Maria Sofia Macedo
7. Risco Geopolítico e Possíveis Desenvolvimentos
Num quadro geral, o Ocidente, representado pelos EUA, UE e NATO, assumem interesses geoestratégicos na região da Ucrânia, nomeadamente devido às suas reservas energéticas, mas também de modo a impedir que a Rússia alcance esses objetivos em primeiro lugar (gokay, 2010). Assim, e como referido anteriormente, os Estados vizi- nhos, tanto da Rússia como da Ucrânia (nomeadamente a Turquia e a Roménia), de modo a evitar o risco de uma expansão russa desenfreada, aliam-se às forças ocidentais através da sua influência no Mar Negro, nomeadamente através da NATO, organização que integram (Lamrani, 2016). Destarte, as previsões em relação a este assunto versam sobre um incremento do poder naval no Mar Negro; tentativas, por parte da NATO, de desen- volver a sua influência e, consequentemente, alcançar poderio no dito mar. Prevê-se ainda que a Rússia poderá unir esforços a fim de criar clivagens no seio da NATO, de modo a abalar a missão da organização naquele território (Lamrani, 2016).
Figura 9 – A Política de Containment dos Estados Unidos
Considere-se, portanto, que a NATO constitui um dos fatores de impedimento expansionista da Rússia (Daehnhardt, 2010). Contudo, caso a situação se converta e os EUA se aliem à Rússia em deterioramento da NATO, seria extremamente mais fácil para a Rússia dominar a “Ilha Mundo” (Stratfor, 2017). Tal parecia posível no início do man- dato de Donald Trump, algo que agora não se verifica viável. Particularmente desde a intervenção militar na Ucrânia, as relações entre a NATO e a Rússia são cada vez mais hostis. Nos últimos meses, essas querelas foram intensificadas, não só devido ao alegado envolvimento russo no caso de espionagem Skripal (o primeiro uso ofensivo de um
agente de gás dos nervos no território da Aliança desde a sua fundação), causando uma rutura diplomática entre os países da Aliança e a Federação; mas também pelo alinha- mento da Rússia com o governo de Assad, na Síria, apontado pela NATO como o autor dos ataques de armas químicas contra civis em Douma, a 7 de abril de 2018, fortemente condenados pela Aliança (NATO, 2018). Com efeito, prevê-se que os EUA mantenham a posição estratégica de conter o avanço expansionista da Rússia, assumida desde 1991, ao proferir que iriam reunir esforços contra o país “quando e onde [a Rússia] perpetuasse um risco de aumento de influências” (Idem, 2017).
A “parceria estratégica” entre a Rússia e a UE verifica-se frágil, sobretudo após as denominadas “guerras do gás” entre 2006 e 2009 (Simão, 2014), dada a extrema relevân- cia que esta questão assume para a Rússia, essencialmente por se tratar de um dos princi- pais produtores mundiais de gás natural (Unit, Energy, Russia, 2016). Como tal, a tenta- tiva de aproximação da Ucrânia à UE e aos EUA não foi bem aceite por parte da Rússia. Deste modo, depreende-se que o Ocidente enfrenta hoje um desafio geopolítico no qual a Rússia reclama e o Ocidente persegue (Oliveira, 2016). Este facto põe em causa a ordem euro-atlântica criada aquando o final da Guerra Fria (Idem, 2016). A crise na Ucrâ-
nia constitui uma das maiores ameaças à segurança europeia desde o fim da Guerra Fria, uma vez que o país está a ultrapassar os termos estabelecidos na nova ordem mundial (Oliveira, 2016).
Neste âmbito, muito devido ao aumento das quezílias entre russos e ocidentais, prevê-se a diminuição da viabilidade e coesão da Ucrânia, exponenciando a divisão entre os povos da mesma nação, pondo em evidência as origens russas de alguns (Simão, 2014). As linhas de divisão são cada vez mais evidentes, sobretudo após a radicalização de posi- ções, no seio político e social, relativamente ao Ocidente e à Rússia (Idem, 2014). é de
salientar que os futuros governos da Ucrânia devem conferir especial atenção à constru- ção de políticas de acomodação de interesses entre ambas potências – os antigos blocos ocidental e de Leste (Idem, 2014). Neste contexto, pode-se verificar a divisão dos povos
através dos votos, das eleições de 2010 que, consequentemente, dividiram o país. Paralelamente, das teorias mencionadas de Mckinder pode-se inferir, essencialmente, que no contexto geopolítico e geoestratégico, e sendo a Rússia o país com a maior área a nível mundial, caso conseguisse expandir o seu território, como logrou fazer na época da Segunda guerra Mundial, expandindo-se através da sua ideologia e dominando, assim, uma vasta área de países; a Rússia dominaria o mundo (1919). Esse propósito mantém-se o seu objetivo – de acordo com a tese da presente investigação – pretendendo projetar-se
na horizontal para o Ocidente, através do Oceano Pacífico, e verticalmente para as águas quentes do índico. Denote-se, também, a importância estratégica do Atlântico Norte, referida por Mckinder (1943). Neste âmbito, como referido anteriormente, a Rússia almeja consolidar um poder anfíbio de modo a materializar os seus objetivos expansio- nistas, procurando, para o caso, fazer frente ao bloco ocidental, o grande rival desde a eclosão da guerra Fria (Stratfor, 2017). Neste sentido, a sua estratégia materializa-se através de um incremento dos gastos na defesa, atingindo, progressivamente, os seus objetivos a nível militar.
Figura 10 – Incidência dos votos nas diferentes regiões ucranianas nas eleições de 2010
Fonte: Simão (2014).
Ainda no seio do estreitamento de relações com o Ocidente, o projeto energético
Nord Stream pode incrementar a “parceraria de modernização” acordada entre a Federa-
ção Russa e a Alemanha (Fânzeres, 2014a). O governo de Angela Merkel aludiu a esta parceria estratégica não só num quadro económico, mas também “na luta contra o terro- rismo internacional” numa abordagem favorável ao fortalecimento “de uma parceria efe- tiva entre a UE e a Rússia” (Freire, 2001a, p. 71). neste âmbito, ressalve-se o perigo da aliança nos moldes do referido por McKinder. Contrariamente, o projeto Nord Stream é
criticado pelos EUA, que acredita acarretar “potencial para projetar influências negativas no relacionamento euro-atlântico e incremento da capacidade de influência russa na Europa ” (Fânzeres, 2014a, p. 56); bem como pela Ucrânia, que em consequência do projeto, permanece dependente da Rússia (em termos energéticos e, consequentemente, económicos e políticos). Este projeto trata-se de uma pipeline de gás natural, que atravessa
O projeto pode ser tido como o reconhecimento de parte a parte da necessidade de coo- perar. Todavia, dadas as vantagens geoeconómicas resultantes para a Rússia, intui-se que se trata de uma cooperação favorável à própria Federação, na qual países como a Ucrânia, os Estados Bálticos e Bielorrússia se mantêm subjugados à mesma (Fânzeres, 2014a). Paralelamente, aumenta a influência germano-russa (e o perigo desta aliança) na Europa Central e de Leste, assim como marca o fim do monopólio de gás natural por parte da Bielorrússia e Ucrânia em direção à Europa.
Figura 11 – Budget de gastos militares em 2017
Fonte: IISS The Military Balance (2018).
Ao retirar à Ucrânia as funções de trânsito para a Europa, nomeadamente através da criação dos gasodutos Nord Stream e South Stream, a supremacia da Federação eleva-se e,
em simultâneo, a distribuição energética para a UE mantém-se coesa. No entanto, a Rús- sia depara-se com o declínio de produção nas províncias energéticas em que tem baseado os seus fornecimentos à Europa. Assim, de modo a superar esta limitação, a sua estratégia tem-se focado na militarização do Ártico, de modo a desenvolver, naquela região, novas províncias setentrionais em busca de novas reservas de petróleo (Silva, 2017). A Rússia utiliza a energia para consolidar a sua influência na Europa mantendo o completo domí- nio no abastecimento energético dos antigos Estados-membros da URSS que, atual- mente, formam parte da NATO e UE.
Tendo a Rússia violado o regime de fronteiras na Europa, demonstrando ser uma potência soberanista, as relações com o Ocidente deterioraram-se, resultando em sansões para a Federação. Acresce ainda os Acordos de Associação da União Europeia com a Moldávia, Ucrânia e Geórgia, três Estados com conflitos territoriais com a Rússia, sobre os quais esta poderá “desferir novo golpe” (Rachman, 2011, p. 311). A UE considera que os seus próprios interesses securitários podem ser postos em causa, resultantes dos atos russos. Não obstante, apesar de tudo indicar que a Rússia desvalesse para um clima iso- lacionista, o estreitamento de relações económicas entre a Federação Russa, a Alemanha, França e Itália (Fânzeres, 2014b), pode significar uma harmonização cooperativa que, em último caso, se refletirá nas relações Rússia-UE.
A 15 de feveireiro de 2017, o governo da Ucrânia declarou Estado de Emergência no setor energético. Tal sucedeu-se devido ao bloqueio energético perpetuado por grupos ultranacionalistas ucranianos da região de Donbass, sob o pretexto de que as trocas comerciais com territórios separatistas financiam as milícias armadas pró-russas, impe- dindo que a antracite (carvão produzido nos territórios pró-russos do leste), cujas reser- vas correspondem a cerca de 10% da produção de energia elétrica na Ucrânia – valor estimado –, chegue à zona oeste do país. Face a esta situação, a 15 de fevereiro de 2017, prazo entretanto alargado em maio, o governo da Ucrânia declarou o mencionado Estado de Emergência. O chefe do governo, Volodymyr groysman, advertiu que o bloqueio implicará o encerramento das indústrias metalúrgicas do país. Como consequência, prevê-se que cerca de 300 mil pessoas vão para o desemprego, conferindo menos poder de compra às populações, o que divergirá para períodos de instabilidade económica, aumentando assim a instabilidade politica e social no país (Jornal Económico, 2017).
A situação no Médio Oriente constitui, igualmente, uma vantagem a ser aproveitada pela Rússia, uma vez que, tratando-se do segundo país exportador de petróleo e gás natu- ral a nível mundial, a Federação vende armamento a outros países da OPEP (Organiza- ção de Países Exportadores de Petróleo), dado que estes dispõem de que meios para pagar as armas que compram, nomeadamente a Venezuela, Argélia, Irão e Malásia. Para além disto, a Arábia Saudita ofereceu-se para comprar armas à Rússia e Israel chegou a celebrar um acordo de cooperação militar com a Fedração, travando a venda dos sistemas de defesa anti-aérea ao Irão, que se prevê continuar a investir no desenvolvimento do desarmamento nuclear (Rachman, 2011).
Numa última consideração, intui-se a existência de neoimperialismo por parte da Federação, nomeadamente através de concessões económicas, descontos astronómicos e outros exemplos já aqui referidos. A Rússia vai, gradualmente, avançando e aumentando a sua esfera de poder. Acresce ainda que as atuações dos Estados nas relações internacio- nais, e no presente caso, da Rússia, são imprevisíveis (Posen, 1993). Assim, dois cenários poderão resultar da presente prospeção: um futuro de cooperação e equilíbrio entre a Federação Russa e as potências ditas Ocidentais; ou, pelo contrário, uma rutura das rela- ções, provocando desequilíbrios na ordem internacional.