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CONSIDERAÇÕES ACERCA DOS DANOS PROVOCADOS POR ANIMAIS

4 RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO FRENTE AOS DANOS CAUSADOS

4.2 CONSIDERAÇÕES ACERCA DOS DANOS PROVOCADOS POR ANIMAIS

Esclarecido o significado do termo “animais errantes”, bem como o motivo pelo qual o mesmo foi escolhido para ser utilizado neste trabalho, pretende-se estudar os danos causados por estes animais.

Os animais que vivem nas ruas encontram-se desprotegidos e descuidados, e por essa razão, são os mais vulneráveis a portar ou transmitir zoonoses – as doenças dos animais. Muitas dessas doenças podem ser transmitidas aos seres humanos e até mesmo a outros animais, podendo, desse modo, causar danos de natureza patrimonial ou extrapatrimonial para os indivíduos.

Quanto aos danos de natureza patrimonial decorrentes da transmissão de doenças por animais errantes, podem-se citar os gastos com tratamento médico, internações hospitalares e intervenções cirúrgicas, além dos lucros cessantes devidos à incapacidade temporária para o trabalho por conta do tratamento da doença, por exemplo.

Os danos extrapatrimoniais, por seu turno, são exemplificados em razão de eventual dano estético, falecimento do indivíduo em decorrência da doença ou até mesmo morte de animal de estimação da família, por conta da transmissão da doença.

Apesar de não ter sidos localizados posicionamentos jurisprudenciais a respeito da responsabilidade civil do Estado frente aos danos causados por transmissão e zoonoses, o Superior Tribunal de Justiça já se posicionou no sentido da periculosidade da transmissão dessas doenças:

ADMINISTRATIVO E AMBIENTAL – CENTRO DE CONTROLE DE ZOONOSE – SACRIFÍCIO DE CÃES E GATOS VADIOS APREENDIDOS PELOS AGENTES DE ADMINISTRAÇÃO – POSSIBILIDADE QUANDO

INDISPENSÁVEL À PROTEÇÃO DA SAÚDE HUMANA – VEDADA A UTILIZAÇÃO DE MEIOS CRUÉIS. 1. O pedido deve ser interpretado em consonância com a pretensão deduzida na exordial como um todo, sendo certo que o acolhimento do pedido extraído da interpretação lógico-sistemática da peça inicial não implica em julgamento extra petita. 2. A decisão nos embargos infringentes não impôs um gravame maior ao recorrente, mas apenas esclareceu e exemplificou métodos pelos quais a obrigação poderia ser cumprida, motivo pelo qual, não houve violação do princípio da vedação da reformatio in pejus. 3. A meta principal e prioritária dos centros de controles de zoonose é erradicar as doenças que podem ser transmitidas de animais a seres humanos, tais quais a raiva e a leishmaniose. Por esse motivo, medidas de controle da reprodução dos animais, seja por meio da injeção de hormônios ou de esterilização, devem ser prioritárias, até porque, nos termos do 8º Informe Técnico da Organização Mundial de Saúde, são mais eficazes no domínio de zoonoses.[...] (BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial 1.115.916). Grifou-se.

Percebe-se que, no caso acima, não há discussões acerca da responsabilização do Estado, eis que não se discute qualquer dano causado a um particular. Todavia, o julgado demonstra que as zoonoses devem ser combatidas por causarem riscos a animais e seres humanos. Assim, evidencia-se que, caso algum destes danos venha a ocorrer ao administrado, o Estado deve indenizá-lo.

Por isso, a transmissão de zoonoses é considerada um dano em potencial, uma vez que pode atingir outros animais, bem como seres humanos.

Além da transmissão de zoonoses, os animais errantes também causam danos por atacarem cidadãos ou outros animais, que possuem donos ou não. A respeito desses danos, foram encontrados poucos julgados. A seguir, seguem elencados os principais pontos de uma das ementas: “ADMINISTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. ATAQUE DE ANIMAL ABANDONADO. LEGITIMIDADE PASSIVA DO MUNICÍPIO. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535 DO CPC. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. SÚMULA 284/STF. [...]” (BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial 1.151.428, 2011).

O Recurso Especial acima não foi conhecido, motivo pelo qual o Superior Tribunal de Justiça sequer chegou a analisar a questão da responsabilidade civil do Município. Assim, considerando que a responsabilidade civil do Estado frente aos danos causados por animais errantes será estudada oportunamente, o julgado acima serve para exemplificar que os danos oriundos de ataque de animais errantes podem ensejar a responsabilidade do Estado.

Além disso, colhe-se da jurisprudência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

RECURSO INOMINADO. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. ATAQUE DE CACHORROS SUPOSTAMENTE FUGIDOS DO CANIL MUNICIPAL. QUEDA DE MOTOCICLETA QUE RESULTOU EM ESCORIAÇÕES E AVARIAS EM BEM MÓVEL. PRETENSÃO

DE RESPONSABILIZAÇÃO DO ENTE MUNICIPAL. INEXISTÊNCIA DE PROVAS QUE DEMONSTREM QUE OS ANIMAIS ERAM EVADIDOS DO ESTABELECIMENTO MUNICIPAL. NÃO DEMONSTRADO O NEXO

CAUSAL. PRESSUPOSTO DA RESPONSABILIDADE CIVIL NÃO

DEMONSTRADO, AFASTANDO A PRETENSÃO INDENIZATÓRIA. [...] (RIO GRANDE DO SUL, Tribunal de Justiça. Recurso Cível 71004702676, 2014)

Nesse caso, o ataque dos animais também não acarretou o dever de indenizar do Estado, tendo em vista que se entendeu estarem ausentes os requisitos da responsabilização do Município.

Contudo, o que se pretende analisar nesse momento não é a questão da responsabilização dos Municípios mencionados nas ementas acima, mas sim, verificar que o ataque de animal abandonado já foi analisado sob a égide da responsabilidade civil do Estado e, portanto, também está elencado entre os danos causados por animais errantes.

Além dos danos causados por ataque de animais errantes e transmissão de zoonoses, há também as lesões decorrentes de acidentes de veículo, envolvendo os referidos animais.

É possível afirmar que pouco se discute sobre a responsabilidade do Estado frente aos danos causados por animais errantes na jurisprudência. Todavia, dentre os escassos posicionamentos dos Tribunais, afere-se que a maioria das discussões são relativas aos acidentes de trânsito.

Esses acidentes podem ocorrer devido ao atropelamento de animais, colisões entre veículos por conta da existência dos referidos animais na pista, ou até mesmo colisões de veículos em postes, muros e árvores, na tentativa de não atingi-los.

Seguem abaixo alguns julgados que trazem discussões acerca dos danos causados por animais errantes, em acidentes de trânsito:

APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL EM ACIDENTE DE TRÂNSITO. ATROPELAMENTO DE CAVALO POR VEÍCULO NA VIA PÚBLICA. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO PÚBLICO PELO MUNICÍPIO QUE NÃO FOI A CAUSA EFICIENTE PARA O EVENTO DANOSO. Responsabilidade subjetiva do Município. Mesmo presente que, por disposição constitucional, também é dever da municipalidade zelar por animais soltos ou abandonados na via pública, a responsabilidade daí resultante não é tão ampla a ponto de imputar-se, ao Ente Público, o dever de indenizar acidentes como o em tela, em que o cavalo surgiu, de surpresa, na via pública, proveniente de uma vila próxima. A causa efetiva do acidente, em verdade, foi a negligência do dono ou detentor do animal (art. 935 do CC). APELO DESPROVIDO. (RIO GRANDE DO SUL, Tribunal de Justiça. Apelação Cível7005623867, 2013). Grifou-se.

Apesar de saber que a questão da modalidade de responsabilização (objetiva e subjetiva) será observada depois, é importante comentar que, no caso acima, o Município não

foi responsabilizado pelos danos causados pelo animal errante. De acordo com o voto do relator, a responsabilidade do Município, neste caso, seria subjetiva. Todavia, não foram demonstrados os requisitos suficientes para a responsabilização estatal, uma vez que o Estado não poderia ser responsabilizado pelo surgimento do animal, de repente, na via pública.

Em contrapartida, analisa-se o julgado abaixo:

ACIDENTE DE TRÂNSITO - Sinistro envolvendo animal abandonado em pista de rolamento - Responsabilidade objetiva da Municipalidade reconhecida, decorrente da doutrina do risco administrativo - Inteligência do art. 37, § 6º, da Constituição Federal - Inexistência de prova de culpa da vítima - Recurso parcialmente provido. (SÃO PAULO, Tribunal de Justiça, Apelação Cível 1108572005, 2012). Grifou-se.

Ao contrário da jurisprudência anterior, que não acolheu a responsabilização do Município, o Tribunal de Justiça de São Paulo responsabilizou o Município por dano decorrente de acidente de trânsito provocado por animal errante. A referida responsabilização se deu de maneira objetiva, utilizando como fundamento o artigo 37, § 6º, da Constituição Federal (BRASIL, 1988).

Acerca do tema, verifica-se o entendimento do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL EM ACIDENTE DE TRÂNSITO. AÇÃO ORDINÁRIA. ANIMAL NO LEITO DA PISTA. ABALROAMENTO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. DANOS MORAIS. 1. Tratando-se de responsabilidade objetiva da concessionária de serviço público e tendo ficado evidenciada a existência de nexo causal entre a conduta da demandada e os danos suportados pela demandante, estão configurados os pressupostos necessários do dever de indenizar, nos termos do artigo 37, § 6º, da Constituição Federal. Caso em que restou a autora lesionada em razão de abalroamento de capivara que se encontrava sobre o leito da pista, desgovernando seu veículo e colidindo com caminhão que trafegava em sentido contrário. 2. Em relação aos danos materiais, o valor da indenização deve considerar a avaliação do bem segundo a Tabela FIPE. Precedentes desta Corte. 3. A reparação de danos morais deve proporcionar justa satisfação à vítima e, em contrapartida, impor ao infrator impacto financeiro, a fim de dissuadi-lo da prática de novo ilícito, porém de modo que não signifique enriquecimento sem causa do ofendido. No caso concreto, a verba indenizatória vai mantida no montante fixado na origem. APELAÇÃO DESPROVIDA. (RIO GRANDE DO SUL, Tribunal de Justiça. Apelação Cível n. 70063371256, 2015). Grifou-se.

Na jurisprudência acima, assim como a anteriormente elencada, o Estado foi responsabilizado pelos danos causados devido a acidente envolvendo animais errantes. A situação envolvia concessionária responsável por rodovia pública e, conforme já estudado, se

trata de um tipo de pessoa jurídica responsável por eventuais danos causados por animais errantes.

Assim, os acidentes de trânsito são os mais discutidos nos tribunais, no que diz respeito aos danos provocados por animais errantes. Ressalta-se que as questões relativas ao ente legítimo para ser responsabilizado, bem como as teorias acerca da responsabilização do Estado nessas situações, serão analisados em tempo apropriado.

Portanto, explorados os principais danos causados por animais errantes, se estudará a seguir o ente federativo que deve ser responsabilizado quando da ocorrência dos aludidos danos.

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