Por todas essas questões, no campo da comunicação social, é extre- mamente difícil aceitarmos a pesquisa empírica de bom grado. De um lado, pelo motivo, já antes exposto, segundo o qual a pesquisa empírica parece ser hierarquicamente inferior enquanto prática acadêmica. Essa questão se torna mais sensível ainda porque, por ser a comunicação social parte das ciências sociais humanas, na maioria das vezes, as evidências alcançadas, na pesquisa empírica, não são necessariamente conclusivas11: elas se aplicam àquele caso, não necessariamente a outro. O processo comunicacional é complexo, porque nele interferem múltiplos agentes e movimentos sociais que o tornam sempre novo e, por isso mesmo, inte- ressante. Mas, ao mesmo tempo, deixa o pesquisador inseguro. Tem sido
10. Marialva Barbosa faz uma abordagem bastante interessante sobre esta pers- pectiva, em artigo presente neste mesmo volume. Ver BARBOSA, Marialva Carlos. “A pesquisa em Comunicação no Brasil: não precisamos ter mais medo do contágio”, conferência realizada na abertura do INTERCOM SUL 2011, na Universidade Estadual de Londrina, a 26 de maio de 2011, e que se encontra também neste volume.
11. MARTINO, Luiz Cláudio. “Panorama da pesquisa empírica em comunica- ção” in BRAGA, José Luiz; LOPES, Maria Immacolata Vassalo de; MARTI- NO, Luiz Cláudio (Orgs.). Idem, ibidem, p. 151.
assim, desde os anos 1930, com as chamadas pesquisas experimentais de laboratório, e não tem deixado de sê-lo, mesmo com as mais cuida- das pesquisas de campo. Os contextos se modificam; os próprios sujeitos podem mudar suas práticas. Aprender sobre uma situação não implica necessariamente poder generalizá-la de imediato, a não ser com muito cuidado. E, no entanto, há, sim, alguns princípios e algumas práticas co- municacionais que são verdadeiramente universais.
Mas, quero me referir, sobretudo, a uma outra perspectiva e, com ela, retomar a abertura desta reflexão. Vivemos numa sociedade de classes, extremamente hierarquizada e preconceituosa, com uma forte herança escravagista, mesmo que disso nem sempre nos demos conta. Por conse- quência, apostamos mais no ensinar do que no aprender. Ou seja, estamos mais preocupados em transmitir conhecimento do que levar o aluno a
descobrir por ele mesmo sobre determinada realidade. Preferimos repro-
duzir que criar. Ora, acredito que um bom caminho para defendermos e realizarmos, convictamente, a pesquisa empírica é nos lembrarmos da lição de Paulo Freire. De modo geral, o que encontramos na situação ‘pesquisador-pesquisa-pesquisado’ é, também, um posicionamento auto- ritário e hierarquizado. Raramente, o pesquisador se dispõe, de fato, a
ouvir ou ver a coisa – o sujeito – pesquisado.
Alerta-nos, contudo, Paulo Meksenas:
Abordar a contribuição da teoria de Paulo Freire na questão das metodologias da pesquisa empírica implica refletir acerca da relação que se estabelece entre o sujeito e o objeto de pesquisa, superando a noção comum do sujeito-que-pesquisa atuando sobre os sujeitos-que-são-pesquisados, de modo unilateral e vertical12.
12. MEKSENAS, Paulo. “Aspectos metodológicos da pesquisa empíri- ca: A contribuição de Paulo Freire” in http://www.espacoacademico.com. br/078/78meksenas.htm, acessado em 25.06.2011.
No sentido de que a pesquisa deve ser compreendida enquanto uma
ação pedagógica, de aprendizado, significa necessariamente que o pesqui-
sador deve se colocar ao lado da coisa/do sujeito pesquisado, não acima ou distante dele. Precisa-se aderir – sem perder o sentido crítico – àque- la realidade que se estuda e com ela estabelecer um verdadeiro diálogo, sem o qual nenhuma metodologia, por mais bem desenvolvida que seja, ajudará a chegarmos à compreensão da realidade em si mesma. Porque a pesquisa é um ato de conhecimento13, não apenas da realidade externa ao
pesquisador, quanto dele próprio: à medida que descubro e conheço o
outro, ele deixa de ser outro e se torna um eu mesmo, do mesmo modo que
este eu mesmo me transforma, igualmente, em um eu mesmo como o outro. Se tivermos clareza sobre tal perspectiva, isso será sempre o melhor argumento que poderemos invocar em defesa da pesquisa empírica. É a pesquisa empírica que nos exige sairmos de nosso próprio mundo, nos disponibilizarmos a dialogar com o mundo lá de fora, buscando vislum- brá-lo e entendê-lo. Sobretudo, nos ensina que pesquisar deve ser uma atividade profundamente humilde: é o ato de comunicação por excelên- cia. Não somos nós quem falamos, é o outro – são os outros – a quem de- vemos ouvir. Vale recordar a advertência de Guillermo Orozco Gómez:
La investigación empírica en comunicación no puede enten- derse solamente como una buena Idea, o una opción más entre muchas otras de generar conocimiento válido, o como una mera posición epistemológica em abstracto. Ante la vastedad de lo que requiere ser comprendido y transformado
13. FREIRE, Paulo. “Criando métodos de pesquisa alternativa”, in BRANDÃO, C. R. (Org.). Pesquisa participante, São Paulo, Brasiliense. 1983, p. 36, apud MEK- SENAS, Paulo. “Aspectos metodológicos da pesquisa empírica: A contribuição de Paulo Freire” in http://www.espacoacademico.com.br/078/78meksenas.htm, acessado em 25.06.2011.
em comunicación, y frente al desafio de un empoderamien- to comunicacional de los sujetos sociales, la investigación empírica es también una estratégia pedagógica en si de en- volucramiento y fortalecimiento de sus participantes en la compreensión y eventual transformación14.
Isso significa, também e, sobretudo, um posicionamento político e ideológico frente ao que signifique pesquisar. Optar pela pesquisa empí- rica, neste caso, obriga-nos a sair da tranquilidade da cátedra ou de nossa casa. Dispormo-nos a ir a campo, ver e ouvir os outros. Mas, sobretudo, reconhecermos que não sabemos tudo, e que, a partir de cada uma dessas pesquisas, temos a oportunidade de nos renovar, de nos transformar, de virmos a ser novos. Quebramos, nesse sentido, a hierarquia do conheci- mento. E nos predispomos a pesquisar o que seja socialmente relevante, repartindo, com essa mesma sociedade, aquilo que eventualmente desco- brimos e aprendemos, porque aprendemos com ela, e não apesar ou fora dela. Aprendemos com os demais, e com eles devemos repartir o que eventualmente aprendermos.
Referências
BARBOSA, Marialva.“A pesquisa em comunicação no Brasil: Não pre- cisamos ter mais medo do contágio”, conferência de abertura do IN- TERCM SUL de 2011, na Universidade Estadual de Londrina.
14. GÓMEZ, Guillermo Orozco. “Hacia una convergencia critica y múltiple entre lógicas, prácticas y agendas de investigación empírica em comunicación” in BRAGA, José Luiz; LOPES, Maria Immacolata Vassalo de; MARTINO, Luiz Cláudio (Orgs.). Op. cit., p. 22.
BRAGA, José Luiz. Pesquisa empírica em comunicação. Livro Com- pós 2010. São Paulo, Paulus. 2010.
CUNHA, Isabel Ferin. “Repensar a investigação empírica sobre os Me- dia e o Jornalismo”, in http://www.bocc.ubi.pt/pag/cunha-isabel-ferin- -metodologias.html
GÓMEZ, Guillermo Orozco. “Hacia una convergência crítica y múlti- ple entre lógicas, prácticas y agendas de investigación empírica en comu- nicación” in BRAGA, José Luiz. Pesquisa empírica em comunicação. Livro Compós 2010. São Paulo, Paulus. 2010.
LOPES, Maria Immacolata Vassallo de. “Reflexividade e relacionsimo como questões epistemológicas na pesquisa empírica em comunicação” in BRAGA, José Luiz – Pesquisa empírica em comunicação. Livro Compós 2010. São Paulo, Paulus. 2010.
MARTINO, Luiz Cláudio. “Panorama da pesquisa empírica em comu- nicação”, in BRAGA, José Luiz. Pesquisa empírica em comunicação. Livro Compós 2010. São Paulo, Paulus. 2010.
MEKSENAS, Paulo . “Aspectos metodológicos da pesquisa empírica: A contribuição de Paulo Freire” in http://www.espacoacademico.com. br/078/78meksenas.htm