4. DISCURSO NEOLIBERAL DO EMPREENDEDORISMO
4.2 Precariedade, empreendedorismo e trabalho da mulher
O empreendedorismo como fenômeno pós-moderno liga-se a indícios de precariedade laboral, conforme apontadas por Hirata (2009) sendo associado a instabilidade, a falta de previdência e a necessidade de renda, acompanhado muitas vezes pela falta de qualificação e preparo, fazendo com que muitas pessoas empreendem de forma informal, seja com venda de produtos ou comercialização do que até então era produzido apenas para subsistência. Bulgacov et al (2010) destaca que o empreendedorismo por necessidade pode carregar indícios de trabalho precário, sendo necessária uma análise profunda do fenômeno para compreendê-lo sob estes aspectos. Segundo Hirata (2009) o trabalho precário é caracterizado por ser um trabalho instável, com baixo salário e reconhecimento, com grande jornada
57 de trabalho, com ausência de seguridade social e com desrespeito às leis trabalhistas. Para ser colocado na categoria de trabalho precário não é necessário que apresente todas estas características, segundo a autora, qualquer trabalho que apresente ao menos uma destas características é um trabalho precário. Bruschini (2005), juntamente com Hirata (2007) apresenta que as mulheres estão mais sujeitas a trabalhos precários, tanto pela falta de reconhecimento social quanto por estarem mais sujeitas a salários baixos e empregos instáveis.
Antunes (2001) apresenta uma crise geral na ordem do mundo do trabalho, transformando fenômenos típicos do terceiro mundo em fenômenos mundiais. A precariedade atinge não só trabalhadores de chão de fábrica, em países pobres, em empresas sem renome. Agora passa a atingir, na última década, grandes multinacionais, trabalhadores das escalas mais altas e cargos de chefia, tornando-se uma característica dos empregos modernos. Adentrando os discursos de novas formas de emprego, que tentam justificar a precariedade através de bonificações e supostos benefícios.
Tais características são para Antunes (2010) um sintoma da crise estrutural
do capitalismo, que torna-se ainda mais destrutivo e ainda mais cruel para os trabalhadores. As características desta crise são a substituição dos trabalhados tradicionais pelo trabalho flexível e o crescente neoliberalismo desenfreado, que toma conta de governos que até pouco tempo pensavam em implantar modelos de bem estar social. Para Antunes (2001) essas características não só tratam o trabalhador como uma peça descartável como tratam da mesma maneira os recursos naturais. Administrar empresas ou países sob essas características é sempre administrar o risco, conduta comum aos empreendedores por necessidade e aos que vivem com a viração.
Acompanhando o estudo do empreendedorismo feminino no Brasil, vê-se a feminilização do mercado de trabalho, segundo Nogueira (2004 cf Bulgacov et al 2010) como um aspecto que favorece o empreendedorismo. As autoras citam dois fatores, sendo um positivo e um negativo para esse favorecimento. O aspecto positivo destacado refere-se a abertura de espaços até então não existentes para a mulher, como a construção civil. O aspecto negativo deste fenômeno é que acaba colocando a mulher em guetos profissionais, que por falta de reconhecimento social,
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historicamente são mais ligadas a informalidade e com pouca seguridade e estabilidade. Hirata (2015) descreve como esse fenômeno ocorre na Europa, onde à mulher são destinados os trabalhos part-time ou temporários, ligadas a home care e trabalhos domésticos.
Ainda segundo Bulgacov et al (2010) são as características da feminização do trabalho (positivo ou negativo), da pouca oportunidade e da desvalorização da mulher no mercado de trabalho que levam a mulher a empreender, não como a melhor saída, mas sim como uma das poucas possíveis. Busca-se apresentar como o discurso do empreendedorismo feminino vem sendo construído como uma saída possível para geração de renda e também como mais uma forma de legitimar o trabalho feminino como um trabalho precário, ligado a produtos e funções tipicamente associados a mulher por discursos patriarcais.
O trabalho informal e o trabalho precário apresentam inúmeras semelhanças, como já enunciado anteriormente, o que permite analisar o trabalho informal também com base neste descritor, juntamente com o conceito apresentado de empreendedorismo por necessidade, dou preferencia a este conceito em relação a viração, de Jesse de Souza (2013), por estar mais próximo da venda direta, tanto por esse fenômeno estar mais presente na classe média, quanto pelo discurso empreendedor apresentado pela venda. Discutindo estes temas em consonância com análises feministas do trabalho, compreende-se que há uma construção social legitimada pelo patriarcado, ainda muito presente na sociedade (Nogueira, 2001) e tal construção influencia o mercado de trabalho, colocando as mulheres à margem.
Falar de precarização do trabalho, de empreendedorismo por necessidade e de flexibilização precária do trabalho é preciso reconhecer que este é um fenômeno sofrido em maior grau por mulheres. Bulgacov et al (2010) afirma, citando uma análise de Holzmann (2006) sobre as estatísticas do IBGE/PNAD que o pequeno empreendedor ou empreendedor por necessidade é o personagem símbolo do neoliberalismo, destacando como as vantagens que usufrui, encobrem as precariedades envoltas nessa atividade, pois cerca de 80% dos profissionais que trabalham dessa forma não são contribuintes da previdência social. As autoras ainda citam que o empreendedorismo por necessidade funciona como um amortecedor do desemprego e assim como o trabalho informal é responsável por manter a economia
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girando mesmo com um alto índice de trabalhadores desempregados. O empreendedorismo e a flexibilização do emprego são fenômenos recentes, ligados a globalização do mercado de produção e consumo, típico do modelo econômico neoliberal. Ambos aparecem como saídas aos trabalhadores em épocas de emprego escasso e crises financeiras e também como uma qualidade desejada e valorizada nos trabalhadores e nos empregos, independente da área de atuação. Deseja-se que o trabalhador seja inovador, independente e criativo, características tipicamente associadas com o sujeito empreendedor, que é um sujeito de nosso tempo. Em se tratando de flexibilização do trabalho temos características como o home office, o trabalho regulado com metas e não por horários como características de um bom emprego, aspectos também valorizados pelo empreendedorismo.
O empreendedorismo como fenômeno pós-moderno liga-se a indícios de precariedade laboral, apontadas por Hirata (2009) sendo associado a instabilidade, a falta de previdência e a necessidade de renda, acompanhado muitas vezes pela falta de qualificação e preparo, fazendo com que muitas pessoas empreendam de forma informal, seja com venda de produtos ou comercialização do que até então era produzido apenas para subsistência. Começando pelas profissões desvalorizadas, são áreas que de certa forma ligam-se as atividades historicamente femininas não apenas no mundo do trabalho, mas também no ambiente doméstico, assim, a mulher continua fora de casa, realizando as mesmas atividades de cuidados, educação e limpeza, tanto do ambiente quanto das pessoas, em profissões que apenas recentemente ingressaram nas discussões mundiais sobre regulamentação do trabalho (Kergoat, 2009).
Em se tratando do trabalho part-time e dos contratos temporários Hirata (2015) discute que na Europa é este o trabalho destinado às mulheres, pois assim o rendimento não é prejudicado quando precisam se ausentar para cuidar dos filhos ou da casa, por exemplo. Mais um traço do patriarcado, onde somente à mulher é reservada a função de cuidar da casa e dos filhos. Tais características justificam os salários menores, a menor seguridade e a falta de reconhecimento da mulher no mundo do trabalho, Antunes (2001) engrossa dizendo que as novas organizações de trabalho, o que ele chama de proletariado flexível é 40% feminina, demonstrando mais uma vez que as mulheres são as mais atingidas pela precariedade..
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Bulgacov et al (2010) ainda destaca que:
A profissionalização da mulher não ocorre na mesma perspectiva que a masculina. O homem busca o trabalho como sua principal atividade, enquanto a mulher define sua carreira buscando equilibrar a vida familiar, seus sonhos e objetivos, com a vida profissional. Nesse sentido, o empreendedorismo é visto, para as mulheres, como uma alternativa de geração de trabalho e renda, possibilitando-lhes ter controle do seu tempo, seu futuro e seu destino profissional (Bulgacov, et all 2010, p. 341).
Hirata (2015) aponta que nos meios acadêmicos está ocorrendo uma mudança na terminologia e o termo “trabalho precário” está sendo trocado por “novas formas de emprego”, principalmente nos estudos nas áreas de economia e gestão de negócios. Esta terminologia vem sendo usada para designar trabalhos informais, contratos temporários e empreendedorismo por necessidade, construindo assim uma legitimação dos trabalhos precários como novas formas de organização, sendo a forma de trabalho com venda direta um dos expoentes dessas novas organizações de trabalho, marcadas pela precarização, flexibilização, e feminização e pela camuflagem gerada pelos discursos neoliberais.