North and South America
CONSERVATION PERSPECTIVE
6.1. Considerações finais
Este trabalho constitui um estudo aprofundado de caracterização genética das raças bovinas Ibéricas e Crioulas, cujos resultados fornecem informação relevante acerca das suas origens, da diversidade existente e da sua estrutura genética. Uma particularidade deste trabalho de investigação prende-se com o facto de ter sido congregada, para todas as raças, informação inerente a três tipos de marcadores moleculares (STRs, cromossoma Y e mtDNA), com características distintas e amplamente recomendados para a caracterização genética de animais domésticos (Bruford et al. 2003). Assim, foi possível obter uma perspectiva global acerca das origens e da composição genética destas raças.
A análise de polimorfismos do mtDNA foi extremamente útil, pois permitiu enquadrar a diversidade genética destas raças num contexto filogeográfico, através da classificação dos haplotipos encontrados em haplogrupos cuja origem foi previamente descrita. A estratégia utilizada para a análise de polimorfismos do cromossoma Y é inovadora, pois incluiu informação conjugada de SNPs e STRs para a definição de haplotipos. Esta abordagem permitiu detectar variação adicional nos haplogrupos Y1, Y2 e Y3, inicialmente definidos por Gotherstom et al. (2005), o que proporcionou uma análise detalhada das relações genéticas entre linhas paternas das várias raças bovinas. A informação genética resultante deste tipo de análise foi crucial para identificar possíveis cruzamentos mediados por machos. Por último, os STRs foram importantes para consolidar toda esta informação, e ainda para determinar a estrutura genética destas populações.
Relativamente aos bovinos Ibéricos, e em particular às raças autóctones Portuguesas, este estudo complementou informação já publicada (Beja-Pereira et al. 2003; Mateus et al. 2004b; Cymbron et al. 2005) referente à caracterização da sua diversidade genética. No entanto, foram analisadas, pela primeira vez, as 13 raças autóctones de Portugal, incluindo a raça Ramo Grande do Arquipélago Açoriano. A amostragem destas raças foi extremamente cuidadosa e exaustiva, o que permitiu estabelecer na Estação Zootécnica Nacional um banco de DNA que fica disponível para trabalhos futuros. Foram, ainda, incluídas nas análises a raça Mostrenca de Espanha, e duas raças das Ilhas Canárias
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(Palmera e Canária) que estão historicamente relacionadas com os bovinos Ibéricos e Crioulos. A raça Mostrenca constitui uma raça ancestral na Península Ibérica, que se encontra em estado semi-selvagem na região do Parque Nacional de Doñana, e que pode ter contribuído para o pool genético dos bovinos do Novo Mundo (Martinez et al. 2005). A diversidade genética detectada na Ibéria foi relativamente elevada, tendo algumas raças (e.g. Alentejana, Brava de Lide, Mertolenga e Ramo Grande) mostrado evidência de consanguinidade, enquanto a raça Mirandesa parece ter sofrido uma redução da diversidade genética por diminuição temporária do efectivo (bottleneck).
As análises do cromossoma Y são consistentes com a ancestralidade histórica de algumas raças da Península Ibérica, nomeadamente da raça Brava de Lide, Mertolenga, Preta, e Mostrenca, que apresentaram linhas paternas do haplogrupo Y1, que tem sido associado à influência do auroque (Gotherstrom et al. 2005). No entanto, é necessária uma análise mais detalhada e que inclua amostras de aDNA da Península Ibérica, para se poder determinar a frequência dos diferentes haplogupos do cromossoma Y nos bovinos ancestrais desta região.
Neste estudo é corroborada a forte influência de animais de origem Africana na constituição genética de várias raças de bovinos Ibéricos. Esta contribuição é sustentada pelos três tipos de marcadores moleculares utilizados e pela frequência elevada de linhagens Africanas. Estes resultados sugerem uma contribuição ampla e ancestral de bovinos Africanos, como é discutido por Beja Pereira et al. (2006) para as raças da região do Mediterrâneo (incluindo 6 raças Portuguesas), mas também da introdução de animais provenientes de África pelas comunidades Mouras que ocuparam o sul da Península Ibérica até finais do século XV (Cymbron et al. 1999).
A análise de STRs revelou que a estrutura genética dos bovinos Ibéricos corresponde à designação das raças, excepto no caso das raças Cachena e Barrosã, que tendem a formar um grupo único. Contudo, encontrou-se evidência de diluição na raça Minhota, por cruzamento com raças comerciais, assim como na raça Ramo Grande, que terá sofrido a influência de touros da raça Frísia. Na raça Mertolenga foi detectada subestrutura associada à criação independente de bovinos com o fenótipo Rosilho, o que pode justificar os desvios observados à situação de Equilíbrio Hardy-Weinberg por um efeito de Wahlund
123 (fragmentação da população) e não devido a consanguinidade, até porque esta raça apresentou uma diversidade genética elevada. Os resultados dos testes de classificação de animais em populações de origem indicam que as raças autóctones Portuguesas estão suficientemente diferenciadas para permitir uma percentagem elevada de classificações correctas, com um grau de confiança relativamente elevado (q > 0.950). Estes resultados podem ser úteis na validação molecular de produtos certificados de origem animal, tal como foi discutido por Ginja (2002).
Historicamente, considera-se que o gado Crioulo das Américas tem origem nos bovinos Ibéricos transportados pelos colonizadores Espanhóis e Portugueses, mas terá também sofrido influência de raças comerciais Britânicas e da Europa Continental, assim como de bovinos zebu (Rouse 1977). A análise genética foi consistente com estes registos históricos, e confirmou a proximidade com raças autóctones da Península Ibérica, mas também revelou a existência de uma elevada heterogeneidade entre os Crioulos. As análises de haplotipos do mtDNA confirmaram que a linhagem materna Europeia T3 é a mais comum entre os Crioulos, mas também revelaram a presença de haplotipos Africanos T1a e AA. Os polimorfismos do cromossoma Y são consistentes com estes resultados, pois o haplogrupo Y2, que é comum em raças Ibéricas, foi observado em frequências variáveis nos Crioulos e, além disso, comprovaram a influência de raças da Europa do Norte (haplogrupo Y1) e de zebu (haplogrupo Y3). A análise de STRs ilustrou claramente a diferença entre animais taurinos e zebuínos, permitiu identificar as raças de origem Ibérica e Britânica, e confirmou a heterogeneidade dos Crioulos devida a introgressão de outras raças.
O Crioulo Argentino (animais registados no livro genealógico da raça) e o Caracú são geneticamente distintos das restantes populações Crioulas, e apresentam a maior proximidade com os ancestrais Ibéricos. No caso do Caracú, foi detectada uma linhagem paterna substancialmente diferenciada, portadora de alelos observados em bovinos Africanos e com influência de gado zebu (haplogrupo Y3). Este resultado, em paralelo com a elevada frequência de linhagens maternas ancestrais derivadas de África (AA) observadas na raça Caracú e ausentes nos bovinos Portugueses, sugere a introdução no Brasil de gado oriundo de África, possivelmente através das rotas de escravos. A análise de STRs corroborou estes resultados, na medida em que foram encontrados alelos específicos de zebu, também detectados em gado Africano (MacHugh 1996). A questão da introdução de
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bovinos na América do Sul directamente desde África tem sido discutida e, se por um lado poderá estar associada à presença na Ibéria de linhagens Africanas (Miretti et al. 2004), por outro a influência directa Africana é igualmente plausível (Liron et al. 2006a). A ampla difusão de linhagens Africanas ancestrais (AA) agora descrita, é consistente com estas duas origens. No entanto, a análise de raças Africanas, nomeadamente para marcadores específicos do cromossoma Y, poderia contribuir para o esclarecimento desta questão.
Os Crioulos Mexicanos constituem um grupo extremamente heterogéneo e pouco diferenciado, o que é consistente com a ausência de tradição de gerir as populações de bovinos Crioulos como entidades independentes, i.e., raças (Rouse 1977), mas também resulta da diluição por cruzamento com raças comerciais, nomeadamente no caso das populações de Chiapas e Nayarit. A introgressão de gado zebu em Crioulos foi identificada pela presença de haplotipos Y3, nomeadamente no Caracú, nos Crioulos Mexicanos, e no Texas Longhorn. O facto de as raças comerciais Europeias estarem fixas para um único haplotipo paterno, permitiu identificar a contribuição de machos destas raças para populações de Crioulos, nomeadamente de touros Hereford para o Pampa Chaqueño e para o Texas Longhorn.
A diversidade genética observada nos Crioulos foi elevada, nomeadamente no que respeita à variedade de linhas maternas e paternas encontradas, mas também aos parâmetros de variabilidade genética estimados para os marcadores autossómicos neutros. Estes resultados não reflectem um efeito fundador inerente à introdução inicial de um número reduzido de animais (Primo 2004), mas antes as origens múltiplas dos Crioulos com influência de raças Ibéricas e Africanas. Acresce ainda o facto de os bovinos Ibéricos que lhes deram origem, também apresentarem diversidade genética elevada. Em paralelo, na maioria dos casos não existe uma tradição na gestão de populações de Crioulos como raças registadas num Livro Genealógico, com padrões definidos e sujeitas a programas de selecção com objectivos produtivos. Numa perspectiva de conservação, se por um lado importa preservar a diversidade destes recursos genéticos animais, por outro é importante que as populações de Crioulos mantenham as suas peculiaridades, nomeadamente em termos da adaptação aos ambientes em que persistem. Este estudo demonstrou que algumas populações de Crioulos, nomeadamente as do México, correm sério risco de
125 diluição por cruzamento com raças comerciais, havendo necessidade urgente de tomar medidas que minimizem a erosão genética a que têm estado sujeitas.
Os resultados das análises de conservação identificaram as raças Palmera, Mirandesa e Caracú como sendo as mais distintas geneticamente e as que maior influência têm na diversidade genética global. No entanto, esta classificação considera apenas a diferenciação das populações com base em distâncias genéticas e não incorpora a variabilidade genética intra-racial. As decisões sobre as populações prioritárias a considerar em termos de implementação de medidas de conservação não são simples, e devem incluir não só a informação sobre a contribuição de cada raça para a diversidade genética, mas também as particularidades inerentes a determinadas raças, assim como o seu valor histórico e cultural. Este estudo fornece, também, informação relevante para o maneio e gestão das populações de bovinos Ibéricos e Crioulos a nível local, nomeadamente no que respeita à identificação das raças mais ameaçadas por cruzamento com raças comerciais, de populações com índices de consanguinidade elevados e das raças que possuem características genéticas distintas associadas às suas origens e evolução.