CAPÍTULO 3 FEMINILIDADE E MATERNIDADE
4.2 O Complexo de Édipo e o declínio da imago paterna
Para nos situar, segundo Eliacheff e Heinich (2004, pp. 38-39), desde o século XIX, na Europa, começou o movimento de “despaternalização”, como parte da educação atribuída ao Estado. Como resultado disso, hoje, em nossa sociedade, os pais transferem para a escola a responsabilidade de educar e dar limites aos seus filhos. Claro que quando tais limites são dados por terceiros os mesmos pais não aceitam, como a perda do pátrio poder em razão dos maus-tratos; abolição de castigos físicos, como a “Lei da palmada”, que temos agora no Brasil; a substituição do pátrio poder pela autoridade parental, a tendência da guarda da criança é ficar com a mãe; autoridade
parental confiada à mãe em casos de filiação natural. Hoje o instituto da guarda compartilhada ganha força jurídica e objetiva estimular a participação do pai na criação e educação dos filhos tentando evitar assim a chamada alienação parental.
Então, em 1938, Lacan chamava de declínio da imago paterna, o que seria do registro do imaginário, pois não dispunha ainda de arcabouço teórico constituído a respeito dos registros do imaginário, do simbólico e do real. Somente mais tarde, com o desenvolvimento de suas teorias psicanalíticas, vai chamar de o declínio dos Nomes-do- Pai, que é do registro simbólico (Chemama, 2007).
Entrementes, destacaremos alguns elementos dos fundamentos e da dinâmica do Complexo de Édipo, úteis para o desenvolvimento e a articulação de alguns conceitos centrais em nossa abordagem, desenvolvidos ao longo do tempo, que se mantêm epistemologicamente coerentes na teoria psicanalítica, a saber, os das instâncias do supereu e do ideal do eu. Instâncias importantes, em decorrência do declínio da imago paterna, para abordarmos o estatuto do grande Outro e, por conseguinte, da feminilidade na modernidade.
Ao chamar a atenção para a perda da autoridade paterna, do pai humilhado, do declínio da imago paterna, Lacan (1938/1987) o abordou ainda em termos mais antropológicos e sociológicos do que psicanalíticos. Lacan, ao prestar serviços à psiquiatria militar inglesa no recrutamento de soldados, no final da Segunda Guerra Mundial, pôde constatar o declínio e a degradação do tipo viril em escala coletiva. Nesse sentido, percebeu “sujeitos mal despertados do calor das saias da mãe e da esposa” (Lacan, 1947/1989, p. 19). Contudo, o perigo ameaçador no futuro não seria do embrutecimento dos indivíduos, mas das forças tirânicas do supereu. Esse declínio é correlacionado por Lacan aos efeitos do progresso social dos indivíduos. Por razões, condiciona-os à concentração econômica e às consequências políticas desastrosas, que
contribuem com o cenário social e, por conseguinte, com as constituições dos núcleos familiares e suas relações na contemporaneidade.
Lacan atribui ao discurso capitalista uma das “causas” do declínio da imago do pai. Diante disso, prenunciava que o declínio social da imago paterna constituiria uma crise psicológica e, por consequência, produziria muitos efeitos dessa ordem na constituição do sujeito. Uma das preocupações e consequências importantes em decorrência disso seria também o declínio da dialética da família, no que tange ao casal, à vida conjugal.
Para a psicanálise, as constituições das estruturas neuróticas se demonstraram dependentes das condições familiares. A grande neurose contemporânea, assim nomeada por Lacan (1938), teria a sua principal determinação na carência da personalidade do pai. Essa imago paterna precária, carente, degradada, enfim, em declínio, seria responsável pelo empobrecimento e por prejudicar a pulsão do sujeito no período edipiano e a dialética das sublimações. Com isso, instalando no berço do neurótico as chamadas Madrinhas sinistras, a saber, a impotência e a utopia, aprisionando sua ambição (Lacan, 1938/1987, p. 61) e, por que não dizer, seu desejo. Por isso a correspondência dessa grande neurose com as depressões na atualidade. Para Lacan, a neurose contemporânea está diretamente ligada ao declínio da família paternalista.
O Complexo de Édipo como coordenada legalizante ocupa posição privilegiada porque é a base atual de nossas relações com a cultura na civilização ocidental (Lacan, 1957-1958/1999). A família humana, menor núcleo social, tem a sua realidade constituída nas e pelas relações sociais, e está condicionada a fatores culturais, que por sua vez são organizados dentro da cultura para tentarem dar conta das pulsões, e, por conseguinte, às circunstâncias psíquicas. Dessa forma, constituem-se os processos de
subjetivação e objetivação, por meio de um processo dialético, que produz novas formas de conflitos da família que antecede com o real (Lacan, 1938/1987, p. 20). Em palavras ainda não tão codificadas no jargão psicanalítico, o Complexo de Édipo define as relações psíquicas na família, dando-lhe forma e subordinando as diversas composições sociais familiares da modernidade.
Importa também lembrar que o Complexo de Édipo, seu drama, sua dinâmica, ou seu inferno, ocorre por meio de conflito triangular, marcando todos os níveis do psiquismo do sujeito, e que a maturação da sexualidade vai condicioná-lo, direcionando o sujeito para os objetos, formando suas tendências fundamentais. O Complexo de Édipo revela a dinâmica da sexualidade infantil.
Mas além desse conflito edipiano imaginário, que se demonstra em parte inoperante para a menina, e suficiente para o menino, o que vai importar aqui é a formação do supereu, a função simbólica paterna e a promoção da castração. Mas desses primórdios ressaltamos a importância da frustração, corroborada pelo processo de educação, das pulsões no jogo da dialética edipiana, dos desejos sexuais e fixações, que constituirá o seu nó (Lacan, 1938/1987, p. 42). As tensões que aí se produzem se resolvem por um duplo processo: pelo recalcamento da tensão sexual, deixando-a latente até a puberdade, que permanece no psiquismo como supereu; pela sublimação da imagem parental, estabelecendo um ideal representativo, a instância do ideal do eu.
Essas instâncias de estrutura psíquicas do sujeito, supereu e ideal do eu, manifestam-se nos sintomas das neuroses e nos fenômenos de personalidade. Portanto, é a partir da situação edipiana e suas vicissitudes causais ou determinantes danosas que a história do sujeito adquire significação e a importância de determinados traços na sua personalidade. Lacan vai nos dizer que os acidentes que afetam a situação edipiana e sua evolução vão se repetir nos efeitos do supereu, e se a afetam como incomuns em sua
constituição, se refletirão nas formas do ideal do eu. Será a partir da situação edipiana que as instâncias psíquicas supereu e ideal do eu se organizam no sujeito (Lacan, 1938/1987, p. 43).
Na família paternalista, a imago paterna, na condição de dominante, detentora da autoridade familiar, polariza as formas do ideal do eu, tanto para o menino quanto para a menina. Ademais, investida pela repressão proporciona a condensação da realidade e as sublimações. As formas de perpetuação desses efeitos que se reproduzem, inconsciente ou conscientemente para o sujeito, são designadas como supereu ou ideal do eu (Lacan, 1938/1987, p. 49). Mas isso é uma determinação social da família patriarcal. Ou seja, o Édipo é relativo a uma estrutura social. Lacan alerta que não devemos negligenciar o conflito funcional do Édipo na família conjugal porque ele produz uma dialética social que é reintegrada no progresso psicológico (Lacan, 1938/1987, pp. 54-56).
Em contrapartida, uma imago do pai diminuída, decaída, declinada, desvia a energia de sublimação de sua direção criadora, favorecendo a um ideal de integridade narcísico, ou seja, imaginário e não simbólico.
No processo de identificação no Édipo, a imago da mãe trai as identificações primordiais, as suas formas e ambivalência marcam o ideal do eu e o supereu, sobretudo na menina. Para a menina, a sublimação da imago materna em declínio tende a se transformar em sentimento de repulsa, e em decorrência disso teremos a exacerbação da preocupação com a imagem especular.
Em síntese, o declínio da função da imago paterna ocorre também em função do declínio da família ou da sociedade patriarcal. De fato, pai há, ele é o genitor, mas é necessário que o pai seja sancionado num significante pela mãe, pois é o nome do pai que cria a função do pai (Lacan, 2005, p. 47). Mas com a crescente mudança social para
a família matriarcal a posição simbólica do pai torna-se fragilizada, perdendo a eficácia simbólica.
Ressaltamos que Lacan (1957-1958/1999) não vai mais falar do declínio da imago paterna, mas faz o seu posicionamento teórico-clínico a partir do Seminário As formações do Inconsciente, e passa a falar do declínio dos Nomes-do-Pai. O que vai importar a Lacan não é necessariamente o pai na família, mas o pai no Complexo de Édipo, o pai na estrutura, o pai simbólico, que é uma metáfora, o significante que substitui outro significante (Lacan, 1957-1958/1999, p. 179).
A preocupação de Lacan com o declínio do pai não tem nada a ver com o declínio da imago masculina, senão no ponto no qual quem constituía o referente simbólico da função de lei não ser mais essa referência, e, ainda, para complicar um pouco mais as coisas, por não ter claramente um substituto. A consistência da palavra com força de lei é o que demandamos no Outro, que essa palavra tenha consequências e os nomes se tornem simbólicos de uma lei (Jerusalinsky, 2004, p. 11) constitui a entrada do sujeito no jogo da linguagem.