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ANÁLISE DO QUADRO NEOTECTÔNICO

X. 2 - Considerações sobre a tectônica regional

Pretende-se aqui esboçar um quadro, mesmo que simplificado, das principais características dos elementos estruturais que condicionam os aspectos neotectônicos de toda a Bacia Sedimentar do Paraná (BSP). O objetivo desta abordagem é o de possibilitar uma melhor compreensão das características morfotectônicas da área do baixo curso do rio Ivinhema, que será tratado em item posterior.

A bacia intracratônica do Paraná representa o sítio de acumulação de rochas sedimentares e vulcânicas, com idades entre o Ordoviciano e o Cretáceo. ALMEIDA (1982) atribui a fase de consolidação e evolução final do embasamento ao Pré-Cambriano superior e ao Eopaleozóico, sendo, portanto, a mais jovem das bacias intraplataformais brasileiras. O Grupo Paraná e a Série Campos Gerais de GAMA Jr. et al. (1982) constituem o primeiro evento sedimentar de caráter basinal. Esta sedimentação teve início no Devoniano, depositando-se em um substrato consolidado no Cambro-ordoviciano.

ALMEIDA (1982) atribui o controle da sedimentação devoniana às zonas de fraqueza, herdadas de aulacógenos tardios (grandes grabens), de direções preferenciais NW-SE, e localizadamente, E-W.

Diferenças estruturais importantes ocorrem entre a margem oeste e norte da margem leste da Bacia Sedimentar do Paraná. Nas primeiras (FIGURA X.5), as estruturas são representadas por arcos paralelos à bacia, sendo destacado o Arco de Assunção, que, de acordo com SANFORD & LANGE (1960), corresponde à extensa flexura do embasamento. A mesma, para ZALÁN et al. (1990), tem seu desenvolvimento como possível resposta flexural da crosta aos primeiros movimentos orogênicos da margem ocidental da América do Sul.

Na margem oriental (FIGURA X.5 e X.6), as estruturas em arco são ortogonais, sendo que os arcos de Ponta Grossa e Rio Grande tiveram grande importância na configuração erosiva atual da bacia do Paraná, originando importantes reentrâncias nas bordas da bacia, verificadas nos estados do Paraná e Santa Catarina (QUINTAS et al.

1999).

Os arcos constituem elementos estruturais intervenientes na compartimentação tectônica das zonas plataformais, correspondendo a feições arredondadas com uma tendência ascencional marcante durante determinado tempo geológico. A idade da

BACIA CHACO-PARANÁ

BACIA DO PANTANAL

ARCO DE SÃO VICENTE

ARCO DE CAMPO GRANDE

FLORIANÓPOLIS

MONTIVIDEU

+

+

+

+

+

+ +

+

+ +

+

46ºw

24ºs

0 200 400

Fonte: Almeida (1986)

46ºW 16ºS

formação do Arco de Ponta Grossa (APG) ainda apresenta controvérsias por vários autores. FULFARO (1975) e ASMUS (1981) atribuem a formação do APG ao Triássico-Jurássico, concomitante ao soerguimento crustal, havendo-se formado posteriormente enxames de diques de diabásio de direção NW–SE nas regiões norte, centro e sul do APG. SILVA (1983) cita o papel expressivo do AP G no condicionamento da evolução tectônica da faixa oriental da Bacia Sedimentar do Paraná, desde o Devoniano, porém com atuação mais acentuada após o Carbonífero Superior. OLIVEIRA (1989), utilizando modelagem termomecânica, atribui a origem do APG ao efeito da carga de rochas ígneas extrusivas e dos sedimentos, sendo que os mecanismos termais estariam ligados à fase inicial de desenvolvimento do arco.

Diversos alinhamentos recortam transversalmente o Arco de Ponta Grossa, na direção NW-SE, sendo a feição superficial mais notável representada pelos enxames de diques de diabásio. A característica mais marcante do conjunto de alinhamentos refere-se ao paralelismo destas estruturas em toda a extensão do arco (FIGURA X.6 e X.7).

Estes alinhamentos são bastante reconhecidos na literatura geológica e são denominados de Alinhamento do Rio Piquiri, Alinhamento Guapiara, Alinhamento do Paranapanema, Alinhamento de São Gerônimo-Curiúva, Alinhamento Anhambaú-Ribeirão do Veado, e Alinhamento do Rio Tietê, tendo sido descritos por FULFARO (1974), COIMBRA &

BRANDT NETO (1977), FERREIRA (1982), ALMEIDA (1983), FULFARO et al.

(1982), SILVA (1983), PIRES NETO et al. (1994), RAPOSO (1995), MACHADO Jr.

(1999) e HASUI et al. (1999).

Segundo SILVA (1983), as duas fases de reativação desses alinhamentos estão associadas ao caráter ascencional do Arco de Ponta Grossa, sendo a primeira ocorrida no Mesozóico (Reativação Wealdeniana de ALMEIDA, 1969), e uma segunda, após o encerramento do vulcanismo basáltico, mantendo-se ativa no Ceno zóico.

JABUR (1992) acredita que o APG tenha exercido influência no controle deposicional, na geomorfologia e na própria configuração da rede hidrográfica da bacia dos cursos médio e alto do rio Paraná. Segundo SAAD et al. (1988) e JABUR (1992), o APG e os alinhamentos tectônicos interferiram no próprio arcabouço da Bacia de Sedimentação Caiuá, configurando nas isópacas dois depocentros projetados com direção NE-SW, separados pelo alto estrutural situado no Pontal do Paranapanema, como pode ser observado na FIGURA X.8.

FIGURA X.6 - Principais elementos tectônicos das Bacias Sedimentares do Paraná, Chaco - Paraná e Chaco - Paraguai (Modificado de PAIVA FILHO, 2000).

Através dessa figura observa-se que a Formação Caiuá apresenta seu término, de maneira abrupta, ao longo do Alinhamento do rio Piquiri, que corresponde a um alinhamento estrutural de maior importância na evolução da bacia. Para FULFARO &

BARCELOS (1991) a deposição da Formação Caiuá se deu em calhas cuja origem está relacionada a grabéns instalados no assoalho basáltico, sendo sua deposição de caráter eminentemente tectônico e conseqüentemente, de caráter endorreico, ou seja, de bacia fechada.

RICCOMINI (1997), analisando o arcabouço estrutural da Bacia Bauru, também aceita a idéia de uma origem tectônica para esta bacia, através de subsidência termal provocada pelo efeito de carga das rochas vulcânicas da Formação Serra Geral.

A importância dos alinhamentos de direções NE–SW é evidenciada pela posição ocupada pela calha do rio Paraná, entre a foz do rio Piquiri, no Estado do Paraná, e o Pontal do Paranapanema. Neste setor da Bacia do Paraná, o rio encontra-se em posição centralizada em relação à bacia Caiuá, coincidindo com sua direção (NE). Todos os lineamentos supracitados (NW, NE e EW) tiveram grande influência na sedimentação da Bacia do Paraná. O lineamento de direção NE, que teve grande importância na estruturação do rio Paraná, parece ter grande relevância no direcionamento de muitos de seus afluentes, inclusive no baixo curso do rio Ivinhema, cujos lineamentos estudados serão abordados mais adiante.

HASUI et al. (1978) afirmam que quando as evidências de falha coincidem com os alinhamentos principais (observados em imagem de satélite), estes apresentam direções preferenciais de movimentação. Este movimento se processa através de um grande número de pequenos deslocamentos que acompanham os vários sistemas de fraturas e não apenas um único sistema bem definido.

Do Neocretáceo ao Paleógeno intensa erosão de amplitude regional, denominada ciclo sul-americano (KING, 1956), acarretou na região centro-sul do país a destruição dos aparelhos vulcânicos mesozóicos e a exposição de diques e de outras estruturas subvulcânicas (ALMEIDA, 1986). Neste período também ocorreram episódios de deformação relacionados à evolução da Serra do Mar (ALMEIDA 1976 e ALMEIDA &

CARNEIRO, 1998).

FIGURA X.7 ALINHAMENTPOS

ALINHAMENTOS X.8 ISOPACAS