3 AÇÕES COLETIVAS: UM CONCEITO, VÁRIAS INTERPRETAÇÕES
4.3 OS REPERTÓRIOS DE AÇÃO APRENDIDOS E DESENVOLVIDOS PELAS
4.3.1 Sob o manto da Igreja, ou das formas de se proteger
No princípio, uma das primeiras estratégias adotadas foi a aproximação com a Igreja Católica. Sob a sua proteção, pode-se desenvolver e alcançar os rincões mais excluídos da sociedade, justamente onde se encontravam aqueles pelos quais se lutava. A proteção e o impulso oferecidos pela Igreja no seu princípio foram fundamentais para o sucesso do movimento de direitos humanos. Talvez o maior legado dessa estratégia tenha sido a criação do CDDH-Serra,
165 “Uma vez que a ação coletiva é lançada em parte do sistema, em favor de um tipo de objetivo, e por um grupo
particular, o encontro entre este grupo e seus antagonistas promove modelos de ação coletiva que produz oportunidades para outros” (tradução livre do autor).
bancado pela Arquidiocese de Vitória que, depois de estruturado, afastou-se do mundo eclesiástico e passou a desenvolver seus próprios projetos.
A respeito dessa relação uma das entrevistadas reponde:
Nossa demanda foi aumentando e nós precisávamos de alguém para receber as denúncias e fazer as orientações, nós precisávamos mudar de uma comissão e nos tornarmos uma instituição em 1987 para isso nós nos desvinculamos da Igreja e formamos a associação, sem fins lucrativos e discriminação de qualquer tipo, seja de religião ou partido. Era de direitos humanos para atender todo mundo. A partir daí desenvolvemos alguns projetos para captar recursos e ter uma pessoa liberada, ainda nesse período tinha as Diretas Já, as greves gerais e o centro de defesa era o ponto central de mobilização popular para as greves, servimos de base também para a Estatuinte aqui no Estado, coletamos assinaturas para a Constituição e depois a Estatuinte. O centro de defesa e a Arquidiocese de Vitória serviram de base para todo esse processo (FALQUETO militante histórica e membro do CDDH-Serra).
A Igreja Católica, por meio das suas comunidades de base, das pastorais e, depois, com a própria Arquidiocese de Vitória, forneceu o suporte para que os indivíduos pudessem organizar- se e reivindicar uma vida digna. Esse apoio foi decisivo, pois incubou em seu seio muitos movimentos sociais, entre eles o de direitos humanos que surgia naquele momento. Deu forma a um conjunto de demandas que vinham da vida cotidiana por intermédio de formação política, mostrando que a luta de um era a de todos. Esse processo formativo conferiu estofo aos debates levantados pelos militantes, ou seja, não se tratavam de críticas vazias, mas demandas politicamente construídas.
Essa postura da Igreja não se restringiu ao Espírito Santo. Difundiu-se pelo país inteiro nos idos anos 80. O próprio Movimento Nacional de Direitos Humanos é o seu maior exemplo, nascido a partir da CNBB e daqueles religiosos ligados à Teologia da Libertação. Portanto, buscar amparo nos setores progressistas da igreja não foi algo ao acaso; configurou-se como uma estratégia de ação com vistas ao fortalecimento e à sobrevivência de muitas organizações em um contexto com mais restrições do que oportunidades.
A despeito da participação no CEDH da Pastoral do Menor, da Terra e Carcerária, sem contar a Arquidiocese de Vitória, essa relação não é mais crucial ao movimento de direitos humanos, porque o contexto das lutas transformou-se radicalmente, e o apoio que antes era
imprescindível hoje já não o é mais. Contudo, é inegável a sua forte influência histórica sobre o movimento seja através de suas ideias, seja na trajetória dos militantes.
Essa dinâmica fica evidente nas palavras do entrevistado Isaias Santana, militante histórico ligado à Igreja Católica:
Filiei-me ao sindicato dos trabalhadores da construção civil, anos antes tinha acontecido a conferência de Medellín e a Igreja tinha se voltado aos pobres, lembro que a forma de celebração mudou, então começou a Teologia da Libertação e 10 anos depois teve de novo em Puebla quando se consolidou esse processo. Existia no Brasil e em toda a América Latina um processo revolucionário. Quando eu saí de lá (campo) eu já era liderança nas Comunidades Eclesiais de Base, vim para aqui (Serra), me engajei e continuei militando agora na Pastoral Operária, fazíamos uma reflexão do trabalho a partir da teologia.
Se não tivessem optado pela parceria com instituições maiores e mais estruturadas e se lançado independentemente, talvez a sorte tivesse sido outra, e o movimento de direitos humanos provavelmente teria assumido outras configurações166, haja vista o papel central que o CDDH- Serra ocupou, e ainda ocupa, dentro da dinâmica da sociedade civil capixaba.
Identificamos a tendência de instituições de maior porte, e já estabelecidas, em apoiar a criação e o fortalecimento de novas entidades. Como vimos, trata-se de uma lógica de ação aprendida junto às comunidades de base. Esse fenômeno repetiu-se ao longo das últimas décadas com várias organizações. Inclusive com a migração de militantes de umas para outras, levando consigo seu know-how mobilizatório, pois o acréscimo de uma organização forte ao movimento fortalece-o como um todo também.
Dentro dessa dinâmica de funcionamento, temos o nascimento do CDDH-Sul “Dom Tomás Balduino167”, em 2010, em que algumas de suas lideranças originam-se de outro centro de defesa o CDDH Pedro Reis, da cidade vizinha de Cachoeiro de Itapemirim. Além disso, destaca- se o apoio do CDDH-Serra, do MNDH, CADH e da UFES na sua constituição. Reparamos que essa postura de solidariedade contribui para a amarração dos nós que constituirão a rede de defesa dos direitos humanos. Sendo assim, na passagem de uma organização para outra, muitos laços
166 Por exemplo, outras bandeiras e estratégias de mobilização o que exerceria um impacto significativo no
enquadramento dos direitos humanos do movimento.
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são tecidos fortalecendo o movimento, por exemplo, com a saída de Ademir Torres do CDDH “Pedro Reis” para o “Dom Tomás Balduino”, ele carregou consigo uma série de contatos importantes para o sucesso da nova entidade, como também servirá de ponte pra futuras parcerias com sua antiga organização.
Apesar da extensão, transcreveremos um fragmento da entrevista do militante Ademir Torres, quando conta sobre a sua trajetória. A importância desse texto reside no fato de ser exemplo cabal da dinâmica de funcionamento da sociedade civil capixaba explorada nesta tese.
Em 2000, ajudei a fundar um centro de defesa dos direitos humanos em Cachoeiro do Itapemirim chamado CDDH Pedro Reis. Um militante da cidade assassinado. Nossas primeiras reuniões foram na praça pública junto com os moradores de rua, com os egressos do sistema prisional, nos reuníamos com os drogados e as prostitutas, tudo na Praça de Fátima, em Cachoeiro, e assim o construímos. A partir dessa entidade eu cheguei a ser conselheiro nacional do MNDH, em função dessa militância eu fui protegido pelo PPDDH porque era criminalizado [...]. Eu passei um período em 1998 envolvido com o MST, assim todas as ocupações no Sul do Estado eu participei. Entre 1998 e 2002 também coordenei a Pastoral Carcerária em Cachoeiro, junto com uma equipe de advogados voluntários. Toda semana nós íamos aos presídios, inclusive o bispo da diocese questionou porque a PC estava soltando tantos presos. Não éramos nós, mas o Código Penal, pois as penas deles estavam expirando, era a lei sendo cumprida. Nós arrumamos alguns conflitos com a diocese por causa disso, foi aí que aprendi a militar com os direitos humanos. Em 2010 me desliguei do Pedro Reis, pois não era de Cachoeiro, sou de Atilo Vivacqua, mas antes de me desligar fizemos um curso de formação em direitos humanos durante sete meses aos sábados em 32 municípios do Sul ao Norte do Estado. [...] daí veio a vontade de formar o CDDH Dom Tomás Balduino, pois queríamos homenageá-lo em vida, porque o Carlão já tinha homenageado Dom Pedro Casadaglia168 em Castelo, e a partir daquela equipe do curso junto com o CEDH, com a Marta do MNDH, o CDDH da Serra e o CADH, além da UFES nasce o CDDH Dom Tomas Balduino.
Podemos identificar nesse fragmento a estratégia da formação como ferramenta de difusão dos direitos humanos, na tentativa de alcançar o grande público, em geral distante da temática e, quem sabe, com isso atrair novos militantes. Percebe-se também a tendência do movimento, a partir do final dos anos 90, em se aproximar dos operadores do direito para ganhar maior legitimidade nos confrontos com o Estado, assim como os fenômenos da
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O fato de vários centros de defesa dos direitos humanos serem nomeados em homenagem a bispos indica a forte relação da Igreja Católica e o movimento.
institucionalização e das parcerias com os governos na gestão de projetos. Por fim, cabe destacar a múltipla militância, ou seja, um militante dos direitos humanos raramente atua apenas em uma organização o que favorece a formação e a densidade das redes.
A participação de militantes históricos é identificada também na criação do Coletivo Fazendo Direito, dentre os quais é destacada a participação de Marta Falqueto, Gilmar Ferreira, Isaias Santana, Isabel Aparecida e Pe. Xavier. Esses contribuem não apenas mediante a experiência que agregam ao mostrarem as melhores maneiras de desenvolver ações ou indicar os atalhos nos enfrentamentos com o Executivo, mas também por conferirem legitimidade à novata que passa a ser também reconhecida e respeitada entre seus pares. Em outras palavras, o apoio deles diferencia-a daquelas criadas com o intuito de captar recursos para o proveito político de um grupo.
Isto pesa sensivelmente na tentativa de ingresso no CEDH:
De fato precisa querer muito dar essa contribuição. O MNDH coordena esse processo da melhor forma possível. Com o destaque que tivemos nos últimos tempos, houve a aproximação de outros segmentos que não vinham para fazer a luta que o conselho faz, mas para conseguir destaque e outras coisas do tipo. Temos a preocupação do conselho não ser minados como outros conselhos por aí nos quais há a participação para ter informações privilegiadas ou captar recursos. Identificamos essas organizações que não têm o perfil da combatividade que gostamos de ter aqui e não deixamos entrar (LULA, militante do FEJUNES).
Esta fala é corroborada com a do militante Gilvan Vitorino (militante do Coletivo Fazendo Direito), pois:
[…] o mandato aqui é de dois anos, esse é o último ano desse mandato daqui a pouco sairá um edital estabelecendo uma agenda do processo eleitoral. As entidades vão se inscrever, terão que provar que são constituídas e militam na defesa dos direitos humanos, então estarão aptas a participar da assembleia que elegera seis. Como eu te falei, existe uma rede de entidades cada uma tem suas colegas de confiança, isto é normal, não é qualquer entidade que diz que defende os direitos humanos que terá acento no CEDH isto aqui é algo muito importante para errarmos. Não podemos colocar alguém que não seja aliado nessa luta.
Existe uma dinâmica própria ao movimento de direitos humanos que o blinda para aventureiros que, pelas mais diferentes razões, tenham interesse em inserir-se nesse campo. Isso pode ser percebido na lógica de reprodução organizacional, quando, em geral, entidades mais reconhecidas incubam e apoiam as neófitas, introduzindo-as nos espaços de discussão, vide o CEDH. Assim, garantem maior controle sobre as bandeiras e os rumos do movimento. Em outras palavras, definem o que é e o que não é relevante para os direitos humanos. Assim, é possível afirmar que há um aprendizado dentro da rede promovido pelas entidades mais experientes e que, de certa forma, garante certa homogeneidade no discurso do movimento.
Se anteriormente a Igreja executava esse trabalho de formação e mobilização dos grupos sociais, hoje tal tarefa recai sobre os ombros das organizações mais antigas. Essa passagem trouxe mudança sensível no interior do movimento, pois a Igreja preservava um senso de hierarquia dentro das instituições, diferente das laicas que favorecem a horizontalidade das decisões.