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no Contexto das Correntes Teóricas em Comunicação.

No documento PORTCOM (páginas 123-127)

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Falar de pesquisa empírica é tentar dizer por que a ciência não é a filo-

sofia, é entrar no âmago da questão do conhecimento e apontar o modo

particular que cada uma delas estabelece sua relação com o real. Tudo o que pode ser dito sobre a pesquisa empírica remete a esse problema.

Se o objetivo deste texto não é uma resposta direta a essa questão fundamental – que, em última instância, enquadra e dá sentido a sua discussão –, nem por isso a perderemos de vista. Nosso propósito, aqui, será examinar a compreensão do problema do empírico no pensamento comunicacional. Dando continuidade a uma reflexão iniciada em uma publicação anterior (MARTINO, 2010a), visaremos à análise das dife- rentes concepções que as correntes de pesquisa em comunicação têm da natureza do fenômeno que tomam como objeto de estudo, sob o ângulo de sua relação com a realidade.

Uma boa maneira de introduzir o assunto é tentar entender a neces- sidade de fazer pesquisas empíricas. Por que ou em que condições elas se tornam necessárias? Ilustremos nossa resposta com o exemplo a seguir.

Investigando a questão das doenças mentais, Hollinsgshead e Redli- ch perguntam se haveria alguma relação entre a incidência de esquizo- frenia e classes sociais. A princípio, um exame do conceito dessa doença não revelava nenhuma ligação aparente com a divisão social em classes. Aparentemente, nada nos sintomas ou na gênese da doença indicava al- guma relação com mecanismos sociais. A análise lógica não conseguia estabelecer nenhum vínculo necessário entre elas e, portanto, não pôde dar resposta ao problema colocado. No entanto, uma vez realizada a in- vestigação empírica, foi encontrada uma correlação: quanto mais baixa era a classe social, maior era a incidência da esquizofrenia. Havia um nexo empírico, até ali ignorado, que não estava expresso nas teorias da esquizofrenia (citado por Brown, 1972, p. 240)

O exemplo nos mostra, claramente, que a teoria cumpriu seu papel de estruturar e indicar o tipo de dado que a pesquisa empírica deveria gerar. Esta, por sua vez, trouxe novos elementos à reflexão, novas conjec- turas, que provocaram uma modificação ou enriquecimento do conceito de esquizofrenia, sugerindo que este deve comportar um componente social. Essa relação de complementação e regulação entre teoria e dados empíricos permite identificar uma pesquisa empírica2. Notemos que a relação entre os dois fenômenos não poderia ser estabelecida de antemão, pela simples análise lógico-conceitual. Foi preciso fazer uma “consulta” à realidade empírica (evidentemente, estruturada pela teoria) para que a reflexão avançasse, inclusive com novos problemas. É isso que justifica a pesquisa empírica: o dado empírico é relativo a um problema, e a teoria é regulada (limitada e desafiada) pela realidade empírica.

2. Para a definição e discussão da tipologia de pesquisa empírica, ver Martino 2010a.

No domínio da comunicação, um investigador interessado, por exem- plo, na relação da Internet com a democracia poderia ser levado a ter boas razões para acreditar que o potencial de livre expressão desse meio traz um aporte à democracia. No entanto, a análise de uma determinada situação pode lhe trazer informações que contradizem suas expectati- vas, estimulando-o a encontrar explicações que possam compatibilizar os achados empíricos com sua teoria a respeito desse meio. Por exemplo, a vigilância dos servidores de acesso à rede permite incrementar a per- seguição a indivíduos julgados subversivos; além disso, a capacidade de expressão pode ter outros destinos (diversão, pornografia, arte, esporte...) e não necessariamente ser empregada para fins políticos ou de cidadania; ou ainda, pode haver um movimento de contrainformação, colocando em dúvida o teor das informações divulgadas ou a veracidade de certas intervenções nos debates virtuais.

Essas possibilidades de obstrução do processo democrático pode- riam ser levantadas no plano teórico, revelando uma ambiguidade na conceitualização da Internet, mas somente em um contexto empírico é que teríamos condições de saber se essa ambiguidade será mantida ou se alguma tendência irá sobressair, marcando o sentido do meio para aquele contexto (que pode ser uma situação ou uma época). Em suma, como no exemplo anterior, o avanço da teoria depende de sua confrontação com a realidade empírica, ao mesmo tempo em que esta não aparece de forma independente, mas a partir das inquietações provocadas pela teoria.

Pelo exposto, seria de se esperar que a designação “pesquisa empí- rica” refletisse um importante ramo da pesquisa em comunicação. Mas, não é assim, ao contrário, ela é raramente empregada. As classificações normalmente seguem outros princípios3, mesmo porque pesquisa empírica

3. As classificações da pesquisa de nossa área tomam como critério: as correntes teóricas, a metodologia no aspecto do desenho da pesquisa (experimental ou de campo), a metodologia no tocante ao tipo de dado (quantitativa ou qualitativa),

e pesquisa teórica são complementares. Em ciência, o termo pesquisa ex- pressa o processo de aquisição de conhecimento, o qual envolve várias ações (organizar, sistematizar, criticar...); mas, particularmente, implica o empreendimento de confrontar e testar esses conhecimentos frente à rea- lidade. Claro que todas essas ações formam um conjunto e não atividades isoladas. Se o trabalho científico pode dar alguma ênfase ao elemento empírico ou ao elemento teórico, sem perder sua unidade, é porque se trata apenas de divisões do trabalho coletivo da ciência. Pesquisas teóri- cas ou empíricas apenas indicam momentos ou estágios para uma síntese necessária, pois não têm significação independente e pouco adiantaria pretender insistir em qualquer oposição entre elas.

Contudo, se o elemento empírico se encontra por toda parte, sua compreensão não é a mesma e as grandes correntes do pensamento co- municacional refletem diferentes posicionamentos epistemológicos a esse respeito.

A identificação das grandes correntes de pesquisa em comunicação é, por si só, um tema controverso (mais do que normalmente se julga) e seu mapeamento foge do escopo do presente trabalho. Em vista de nossos propósitos, nos contentaremos em analisar algumas das mais representa- tivas, tomando como referência a classificação proposta por um especia- lista do assunto, Oliver Boyd-Barret (2009) que afirma que,

[...]a grosso modo, a corrente complexidade do campo pode ser acomodada no interior de três dos mais significativos movimentos dos estudos dos meios: estudos dos efeitos, eco- nomia política e estudos culturais (p.23).

os diferentes tipos de objetivo (administrativa ou crítica), o segmento do proces- so de comunicação (emissor, recepção, conteúdo), o fator histórico-geográfico (communciation research, estudos culturais latino-americanos) ou o assunto (film studies, TV).

Representação do campo que apenas desdobra a clássica oposição, sugerida por Lazarsfeld, entre pesquisa administrativa e pesquisa crítica, normalmente evocada para opor uma corrente empírica a uma corrente marxista. Um debate que tem sido obstinadamente retomado em nossa área de estudo. Na síntese que faz dos principais impasses aí gerados, Sheryl Hamilton (2006, p. 14)aponta três discussões. a) A reivindicação de “superioridade moral” de ambos os lados – os defensores de um viés crítico evocam a importância de suas pesquisas; os que defendem um viés administrativo, de outra parte, asseguram que seus trabalhos esta- riam fundados em um conhecimento científico puro, sem ideologia. b) Uma querela sobre o empirismo tendo por base a falta de distinção entre empirismo e positivismo. c) E, em razão desta última, uma discussão mal colocada em torno da metodologia, inclusive opondo esta à teoria. A autora conclui que o debate não é propriamente metodológico – am- bos os lados podem se servir dos mesmos métodos –, mas é de ordem

ontológica e epistemológica (“em que consiste o mundo e como podemos

conhecê-lo?”).

Em nossa visão, esses três pontos estão entrelaçados e remetem a um movimento comum, no qual, a seguir, tentaremos explicitar na sequên- cia desta apresentação. 1) Primeiramente, fazendo uma breve exposição sobre os modos de abordagem e constituição do observável nas grandes correntes de pesquisa: o que constitui o dado empírico para elas? 2) Num segundo momento, examinaremos o fundamento da materialização do processo de comunicação, faremos a análise das reduções do processo comunicacional. 3) Para, finalmente, discutir suas implicações para nossa área de conhecimento.

No documento PORTCOM (páginas 123-127)