a prédios públicos e ações judiciais, com vistas a chamar a atenção para os dramas vividos no Estado. É no rastro dessas mobilizações que se dá a semeadura do Conselho Estadual de Direitos Humanos.
Com a eleição do candidato ao governo do estado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Vitor Buaíz, médico sindicalista de uma tradicional família de Vitória, abriu-se a oportunidade para que muitos militantes acessassem com maior facilidade o governo, principalmente a partir da indicação de Perly Cipriano, histórico militante, para a Secretária de Justiça que viria a ser responsável pelo CEDH. A Ordem dos Advogados do Brasil, sucursal do Espírito Santo (OAB/ES), o CDDH-Serra e o MNDH enxergaram, na ascensão de um partido de esquerda do qual muitos também eram militantes, a oportunidade de aproximarem-se do Estado, e gerar um espaço institucional dedicado à temática.
Embora essa tenha sido a primeira aproximação institucional do movimento com o Executivo Estadual, antes, o deputado estadual Aloizio Krolhing (1991-1994), também do PT, havia proposto a criação da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ALES). Isso significa que as ações dos movimentos, ao encontrarem apoios no sistema político, expandiam a discussão sobre o respeito aos direitos universais dos seres humanos.
Portanto, havia um processo de consolidação de espaços de debates em relação aos direitos humanos. Eles ganhavam visibilidade, e entravam na pauta dos meios de comunicação, e o Conselho tornou-se o lugar por excelência para pensar o respeito aos direitos e liberdades civis, aglutinando ao seu redor quase todas as organizações dedicadas à temática. Sua primeira diretoria assumiu apenas no ano de 1996, indo até 1999. De acordo com publicações do CEDH25 este foi um período marcado por muita precariedade, falta de recursos, além de descrédito por parte do governo, por mais contraditório que pareça, haja vista ter incentivado sua criação.
Ao longo das últimas três décadas, o movimento de direitos humanos atravessou diversos desafios que o obrigou a transformar-se com a adoção de novas estratégias de ação, assim como em seu conteúdo. Nesse processo, o Conselho desempenhou papel central em articular e incentivar o surgimento de novas organizações e no enfretamento das violações sofridas pelos
25 Esta informação foi retirada de uma publicação do CEDH em comemoração aos seus 15 anos de existência.
Existem poucos registros escritos sobre esse período, a maioria das informações que obtivemos sobre essa época foi por meio das entrevistas com os militantes que participaram na sua criação.
indivíduos no cotidiano. Veremos isso em mais detalhes nos capítulos III e IV. Nosso intuito com esta seção era contextualizar o Conselho e a luta por direitos humanos no Estado, ou seja, mostrar o que está em jogo nos enfrentamentos com o Estado ou outros adversários civis.
Para termos uma ideia da composição do CEDH, a última gestão do biênio 2013-2014 tinha os seguintes representantes do Estado: Secretária Estadual de Justiça (SEJUS), Defensoria Pública, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Ministério Público, Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ALES) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/ES). É interessante notar o predomínio de entidades ligadas à promoção da justiça.
Por sua vez, as representantes da sociedade civil eram as seguintes: Centro de Apoio aos Direitos Humanos (CADH), Centro de Defesa dos Direitos Humanos “Dom Tomás Balduíno”, Coletivo Fazendo Direito, Observatório Capixaba de Juventude, Sociedade Colatinense de Proteção e Promoção dos Direitos Humanos, União de Negros pela Igualdade (UNEGRO). A maioria delas localiza-se na Grande Vitória. Podemos notar uma predominância de ONGs. Isso é explicado pelos critérios de entrada no Conselho, por exemplo, a exigência de registro legal, algo difícil para um movimento social. Com seis entidades de cada lado evidencia-se a paridade regimental exigida pelo conselho.
Como veremos ao longo do trabalho, esses critérios de entrada não impedem o acesso de organizações menos formais à rede, porém esse se dá por intermédio da mediação de terceiros, por exemplo, o Assédio Coletivo, um grupo de jovens que trabalha arte com adolescentes e crianças nas periferias de Vitória, acaba por participar da rede, na medida em que, constantemente, realiza ações junto ao Observatório da Juventude. Porém, como uma das principais exigências para o acesso a recursos públicos ou para poder concorrer em licitações é o registro formal26, ou seja, ter CNPJ, são relativamente poucas aquelas que não o possuem e, por consequência, ficam alijadas da participação no Conselho ou na rede.
No emaranhado associativo característico da sociedade civil no Brasil, nas últimas décadas, as Organizações não vinculadas diretamente ao Estado e sem fins econômicos (ONGs) ganharam destaque. Como já mencionamos, sua vocação inicial era prestar assistência aos movimentos sociais, e, mais tarde, passaram a desenvolver trabalhos de assistência social,
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Lei n.º 9.790, de 23 de março de 1999. Dispõe sobre a qualificação de pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, como Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP).
educacionais, entre outros, algumas vezes com apoios de fundações de grandes empresas, por exemplo, Ford Foundation, e, em outras, do próprio Estado.
Este tipo de ONG é caracterizado por alguns autores como filantrópica, pois não está diretamente interessada na transformação das instituições ou mesmo da estrutura do Estado e da sociedade. Preocupa-se em atender um determinado público, prestando serviços muitas vezes de responsabilidade estatal, portanto não haveria nelas um potencial transformador.
No movimento de direitos humanos uma das ONGs mais destacadas é o CADH o qual adota postura mais instrumental, porque, desde a sua gênese, foi pensado como um gerenciador de políticas públicas voltadas à proteção da vida. Atualmente, administra dois projetos, o Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM), custeado pelo governo federal e pelos estaduais, e o Programa de Proteção a Vitimas e Pessoas Ameaçadas (PROVITA), incentivado pelo Ministério Público Federal e pelos estaduais. Com isso, acompanha a tendência da sociedade civil em assumir certas responsabilidades estatais. Isso mostra que não são dimensões totalmente inconciliáveis.
Por outro lado, podemos classificar como ONGs cívicas, aquelas cuja tarefa principal é expandir os limites da cidadania, garantir o acesso aos direitos civis, políticos, sociais e de reconhecimento a um número crescente de indivíduos, por meio do debate político, para consolidar a democracia (OLIVEIRA, 2002). Atentas às questões mais relevantes ao país, sua preocupação não é só prestar um serviço social, mas também promover mudanças nas instituições, superando as desigualdades econômicas, os preconceitos e toda forma de discriminação.
A rede possui ONGs dessa vertente, como o caso do Centro de Defesa dos Direitos Humanos Sul (CDDH-Sul) e o Coletivo Fazendo Direito, entidades que não recebem dinheiro público nem gerenciam políticas de Estado. Ao contrário, adotam uma postura de embate com os poderes constituídos sejam eles governamentais ou privados, por exemplo, quando denunciam a exploração de trabalho análogo ao escravo em fazendas ou quando intervêm em presídios em que os presos são forçados a viverem em condições sub-humanas. Mantêm uma linha de discurso e radicalização da democracia e ampliação do acesso aos direitos.
O papel de destaque das ONGs na luta pelos direitos humanos no Espírito Santo dá pista sobre as suas dinâmicas internas de funcionamento. Talvez haja aí o que Gurza Lavalle, Castelo e Bichir (2006) identificam como diferenciação funcional das organizações dentro da rede, ou seja,
cada tipo de entidade desempenhando um papel diferente para buscarem seus objetivos. Caberá a nós verificar essa hipótese. Além disso, observamos uma diversidade de orientações ideológicas em seu interior o que provoca constantes debates e enquadramentos27 das questões dos direitos humanos.
Assim percebemos a heterogeneidade de entidades que compõem a rede de entidades de diretos humanos estudada neste trabalho, temos o Conselho espaço de articulação, as ONGs mais militantes e aquelas gestoras de políticas públicas, entidades religiosas, operadoras do direito, institutos de pesquisa e órgãos governamentais. Explicar como estas se articulam frente aos desafios surgidos a partir de suas ações é o nosso desafio.
Embora no que diz respeito a alguns indicadores a situação tenha melhorado no Espírito Santo, o Estado ainda apresenta índices assustadores a respeito dos Direitos Humanos, por exemplo, violência contra a mulher e mortes violentas de jovens, cujos índices estão entre os mais altos do Brasil. Para termos uma ideia, de acordo com o Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), o Espírito Santo é o segundo estado da Federação onde os jovens mais correm risco de morrer. Estima-se que serão 6,36 por ano, nas cidades acima de cem mil habitantes, até 2016. Em relação à violência sofrida pelas mulheres, o Mapa da Violência (2012) aponta que 9,4 mulheres para cada cem mil foram assassinadas no Estado. Também, de acordo com o Mapa da Violência, em 2011, o Estado teve uma média de 47,4 homicídios por cem mil habitantes, perdendo apenas para Alagoas, com 72,4.
Esses dados mostram a pertinência das organizações em incorporarem novas questões, propondo outros enquadramentos para as demandas vindas de cotidiano, ao mesmo tempo em que exercem pressão sobre o Estado com vistas à cessação das violações. Evidencia-se, assim o caráter dinâmico da sociedade civil, e a importância em compreendermos os seus processos de transformação.
Porém, um problema social não é naturalmente um problema sociológico, essa metamorfose depende da capacidade do pesquisador em problematizar mediante conceitos e teorias apropriadas a realidade em questão. Para que não haja dúvidas, esclarecemos que não estamos tratando do funcionamento do Conselho, tarefa realizada em outra oportunidade,
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Trata-se do processo de definição daquilo que pode ser ou não considerado como direitos humanos para aquele conjunto de organizações. Vincula-se ao conceito de frames tratado com mais atenção no capítulo seguinte.
tampouco abordaremos a violência no Espírito Santo. Nosso recorte focaliza a rede que é tecida ao redor da defesa dos direitos humanos frente a contextos de desrespeito aos indivíduos.