2. VENDA DIRETA
3.1 Estudos de trabalho e de gênero: aproximações e conflitos
A teoria de Marx sobre o capital é um ponto de partida comum quando se fala em trabalho. Este autor trata o trabalho como troca de mão de obra para a produção de mais valia, processo esse que mantém o ciclo de exploração e lucro próprio do capitalismo. Para Marx o sistema capitalista mantém-se com a exploração de mão de obra, a todos que vendem sua força de trabalho, o autor chama de proletariado, enquanto os donos dos meios de produção são os burgueses, nessa teoria a mudança de classe não acontece a menos que se desenvolva a consciência de classe, onde o proletariado passa a questionar e toma (no sentido revolucionário) o poder dos meios de produção (Marx, 1980). Althusser (1980) quando apresenta a teoria marxista acrescenta a manipulação ideológica desse sistema, dizendo que de tempos em tempos, um proletariado pode se tornar burguês, apenas para diminuir a possibilidade de revolução ou tomada de poder, mantendo a ideologia do capitalismo onde “todos que se esforçam e trabalham podem se tornar elite”.
46 A teoria marxista apresenta de maneira clara o sistema capitalista, mesmo sendo criticada atualmente em alguns pontos, por autores que marcam diferenças significativas entre os trabalhadores (por exemplo um médico e um metalúrgico – ambos vendem a mão de obra, já que não são donos dos meios de produção, mas a mais valia em seus trabalhos é muito diferente) e os donos dos meios de produção (basta pensar em um dono de uma rede de hipermercados e o dono do mercadinho familiar em um bairro periférico), ainda apresenta-se como uma das teorias mais válidas para se pensar o sistema capitalista. A crítica que destaco aqui, enquanto crítica feminista é o sujeito universal apresentado por Marx e a invisibilidade do trabalho que não produz mais valia, entendido como o trabalho doméstico e tipicamente feminino (Araujo, 2005).
As autoras brasileiras Elizabeth Souza-Lobo (1991) e Heleieth Saffioti (1987) discutem a posição adotada pelos marxistas para com o trabalho da mulher. Enquanto o trabalho doméstico e o trabalho de cuidado, entendido como trabalhos tipicamente femininos, é compreendido no marxismo como trabalho reprodutivo, e portanto não produz mais valia. Essas autoras discutem que esse trabalho é fundamental para a manutenção do sistema, sendo imprescindível que não seja valorizado. Por isso mesmo, invisibilizado tanto nos meios de produção quanto na academia.
A autora Clara Araújo (2000) destaca que além do marxismo não reconhecer a importância do trabalho doméstico e de cuidado para o sistema capitalista, além de suas implicações nas relações de classe e subordinação, não reconhece a subordinação homem-mulher. Segundo essa autora a relação de subordinação de gênero ocorre de maneira distinta no proletariado e na burguesia, atentando para o que Helena Hirata (2014) chama de interseccionalidade: toda relação social é marcada pelos vieses de classe, gênero e raça, inclusive as relações de trabalho e relações de produção. Clara Araujo (2000) destaca que Marx e Engels estavam muito mais preocupados com as relações de classe e trabalho do que com as questões de gênero e raça, e portanto não tocam nesse tema, porém destaca que os pós marxistas devem ter essa preocupação, principalmente as feministas marxistas. A crítica feminista ao marxismo começa com o reconhecimento da importância do trabalho reprodutivo para o sistema capitalista e a importância ideológica para que o mesmo seja realizado em nome do amor e da natureza feminina, nesse ponto surgem
47 os estudos de gênero. Posterior aos estudos de gênero, em conjunto com as mudanças no mundo trabalho, surgem os estudos da divisão sexual do trabalho. Onde a crítica feminista inicial se mantém e se consolida com a compreensão de que trabalhos tipicamente masculinos valem mais que trabalhos tipicamentes femininos (Hirata, 2002).
Autoras feministas como Cristina Bruschini (1995), Saffioti (1987) e Hildete Pereira Melo em conjunto com Claudio Monteiro Considera, Alberto Di Sabbato (2007) apontam, mesmo com as críticas apresentadas acima, a possibilidade do trabalho ser uma forma de emancipação feminina, este é um dos pontos centrais de Simone de Beauvoir (1970) em seu clássico O Segundo Sexo, onde apresenta as muitas formas de emancipação e libertação da mulher, que vão desde a sexualidade, a maternidade como opção e o trabalho, focado nas questões financeiras e de identidade. Helena Hirata e Daniele Kergoat (2007) começam a discutir que o trabalho não necessariamente emancipa e empodera, podendo também aprisionar e manter o sistema de subordinação. Nos estudos atuais, discute-se o trabalho como empoderador e também como forma de subordinação.
Ricardo Antunes (2015) em seu livro “Os sentidos do trabalho – ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho” apresenta as muitas formas como o trabalho pode ser vivido e sentido, perpassando pelos sentidos de empoderamento, identidade e aprisionamento. Para o autor, a falta de sentido ou identificação do trabalho acaba por adoecer o trabalhador, que não se vê naquilo que faz. Vemos aqui a importância do trabalho na vida social da atualidade, onde as pessoas se identificam a partir do trabalho. Este autor também aponta as mudanças no mundo do trabalho: a reestruturação produtiva e as novas formas de emprego típicas do mercado neoliberal, sendo estas mudanças responsáveis por mudanças na relação trabalho-trabalhador.
A partir da leitura de Antunes (2015) as autoras Maria do Carmo Leite de Oliveira e Sonia Bittencourt Silveira (2012) discutem o conceito de emprego (ligado a alguma organização) e autoemprego, entendido como o trabalho autônomo ou informal, ligado ou não a organizações. A noção de auto emprego é próxima a noção de empreendedorismo por necessidade (Bulgacov et al 2010) , essas duas noções são típicas da economia neoliberal em crise, pois não há empregos para todos os
48 trabalhadores qualificados, e estes vem no trabalho autônomo uma saída para insustentabilidade financeira.
Antunes (2015) cita que as percepções sobre trabalho e carreira são diferentes para as mulheres, o que influencia o reconhecimento social e monetário. Essas diferenças relacionadas a gênero foram destacadas por Hirata e Kergoat (2014), Cristina Bruschini (1994) destaca o trabalho como forma de aprisionamento e sujeição feminina, Souza-Lobo (2011) faz uma crítica direta a Marx destacando que a classe operária tem dois sexos, sendo as mulheres as que mais sofrem tanto com o emprego quanto com o desemprego. Todas estas autoras destacam pontos específicos da relação entre trabalho e gênero, que se complementam, tornando a crítica mais consistente e abarcando as muitas realidades das mulheres no mundo do trabalho atual.
Com as autoras citadas acima, vê-se como o pensamento patriarcal destina espaços específicos às trabalhadoras, de menos prestígio e reconhecimento, chamados de guetos profissionais por Hirata (2002). Os guetos profissionais são os trabalhos domésticos reconhecidos enquanto profissão quando realizados fora de casa (limpeza, cuidado e educação, por exemplo) são as áreas que estatisticamente concentram o maior número de profissionais femininas, áreas historicamente precarizadas e quando reconhecidas são porque homens se interessam por elas (o caso das cozinheiras e dos chefs de cozinha). Bruschini (1994) apresenta que os estudos acadêmicos também invisibilizaram por muito tempo os guetos de trabalho femininos. No início dessa pesquisa (julho de 2016), puramente por curiosidade (sem pretensão de um estado da arte ou mesmo análise aprofundada) realizada na base de dados BVS-Psi (maior base de dados da psicologia) a grande maioria dos artigos encontrados com os descritores “mulher e trabalho” foram sobre conciliar a vida familiar com o trabalho e sobre trabalho de parto. Percebe-se que a crítica sobre invisibilidade acadêmica em relação a trabalho e gênero ainda é pertinente.
Segundo Bruschini (1994) em seu escrito sobre os estudos de gênero no Brasil, o tema do trabalho da mulher foi a porta de entrada para os estudos de gênero na acadêmica brasileira. Na década de 70 vários grupos de estudos e pesquisas foram criados para os estudos de mulheres e feminismos no Brasil, grande parte deles tinham o trabalho como tema. Nessa época os estudos de trabalho eram
49 influenciados, quase em sua totalidade, pelo marxismo, levando-se em conta a emancipação dos trabalhadores e fazendo duras críticas aos meios de produção e ao sistema capitalista (Bruschini, 1994). Na segunda leva de estudos sobre o trabalho da mulher na América Latina, a teoria de Marx passou a ser criticada: o capital continua a sujeitar as mulheres, o que vai de encontro com as críticas apresentadas até aqui. A dupla sujeição das mulheres é debatida ainda hoje, Ricardo Antunes (2015), Bruschini (1995), Hirata (2007) entre outras estudiosas apontam que a emancipação pelo capital, como sugeriu Beauvoir (1970) pode não ser a saída para a emancipação feminina de fato. O empoderamento feminino, como discutido atualmente, perpassa por tantas esferas quanto a socialização humana, sendo o capital uma das possibilidades, mas não a única possível (tanto no sentido de libertação quanto no sentido de aprisionamento). É nesse sentido que a análise do trabalho informal com vendas direta está sendo discutido nesse texto.