Através dessa pesquisa tornaram-se visíveis os muitos discursos a respeito da venda direta. Com a apresentação do que se enquadra como venda direta, como ela se organiza na economia e no mundo do trabalho. Esse sistema se entrelaça com as noções de divisão sexual do trabalho, trabalho precário e com as novas organizações da economia neoliberal, onde se torna uma alternativa em momentos de baixa economia e uma maneira de empreender (conforme apontado, próxima ou de fato, como empreendedorismo por necessidade), e, portanto, ter sucesso. A venda direta perpassa por muitos discursos e se apresenta com muitos sentidos, conforme discutido ao longo deste trabalho.
Um dos sentidos mais presentes na venda direta é o discurso da oportunidade. As empresas que trabalham dessa forma apresentam o sistema de vendas diretas como uma oportunidade para que as mulheres se desenvolvam, abordando principalmente os aspectos de autonomia e independência financeira, porém essa oportunidade não é apresentada simplesmente como uma forma de conseguir uma renda, é uma oportunidade de empreender. Empreendedorismo é entendido como uma forma de trabalho e como uma característica do trabalhador. Como uma forma de trabalho, empreender significa trabalhar do seu jeito, no seu tempo e da maneira que você quiser. O que é explorado pelas empresas, já que não é preciso ter um horário ou local especifico, seguir ordens de um patrão, usar uniforme, entre outras coisas comuns no dia a dia de um trabalhador formal. Da maneira como os discursos neoliberais são expostos, isso é ser empreendedor. Como característica do trabalhador (mesmo que formal), ser empreendedor é ser proativo, independente, engajado na empresa e estar sempre se atualizando sem depender da empresa para isso.
O discurso do empreendedorismo na venda direta apresenta um cenário de liberdade, porém camufla características de precariedade, como foi visto na capítulo sobre divisão sexual do trabalho. A precariedade acontece quando os lucros são poucos, quando a carga de trabalho se torna excessiva e o reconhecimento social e financeiro é baixo. É incentivado usar os espaços cotidianos para o trabalho: a revendedora vende em seu trabalho fixo, nos encontros com família e amigos, na universidade, em todos os espaços em que circula diariamente. Realizar vendas no cotidiano contribuiu tanto para o trabalho com vendas não ser visto como um trabalho de fato, e sim como um bico, quanto para as precarização, já que muitas mulheres trabalham mais horas diárias com
106 as vendas do que trabalhariam em um emprego formal, muitas vezes sem reconhecer este trabalho. A falta de horários fixos também pode fazer com que as revendedoras atendam clientes em dias e horários que não trabalhariam se estivem em outra modalidade de trabalho.
Outra característica de precariedade é o reconhecimento social e financeiro. A venda direta é historicamente associada a bicos, renda extra e trabalho temporário, de maneira que muitas vezes não se reconhece, mesmo por quem vive exclusivamente dessa maneira, como um trabalho. O fato do lucro não ser grande e o reconhecimento por parte das empresas ser feito por bonificações em produtos, jantares ou viagens também é uma característica de precarização, pouco reconhecida em épocas de capitalismo neoliberal, já que muitas empresas adotam essa postura em relação aos seus empregados formais.
Ademais de todas as problemáticas e características de precarização, a venda direta carrega os discursos de empoderamento, direta ou indiretamente, quando se fala em trabalhar do seu jeito e no seu tempo. O empoderamento também aparece entrecruzado com o discurso de valorizar a mulher através da beleza e da feminilidade (que a ideologia patriarcal apresenta). É interessante notar que no momento em que os discursos de empoderamento feminino deixaram de ser presentes apenas nos espaços de resistências, o mercado neoliberal capturou esse conceito e o transformou em mercadoria. Empresas de cosméticos passaram a incluir mulheres fora do padrão tradicional de beleza em suas propagandas para mostrar a imagem de mulheres empoderadas, grandes empresárias e revendedoras de sucesso são mostradas como exemplos de mulheres empoderadas e utilizadas como incentivo para as demais revendedoras, o discurso é que com dedicação todas conseguem. O discurso do empoderamento está atrelado à imagem do empreendedor de sucesso e mascara a dedicação, investimento de tempo e dinheiro para se conseguir chegar a esse sucesso.
Entre o discurso crítico e o discurso neoliberal de empoderamento tem-se o cotidiano das revendedoras, que hora trazem para si o discurso das empresas, hora o questionam. Os sentidos apresentados pelas revendedoras nessa pesquisa são de tempo/liberdade, renda extra e autoestima. O empoderamento vivenciado pelas revendedoras é próximo ao que as empresas apresentam quando ligado a trabalhar no seu tempo e do seu jeito. Também é próximo o sentido de empoderamento ligado à autoestima, onde as mulheres se sentem empoderadas por desenvolverem uma autoestima maior depois começarem a vender. Esse aumento de autoestima é
107 relacionado tanto com a possibilidade de ter independência financeira ou aumento da renda, quanto com o sentimento de ser útil e se sentirem mais bonitas. O discurso de embelezar as mulheres aparece nas empresas quando é incentivado que as revendedoras sejam sua própria vitrine, usando e demonstrando os produtos que comercializam. Vê-se que apesar da precariedade Vê-ser reconhecida, o Vê-sentimento de empoderamento é presente, e faz com que as mulheres se percebam enquanto sujeitos de sua própria história, gerando possibilidades de mudanças (seja de situações simples, como a renda, seja de situações mais complexas, como a violência doméstica).
Os sentidos de renda extra apresentados pelas revendedoras são extremamente próximos ao que as empresas apresentam, porém trazem a problemática de não enquadrarem a venda direta como um trabalho, já que é uma renda a mais e não a principal ou única. As mulheres apresentam esse sentido como positivo, pois vê o resultado sem muito esforço. Isso acontece tanto pelo trabalho ser camuflado pelas estratégias utilizadas, quanto pela falta de reconhecimento social e financeiro. A falta de reconhecimento social acontece também pela venda direta ser uma atividade ligada ao informal e não ter incentivo para ser formalizada.
Com essas percepções vê-se que o trabalho informal não é muito debatido na academia, praticamente não existem estudos na psicologia social do trabalho sobre informal, então como proposta para estudos futuros, sugiro agregar estudos do trabalho informal urbano, ligado as novas organizações do capital, próprias do mercado globalizado e digital. Também deixo como proposta para novos estudos a relação entre empoderamento e atitudes pequenas que mudam o cotidiano e a organização micropolítica de muitas mulheres, já que por se sentirem “menos submissas”, como diz uma das participantes, as mulheres passam a acreditar em sua própria força e capacidade para mudar a realidade em que vivem. Vê-se portanto que o empoderamento é, por vezes, um processo dialético, por vezes sentido inicialmente de maneira individual.
Em relação a comunidade, deixo como sugestão a entrada de estudos relacionados a vendas informais na pauta do movimento feminista, pois estas vendedoras não encontram proteção laboral em legislações ou sindicatos, e como é um trabalho genuinamente feminino, cabe as mulheres se protegerem enquanto grupo. Uma maneira de esse fortalecimento acontecer pode ser através de grupos de mulheres ligadas ao movimento feminista, através de estudos de trabalhos e grupos de apoio, discutindo estratégias de apoio na atividade da venda e estratégias de reconhecimento
108 do trabalho informal com vendas como um trabalho de fato, com menos precariedades e seguranças.
Por fim, a grande percepção deste estudo é que as revendedoras tem consciência de todas as características de precariedade apontadas pela literatura em suas vivências, mas veem, em conjunto, além de todas as problemáticas, a venda direta como um empoderamento. Por meio da qual elas se sintam menos submissas, úteis e independentes. E esse empoderamento não necessariamente é o mesmo discutido na literatura ou vendido pela ideologia neoliberal, é algo próprio, diz respeito a vivência de cada uma, e ainda assim, apresentam características em comum. Viés este, que pode ser mais explorado em estudos futuros.
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