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Considerações e conclusões acerca da feminilidade

No documento Feminilidade e depressão pós-parto (páginas 129-133)

CAPÍTULO 2 FEMINILIDADE: FILHA, MULHER E/OU MÃE

2.7 Considerações e conclusões acerca da feminilidade

Se os pais realmente conseguiram se encontrar a sós, é porque conduziram seus filhos a seguirem suas vidas. Portanto, uma filha que conseguiu substituir o amor incondicional da mãe pelo amor de um companheiro conseguirá ser esposa e mãe sem sentir-se culpada por achar que está traindo a mãe. Entretanto, se não há o corte nessa díade mãe-filha, que é proporcionado pelo terceiro elemento, pela metáfora paterna, a fantasia do gozo feminino poderá emperrar todo esse processo de separação e construção da feminilidade. A metáfora paterna proporciona a separação entre mãe e filha, mas não o faz efetivamente, deixa um resto na sua estrutura, que se localiza no não-toda, na parte não simbolizável. Vimos que o poder de dominação de uma mãe poderá impor à sua filha obstáculos penosos ao destino afetivo e de sua feminilidade e até mesmo de uma possível maternidade.

Não há o significante da feminilidade que nomearia um sujeito feminino como mulher, tampouco a feminilidade é possível de ser transmitida pela mãe à filha, porque esta não encontra as insígnias na mãe. O espelho é inacabado, a imagem refletida é não- toda, resta uma parte não simbolizada. Como vimos, trata-se de história de mulheres, história de subjetivação da filha na relação com sua mãe, pois decerto é a mãe que facilitará ou dificultará ou ainda impossibilitará para a filha esse “tornar-se” mulher. Há uma transgeracionalidade psíquica de repetição, que começa na fase pré-edipiana culminando na saída edípica com a castração, permitindo via sublimações as substituições e as trocas necessárias à conquista de sua feminilidade e também da maternidade. Em geral, um sujeito feminino vive dividido entre ser mulher ou ser mãe. Todavia, a maternidade não ocorre necessariamente em razão da renúncia à

feminilidade. São posições distintas com gozos distintos, mas de forma alguma são excludentes.

Ficou evidente que a filha depende do investimento da mãe de sua imagem, isso é muito importante para a menina, pois é através do acolhimento de seu corpo, do espelho, do olhar da mãe, de suas palavras e gestos, bem como das atitudes, e do amor dirigidos a ela, ainda menina, que ela vai construir uma imagem de si. É através desta cobertura imaginária que poderá lidar com a falta de uma identificação feminina, por conta da falta do significante feminino, se amando e encontrando os caminhos para ir construindo a sua identidade continuamente ao longo de sua vida.

As dificuldades e os problemas encontrados para a constituição da feminilidade decorrentes da relação mãe-filha são da ordem de um espelho inacabado. Este poderá ser tomado desde uma parte do real do corpo que não é simbolizada. Se a mulher não pode se sustentar em sua base especular, é porque não pode assumir uma imagem de mulher. O entrave à feminilidade é decorrente dos estragos maternos que podem fixar a filha na relação de ligação com a mãe. Isso está condicionado a se essa mãe não aceitou a impossibilidade de transmissão da feminilidade, como ela lida com a castração, assim poderá alimentar na filha a crença de que poderá receber dela tal significante que faltara.

A abertura e o espaço essenciais para vivenciar a diferença sexual como falta ocorrerão se a menina renunciar à mãe fálica, mas esse espaço deveria ser proporcionado também pela mãe. A qualidade da relação intersubjetiva entre mãe e filha viabilizará para a filha a distinção entre elas e a construção de sua feminilidade ou de um clone da mãe, sobretudo, repetindo as falhas. Assim reside toda a dificuldade de uma mulher na realização de sua feminilidade. A grande luta da filha será a separação da relação de ligação com sua mãe. Contudo, embora a filha espere mais substância de

sua mãe, no entanto, para Lacan, a mulher mesmo depois de passar pelo Édipo, se endereçando ao pai, e, por conseguinte, ao homem, ela continua esperançosa e/ou desafiante a demandar/receber dele o significante da feminilidade.

Espera-se na vida adulta que mãe e filha tenham atravessado a devastação e chegado a uma relação harmoniosa, aceitando as perdas e, sobretudo, se libertando das crenças alimentadas de uma para a outra da possibilidade de transmissão da feminilidade. Ademais, que a sensibilidade de cada uma tenha facilitado esse processo de separação e a construção de suas identidades. Caso contrário, a devastação se arrasta cheia de ódio e conflitos surdos sem resolução.

Como observamos, o núcleo duro da especificidade da relação mãe-filha é a indistinção identitária entre elas, resultando na confusão das identidades e imagens de feminilidade. No fundo, o que temos é uma fantasia do feminino de que elas não deveriam se separar, não permitindo a entrada do terceiro. A considerar que a relação mãe e filha é uma relação a três. É o abuso narcisista alimentando um amor louco, fusional e engolidor, consequentemente, produzindo estragos. A dominação materna e seus imperativos superegoicos caracterizam uma forma de prisão, impedem a filha de sair dessa relação de ligação. A angústia por ser engolida e querer se separar a remete à culpa por trair o molde materno, a dívida que imagina ter por deixar de ser o objeto da mamãe. A feminilidade é subversiva.

Evidentemente, esse caminho para a construção de uma imagem e de uma identidade estão condicionados à mãe ter aceitado ou não a castração e sua feminilidade, bem como a impossibilidade de transmissão da feminilidade. Ambas deverão fazer o luto dessa relação de ligação e do que uma representou para a outra ao longo de suas vidas. O luto implica a renúncia em ser o falo, enquanto objeto para a mãe, e à mãe

fálica. O luto é resolutivo, mas nem sempre esse luto se efetiva, pois às vezes pode se arrastar num luto melancólico.

Lacan apontou que é através da mascarada, via narcisismo, criando semblantes, que a mascarada vai realizar uma feminilidade possível. Assim, a mascarada se faz desejável e amada. “É pelo que ela não é que ela pretende ser desejada, ao mesmo tempo que amada” (Lacan, 1958/1998, p. 701). A feminilidade poderá ser a solução encontrada para algumas mulheres quando ao descobrir no espelho que os véus podem se transformar em máscaras (Garcia, 1997, p. 84). A mulher faz de sua feminilidade uma máscara. Ser mulher é ser mulher na aparência, como assinala precisamente Zalcberg (2003), que a identidade feminina será estabelecida numa estrutura de ficção, encontrando nos encantos de seu corpo feminino, da feminilidade, soluções criativas para lidar com “sua condição indefinida de mulher” (p. 185). Lacan (1962/1998) chegará à conclusão de que nada poderá ser dito sobre a especificidade do gozo feminino.

Enfim, a feminilidade é esse movimento de tentar se definir como mulher, como um processo de busca de identidade que pode transformar a menina em mulher. A criatividade é o ingrediente essencial para a invenção de uma mulher. É a mulher construindo o seu jeito de ser, no seu estilo de se inventar, de se criar, de se nomear como mulher em seus sentidos, realizando um estilo próprio que a faz única, mas para isso é necessário a assunção de seu próprio corpo.

No documento Feminilidade e depressão pós-parto (páginas 129-133)