7 CULTURA ORGANIZACIONAL E OPERACIONALIDADE DO DISCURSO DE
7.5 Considerações preliminares do corpus documental analisado
O debate em torno do enfrentamento às desigualdades socioeducacionais é costurado em diversos arcabouços teórico-metodológicos. Geralmente vemos tais iniciativas através das legislações, diretrizes ou dos documentos que orientam as organizações sociais, especialmente as escolares. Com isso, destacamos que as considerações elencadas neste tópico se constituem numa síntese das ponderações que foram se organizando enquanto a pesquisa documental foi evoluindo.
Sendo assim, identificamos que, em relação à análise do PEE-RN, alguns elementos foram sendo percebidos como um discurso mais geral que se mostrou em consonância com as
políticas de enfrentamento às desigualdades socioeducacionais. Essa percepção permitiu detectar, apenas no plano da composição manifesta, os enunciados presentes na narrativa do documento, ao passo que, de posse do movimento analítico orientado pela ACD perpetrado no documento, fez emergir outras leituras.
Primeiramente, notamos que o discurso de enfrentamento ora sinalizado não se sustenta, pois, mesmo os enunciados espelhando uma disposição de coerência com as mudanças no discurso, eles não potencializam o discurso de enfrentamento às desigualdades educacionais. E por quê? Pela formalidade retórica dos enunciados e o grau de adorno expresso na sua composição, e, principalmente, pelas copiosas propostas que em alguns casos fogem à realidade concreta da educação básica do nosso contexto. Esses são aspectos que, em larga medida, não comungam de fato com o discurso de enfrentamento comprometido com a transformação da educação básica.
Ressaltamos que a percepção apresentada acima é recorrente na Dimensão 2 – meta l;
meta 2 e suas respectivas estratégias, bem como na dimensão 8 – meta 1 e suas estratégias do PEE-RN. Particularmente, no tocante à última dimensão, identificamos que as políticas de enfrentamento narradas nela não têm sido acompanhadas no campo das organizações escolares pesquisadas. Com isso, percebemos que nos documentos internos das organizações destacadas, como PPP, PGE, PDP e ARCE não contemplam de forma uniforme o desdobramento apontado na referida dimensão.
O que verificamos de fato nos documentos foram ações isoladas que uma ou outra organização tende a promover e, ainda assim elas não conseguem fortalecer o discurso de enfrentamento às desigualdades numa perspectiva de transformação das práticas sociais.
Contudo, evidenciamos que, nessa direção, haveria uma desconexão entre o que propõem as políticas de enfrentamento às desigualdades socioeducacionais no Plano Estadual de Educação e a sua operacionalização no contexto das organizações escolares pesquisadas.
Em relação às análises realizadas a partir do PPP, PGE, ARCE e PDP, identificamos alguns resultados, estes concebidos a partir do exercício analítico, perpetrados na ACD e na exploração das estruturas manifestas nos enunciados dos documentos referendados. Em que pese o primeiro documento, contamos com seis variáveis e nos demais, optamos por afirmações e indagações estabelecidas no início da análise de cada um documento.
Na interlocução desse movimento, evidenciamos que o PPP das organizações em análise demonstrou que a Cultura Organizacional das escolas sinalizou diferentes formas de discursos. No entanto, dois deles são vistos com mais atenção. Decorrente disso, percebemos, de forma quase unânime, na leitura dos projetos que as organizações escolares apresentam
formas de enfrentamento às desigualdades educacionais lidas na estrutura manifesta do texto.
Lembrando que os aspectos que denotam estratégias de enfrentamento não percorrem o documento como um todo, são termos que aparecem dispersos no decurso do mesmo. Nesse sentido, identificamos a construção de um discurso de enfrentamento às desigualdades socioeducacionais que vem lentamente se constituindo na Cultura Organizacional das organizações escolares investigadas. O que nos levou a concluir pela circularidade de um discurso preocupado com a democratização da educação básica.
No aprofundamento das análises, aferimos, que nem todos os PPPs buscaram estratégias coerentes com as mudanças das práticas pedagógicas, da aprendizagem e da gestão escolar democrática. Há projetos que não deixaram claro o compromisso da organização escolar, tanto com a aprendizagem quanto com o processo de democratização da gestão. Diante do exposto e do olhar atento, concluímos que o discurso de enfrentamento às desigualdades socioeducacionais não está presente em todas as escolas analisadas, e naquelas que ele aparece não potencializam a política de enfrentamento pelas razões já elencadas no capítulo.
As análises realizadas a partir do PPP das escolas: EA, EB, EG, ED e EE, se mostraram bastante premente para compreender as práticas operadas pela Cultura Organizacional das organizações escolares pesquisadas e do discurso de enfrentamento das desigualdades reverberadas nesse contexto. Consideramos pertinente destacar que nenhum PPP se forja separado da CO, uma vez que ela é também um espaço de disputas e negociações. Além disso, percebemos que as ações expressas nos documentos representam valores, tradições, rituais e comportamentos, canalizados na maioria das vezes pelas subjetividades dos sujeitos. Sendo assim, destacou-se que o PPP da EA tem conexão com as variáveis elencadas que indagaram:
“Que aspectos identificam a Cultura Organizacional escolar?” e “Como a OE dialoga com a perspectiva da desigualdade de acesso, tratamento e conhecimento?” Ao mesmo tempo em que demonstrou um discurso que sinaliza aspectos de práticas de enfrentamento, logo é reprimido.
Assim, concluímos que o discurso operado na Cultura Organizacional apesar de expressar elementos sobre as desigualdades, não potencializa o discurso de enfrentamento às desigualdades socioeducacionais.
No PPP da EB, percebemos que a Cultura Organizacional materializa suas práticas no viés de uma cultura instituinte. Priorizando, portanto, os processos de construção, elaboração a partir do coletivo. Percebemos que o discurso de enfrentamento teve uma maior representatividade, pois a própria forma de organização das práticas pedagógicas possibilitou a dimensão do enunciado.
Elencamos que a análise desta escola apontou conexão tanto com a variável a apontada acima, como a variável d que questionou “Qual referência a cultura faz em relação ao direito à educação? bem como a e que questionou “como a OE dialoga com a perspectiva da desigualdade de acesso, tratamento e conhecimento? Estas como já definido mantém propósito de compreensão da Cultura Organizacional, organização e enfrentamento às desigualdades. Já em relação ao PPP da EG, identificamos que a referida demonstra um discurso de enfrentamento que está para além da cultura instituinte. Na verdade, constatamos nesta organização escolar, foi um discurso que demonstrou, num primeiro momento, um caráter de resistência, já em outro deu ênfase ao discurso dominante. Daí, concluímos que movimento contraditório dentro da mesma estrutura organizativa não possibilita que o discurso de enfrentamento seja efetivado em sua concretude.
Sobre o PPP da EG, foi possível destacar que o discurso de enfrentamento à desigualdade socioeducacional, perpassou por duas perspectivas: Uma concepção hegemônica e uma perspectiva de resistência. Esse comportamento não fortalece a Cultura Organizacional da organização na construção da transformação das práticas sociais, pelo contrário, é peremptório no enfraquecimento de um discurso de enfrentamento. Nesse resultado, consideramos que e os desdobramentos sinalizados estão inscritos nas variáveis “a” e“c”, como na variável f, que perguntou: Que/Quais aspectos representam o enfrentamento à desigualdade socioeducacional do PPP das organizações escolares? Salientamos que ambas as variáveis foram contempladas no escopo analítico da organização analisada.
No tocante ao PPP da ED, evidenciamos que as práticas sociais realçadas nele perpassaram, no primeiro momento, pela perspectiva da cultura do instituído. No segundo momento, identificamos que a Cultura Organizacional da organização segue uma perspectiva alinhada com a cultura instituinte. Nessa construção, consideramos que a variável “d”, tem conexão com as interpretações tomadas nessa organização. Isso possibilitou o entendimento de que os aspectos de mudanças na Cultura Organizacional estão fortemente ligados às práticas mediadas nos espaços dialógicos.
Com vista ao PPP da EE, notamos que ele expressa, em larga medida e de forma direta, os elementos integradores da Cultura Organizacional, dimensão que não foi percebida com o mesmo teor nos demais documentos. Evidenciamos que os enunciados constantes no PPP representam processos diferentes, fatos e perspectivas desenhados no escopo do mesmo que não seguem a mesma direção. Da mesma forma, identificamos um discurso enfraquecido, pois está refém da visão de progresso e retrocesso ao mesmo tempo. No entanto, percebemos que as
variáveis que mais dialogam com os achados desta organização, são “a” e “d”, conforme demonstrado anteriormente.
No conjunto das análises, constatamos que a concepção de gestão escolar operada no PPP das organizações transitou em três nuances, nas quais a primeira, representou uma perspectiva gestionária com um perfil centralizador integrado à Cultura Organizacional; a segunda, foi marcada por um discurso que ultrapassa a perspectiva hegemônica; na última, verificamos que a gestão escolar tem forte ligação com a cultura instituinte, bem como integra o princípio da autonomia, conforme a leitura do documento. Acrescentamos ao escopo, a ideia de que gestão escolar está sempre imersa em valores e, estes por sua vez confirmam o caráter da gestão que se realiza. Postura na qual congrega um dos nossos argumentos reverberados neste estudo, de que a tanto a gestão produz influência na Cultura Organizacional da escola, como vice-versa.
As análises do PPP das escolas demonstraram a existência de diferentes tipos de desigualdades presentes nos documentos. Diante disso, examinamos as dez categorias delimitadas para o estudo. Salientamos que todas receberam o tratamento analítico, mas destacamos nessa parte, alguns dados.
O combate às injustiças, por exemplo, é elencado por apenas dois PPPs, importando em 40% das organizações. Sobre a perspectiva de educação integral, notamos que 100% das organizações tomaram esse elemento como norte; identificamos que 80% dos projetos defendem a desigualdade de acesso. Por outro lado, houve categorias que não foram contempladas em nenhum dos documentos, como é o caso da desigualdade de gênero que quase não foi citada nos projetos. A categoria do preconceito e racismo sequer foi sublinhada no corpus de análise, o que nos leva a concluir que a Cultura Organizacional da escola não projetou um discurso de enfrentamento aglutinado e contextualizado com as demandas vigentes. Basta olhar que em relação a categoria da inclusão, foi demonstrado em 100% das organizações. No entanto, o que constatamos é que foi um discurso sobre a inclusão que defende, em larga medida, a inclusão no plano da formalidade.
Aprofundando, o exercício analítico, observamos que o PGE da EA, promove um discurso de enfrentamento de forma mais geral. No entanto, o que lemos de modo aproximado no discurso operado neste, é que ele passa a transitar em dois campos discursivos. Portanto, podemos concluir por um lado, que o discurso se mantém, mas dentro de um fraco potencial no combate às desigualdades; por outro, se constatou que a representação dos Conselho escolar não dispõe de força representativa na materialização da gestão. Nesta construção, percebemos que a Cultura Organizacional da escola, representa aspectos bastante relevantes para a
compreensão da gestão escolar, uma vez que, os valores ideológicos, as subjetividades e as experiências cotidianas presentes na organização determinam o perfil da cultura de uma escola de uma organização.
O PGE da EB evidenciou de imediato que a cultura do instituído mantém uma forte relação com o discurso de enfrentamento. No entanto, essa perspectiva não apontou estratégias que potencializam o enfrentamento. Isso porque entendemos que a prática do instituído se mantém na medida em que legitima o discurso oficial. Decorrente disso, percebemos que a perspectiva de cultura ora vista, vem demonstrando que a Cultura Organizacional representa enunciados, como, o direito à Educação e direito de aprendizagem, ao passo que tais elementos não se configuram numa postura democrática. Na verdade, o discurso que remonta a cultura do instituído, logo, não é progressista 一 percepção que temos assumido no escopo desta tese.
As análises do PGE da EG possibilitaram perceber que a gestão busca melhorar as desigualdades, muito embora percebemos que o discurso impresso nessa direção não é crescente. Por outro lado, notamos que prevalece em grande parte do Plano o discurso visto como retórico. Neste momento, foi observado nas ARCE, que os membros do Conselho possuem uma postura hegemônica caracterizada pela unanimidade do silêncio.
Seguindo o PGE da ED, verificamos que o discurso operado nele representa uma perspectiva de dubiedade, isso quer dizer que ele atua tanto na perspectiva do progresso, quanto representa, o retrocesso. No tocante à ARCE, percebemos uma baixa representação dos membros nas assembleias, ao passo que a figura do gestor prevalece como dominante, caracterizando-se um discurso centralizador por parte da gestão escolar dessa organização.
No PGE da EE, observamos que o discurso de enfrentamento às desigualdades socioeducacionais é expresso, mas por outro lado, se verificou que ele possui um caráter contraditório que vai de encontro aos projetos que a organização idealiza promover. Nas análises das ARCE, identificamos uma baixa representação dos membros do conselho e uma forte presença da gestão, o que conclui que o discurso emplacado pela gestão escolar é sem dúvida centralizador. Esse comportamento vem sendo observado, principalmente, nas análises ARCE das organizações pesquisadas.
No tocante aos PDP, percebemos que eles apresentaram, por um lado, uma postura que sinaliza o enfrentamento às desigualdades socioeducacionais observadas a partir das pautas situadas neles, como também identificamos que as propostas demarcadas no conjunto dos projetos não potencializaram o discurso do enfrentamento às desigualdades. Além disso, identificamos, com relação à forma e o conteúdo prescritos nos mesmos, uma proposta muito
resumida, a qual não explicitava com clareza uma conexão entre o que se propunha e os objetivos traçados.
Destacamos que das cinco escolas que solicitamos os referidos documentos, duas delas não apresentaram ou não nos enviaram. Contudo, concluímos que os projetos analisados, representaram, a nosso ver, pouca influência no discurso de enfrentamento à desigualdade socioeducacional, até mesmo pelo próprio caráter de superficialidade e de sua baixa inserção nas escolas pesquisadas.
8 CULTURA ORGANIZACIONAL E O ENFRENTAMENTO À DESIGUALDADE NO CONTEXTO DA PESQUISA