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Consequências para a Área de Conhecimento

No documento PORTCOM (páginas 144-149)

Que conclusões devemos tirar da análise dessas conversões para a área de conhecimento? Se os procedimentos de redução são intrínsecos ao trabalho científico, nem por isso devemos aceitar sua naturalização. Ora, como devemos entender, então, esse hiato que se abre entre o uso legítimo e delicado de um expediente epistemológico e, de outra parte, o fato que as operações de conversão não recebam tratamento a altura de sua importância? A identificação dos processos comunicacionais a outras instâncias se reflete na indefinição das pesquisas dos comunicólogos em relação a outras áreas de conhecimento. Isso tem fornecido um ilusório respaldo metodológico, mesmo ao preço de que o resultado final seja a redução do comunicacional. Tal concepção da área tem sido alvo fácil para as críticas céticas no tocante à autonomia do saber comunicacional (Martino, 2003).

De outra parte, e igualmente muito expressiva, é a posição daqueles que leem essa identificação no sentido inverso, como se os processos de comunicação fossem o fundamento dos processos psicológicos, compor- tamento etc. Como se todo o universo das ações humanas pudesse ser reduzido à comunicação.

Para a primeira, a comunicação é efeito de outros níveis, por isso, deve ser necessariamente reduzida. O processo de comunicação é apenas um “dado empírico”, um fenômeno a ser explicado (explicans), nunca aparece como explicadum (termo que explica). Na falta dessa perspectiva epistemoló- gica, os processos comunicacionais passam a ser explicados pela psicologia, pela sociologia etc. Não seria possível, portanto, constituir uma disciplina científica. De outra parte, aqueles que tomam a comunicação como fundamento universal dos fenômenos humanos (por exemplo, Anderson, 1987; Boug- noux, 1999; Martin Serrano, 1982), adotam uma posição filosófica que estende o campo da comunicação ao conjunto das ciências do homem. Eles visam marcar um tipo de supremacia: “Se as ciências naturais são todas físicas, então, as ciências sociais são todas comunicação” (Anderson, 1987, p.48).

Em nenhum dos casos a comunicação é vista como disciplina cienti- fica: ela é menos ou é mais. Tal convergência deve ser levada em conside- ração para nossa reflexão sobre o dado empírico, porque essas posições, evidentemente, esvaziam a questão de pesquisas empíricas em comunicação. Temos aí as condições para que grande parte das pesquisas de nossa área apareça sob o dilema: ou são empíricas, porque na verdade são pesquisas de outras disciplinas (o processo de comunicação é o empírico, mas não é o elemento teórico); ou são de comunicação, mas já não seria mais válido falar de “dado empírico”, porque a comunicação é fundamento último de todos os fenômenos humanos, ela deixa de ser um processo empí- rico. De qualquer forma, o processo de comunicação não desempenha nenhuma função na explicação do fenômeno, ele é a essência por detrás dos fenômenos ou coincide com a própria manifestação genérica destes. Estaríamos, então, no registro da filosofia.

Essas compreensões do dado empírico expressam o curioso movi- mento que faz oscilar o status do saber comunicacional, que vai da sim- ples inexistência ao imperialismo absoluto. Mas, deixam sem sentido a questão de dados empíricos, pois não sendo pertinentes em ciência, pri- vam o saber comunicacional de uma base empírica. A morte da teoria é um convite ao empiricismo (empirismo ingênuo) ou ao abandono da ciência.

Também é preciso ter em conta o quadro que normalmente se dá essa discussão. O embotamento da reflexão epistemológica faz com que boa parte do capital de inteligência epistemológica de nossa área se dedique a mobilizar a filosofia para opô-la à ciência. O que certamente não reflete o pensamento dos filósofos da ciência, visto que está longe de ser a melhor maneira de articular ciência e filosofia.

Por fim, também devemos colocar a pergunta: se a questão empírica é fundamental e incontornável para o pensamento científico, por que ela precisa ser lembrada, hoje, como um ponto de discussão para nós? Qual o sentido de se colocar essa questão?

Na história da formação de nossa área de estudos, no Brasil, décadas se passaram sem que a pesquisa empírica não fosse associada ao positivismo

e este, por sua vez, empregado como um termo desqualificante. Muitos pes- quisadores tomaram o combate ideológico como finalidade da pesquisa. Qualquer tentativa de discutir realidades empíricas sem o crivo de uma interpretação política foi, sistematicamente, vigiada e combatida (Ber- ger, 1999), pois se acreditava que representavam um descompromisso com o social e, consequentemente, eram a expressão de uma ideologia “dominante”. Para toda uma época, o próprio sentido de “fazer pesquisa” sofreu severas restrições. Mesmo do lado daqueles que investiam na pesquisa empírica, pois entendiam que isso deveria se dar como uma preocupação com o método ou sob a forma de um fortalecimento da teoria, a partir da importação de outras disciplinas.

Em nossa opinião, vemos como muito bem-vinda a questão sobre a pesquisa empírica em comunicação. Como poucas, ela coloca diretamen- te o problema de um posicionamento em relação à ciência e, por con- seguinte, a questão da autonomia do saber comunicacional. Ela aparece como um fortalecimento necessário frente a uma crescente dispersão e desintegração de nossa área de conhecimento.

Referências

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1.6 Em busca das relações contratuais:

Propostas de pesquisa empírica no

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