Maria Sofia Macedo
8. Considerações Finais
Através das teorias que sustentam a geopolítica da Rússia, fatores de cultura estraté- gica de kto-kovo e da alma russa, o país legitima as suas pretensões hegemónicas, explo-
rando a geografia privilegiada de que dispõe, ou seja, a zona denominada por Heartland.
Destarte, pode-se concluir, de um modo genérico, que a Rússia almeja ser “a grande Potência” que outrora foi (Romana, 2016), almejando o estabelecimento de uma Política Externa multi-vetorial equilibrada, visando a “defesa de um sistema internacional multi- polar onde a primazia dos EUA seja constrangida” (Freire, 2011a, p. 166).
Para alcançar o seu objetivo, a Rússia necessita de uma estratégia de expansão pro- gressiva. O caso da anexação da Crimeia representa uma grande vitória para o país neste sentido. Assim, a Federação aproveita convenientemente os seus recursos energéticos, exportando para a grande parte dos seus Estados vizinhos (Unit, Energy, Russia, 2016) suscitando dependência económica numa lógica de neoimperialismo. Com efeito, o melhor meio para materializar o objetivo definido trata-se, em termos geopolíticos, do incremento da profundidade estratégica, de modo a enfraquecer o inimigo e, consequen- temente, “preservar influência no near-abroad” (Romana, 2016, p. 23).
Assim, no sentido de alcançar uma situação de Segurança Sistémica (na qual se dá primazia à segurança de cada Estado – aliado da Rússia ou considerado buffer zone – ao
invés da ideia de segurança no conjunto das partes) e de travar os avanços expansionistas dos atores contrários, a Rússia assenta a sua estratégia num mito fundador de defesa (Romana, 2016) fulcral para “justificar tendências, opções e atitudes” (Freire, 2011a, p. 166) tomadas ao nível da Política Externa. Assim, o país cria uma zona de encerclement para
com o Ocidente, procurando tornar-se num território impenetrável. é, neste contexto, que se exponencia a importância das buffer zones, nomeadamente a Ucrânia, que constitui
um verdadeiro muro perante o Ocidente (Stratfor, 2017).
Assim sendo, a crise da Ucrânia teve, na perspetiva geopolítica e económica da Rús- sia, uma projeção positiva bastante significativa (o que, porém, não agradou ao Ocidente). Ou seja, Moscovo pôde, enfim, anexar a Península que há tantos anos almejava (apesar de não ser ainda legitimado pela ONU), o que se reflete nos seus interesses geoestratégi- cos, particularmente por usufruir livremente da Península e da base de Sebastopol sem os custos que acarretava quando usufruía da mesma através da Ucrânia; obtém uma maior percentagem de influência sob o Mar Negro e; por último, a Crimeia reflete-se numa importante buffer zone para a Rússia, permitindo-lhe uma maior perspetiva de segurança
em relação às pretensões do Ocidente. Para além disto, destaque-se, igualmente, o facto de que a Ucrânia se tornou mais vulnerável. Tal é visto como uma oportunidade por parte da Rússia, uma vez que fica mais facilitada a desenvolver a sua esfera de influência sobre a Ucrânia, em deterioramento do Ocidente. Por fim, os imperativos estratégicos da Rússia consolidam-se numa teoria de “buffer its Heartland from invasion” (Stratfor, 2017).
Assumindo como possíveis as previsões elencadas nesta investigação, e partindo da lógica de soma zero, verifica-se uma “decomposição (…) da ordem mundial” cujo quadro geral “será menos próspero e menos previsível” (Rachman, 2011, p. 311). No entanto,
atendendo às volatilidades do sistema internacional, “novas oportunidades de coopera- ção e competição” (Freire, 2011b) emergem como demonstração de políticas externas formuladas em busca de equilíbrio internacional.
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