O PERFIL LONGITUDINAL DO RIO IVINHEMA: CONSIDERAÇÕES HIDRODINÂMICAS E GEOESTRUTURAIS
VIII. 4 - Perfil longitudinal do baixo curso do rio Ivinhema
Os processos erosivos e deposicionais que afetam o canal, promovendo alterações em seu perfil longitudinal, seguem modelos determinísticos, pois partem do princípio de que os rios ajustam suas declividades em resposta a mudanças do nível de base para manter o rio em equilíbrio. Estes ajustes apresentam como mecanismos básicos a incisão do talvegue durante estágios de nível de mar baixo (o mesmo pode ocorrer em relação a rios ou lagos) e deposição durante estágios de nível de mar alto.
Assim, os terraços a jusante poderiam ser facilmente correlacionáveis com os de montante.
BLUM (1994) questiona os controles do nível de base para o desenvolvimento de seqüências estratigráficas. Para o autor os controles do nível de base ocorrem nas partes a jusante e são guiados eustaticamente, enquanto a montante os processos deposicionais e erosivos são controlados climaticamente.
MERRITS et al. (1994) chegaram a conclusões semelhantes ao estudarem o desenvolvimento de terraços ao longo de três rios, na tripla junção do Mendocino, no norte da Califórnia. Estudos detalhados e datações radiométricas indicaram que as áreas
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do baixo curso são dominadas pelo efeito das oscilações do nível do mar, gerando processos agradacionais durante estágio alto de nível do mar, com formação de terraços preenchidos, cunha deposicional e decréscimo do gradiente do canal, alternando com incisão profunda, durante estágios mais baixos. O médio e o alto curso dos rios são dominados pelos efeitos de soerguimento de longa duração, de erosão lateral e vertical e formação de rupturas de declive e terraços rochosos isolados, expostos somente a montante da cunha deposicional (FIGURA VIII.4).
A resposta fluvial da alteração do nível de base constitui o foco de diversos estudos conceituais, teóricos e experimentais (HUMPHREY, 1991; POSAMTIER &
ALLEN, 1991; SCHUMM & ETHRIDGE, 1991). No presente estudo, procuramos estabelecer relações qualitativas entre a morfologia do canal, depósitos sedimentares e o perfil longitudinal do baixo curso do rio Ivinhema, buscando estabelecer correlação entre as diversas variáveis que afetam a declividade do canal e suas relações com os controles estruturais, tectônicos e de nível de base (FIGURA VIII.5).
O perfil longitudinal do rio Ivinhema, no seu baixo curso, apresenta um gradiente de relevo de aproximadamente 13 metros, ao longo de seu curso de 108 km (FIGURA VIII.5). Sua baixa declividade média, de 12cm/km, é constatada também pela monotonia do relevo.
A forma do perfil, representada pela superfície d’água, caracteriza-se por linhas retas interrompidas por pelo menos três segmentos mais curtos e de inclinação nitidamente mais acentuada, e representa anomalias locais (FIGURA VIII.5). O primeiro, situado a jusante, apresenta 2m de altura, distribuídos numa distância horizontal de 4km, resultando em 50cm/km de declividade média; o segundo, com 3m de altura e 6,5km de distância, apresenta 46cm/km de declividade média, e o terceiro, mais a montante, com 4m de altura, distribuídos em 6,5km de distância horizontal, resulta em uma declividade média de 61,5cm/km (FIGURA VIII.5).
O perfil do leito do rio demonstra uma série de irregularidades, com aspecto geral ondulado e profundidades máximas de cerca de 3,6m e 3,2m, do médio para o alto curso, e 5,0 e 6,0m do médio para o baixo curso (FIGURA VIII.5).
Um aspecto de grande relevância para a análise desse gráfico é a relação da baixa profundidade nos locais de declividades mais acentuadas, particularmente nos segmentos de quebra positiva do perfil. Esta relação, bem como sua própria representação gráfica, permite identificar soleiras junto ao canal do rio, representadas
FIGURA VIII.4 - Relações entre a planície de inundação, o piso do vale, e o desenvolvimento de terraços. A) Vale preenchido e subsequente episódio de incisão vertical, resultando na formação de um conjunto de terraços emparelhados, isolados e terraço esculpido e erodido no alúvio. B) Piso rochoso do vale seguido por súbita incisão vertical episódica, resultando na formação de um conjunto de terraços rochosos emparelhados, um pequeno terraço rochoso isolado e um terraço rochoso ativo, todos esculpidos a partir do substrato rochoso da parede do vale (Merrits et al., 1994).
PERFIL LONGITUDINAL
por cascalheiras ferruginosas, que se constituem em elementos de controle da declividade local (FIGURA VIII.5).
No campo, estes segmentos de maior gradiente são chamados, pelos moradores locais, de “corredeiras”, que representam locais de maior turbulência da água. Embora elas tenham sido encontradas em grande quantidade, não puderam ser mapeadas e representadas graficamente, por necessitarem de levantamentos altimétricos mais precisos.
Outras considerações também podem ser feitas, estabelecendo-se a relação entre o perfil longitudinal e a sinuosidade do canal. Como ainda pode ser observado na FIGURA VIII.5, os dois primeiros segmentos mais íngremes, de jusante para montante, os quais coincidem com as principais ocorrências de cascalheiras ferruginosas, representam setores do rio Ivinhema, no seu baixo curso, onde ocorre a predominância de curvas de meandros do tipo compostas, tanto simétricas como assimétricas, segundo a classificação de BRICE (1974), conforme já discutido no capítulo III. Estas curvas caracterizam-se pela ausência de qualidade harmônica, e suas inflexões formam, muitas vezes, cotovelos de 908, que denotam forte controle estrutural, fato este que será discutido em capítulo posterior.
No mapa geomorfológico (MAPA NO ENCARTE) pode-se observar a característica anômala dos meandros, que exibem em planta um padrão intermediário entre o reto e o sinuoso e comprimento de ondas de 6,6 a 5,4km, o que se constitui nos meandros mais amplos da área da pesquisa.
O segundo segmento, o de jusante, tem como principais características a forte sinuosidade do canal do rio Ivinhema (FIGURA VIII.5) e a formação de depósitos de barras de meandro no interior das curvas. Em perfil, este setor apresenta uma relativa homogeneidade, contrastando com o setor de montante. Estas características permitem supor um controle do canal e da morfologia dos depósitos, condicionadas pelo nível de base representado pelo rio Paraná, e por fatores tectônicos, que serão abordados mais adiante (FIGURA VIII.5).
A partir das correlações feitas acima, podemos concluir, até o momento, que o canal do rio Ivinhema apresenta dois compartimentos estruturais. O primeiro, a montante, está condicionado estruturalmente e apresenta cascalheiras ferruginosas, sendo que algumas, fraturadas, formam soleiras. Estas soleiras e seus respectivos fraturamentos geram um padrão diferenciado de meandramento, com comprimentos de
onda maiores e curvas de até 908. O segundo compartimento, de jusante, está associado a controles exercidos pelo nível de base local, constituído pelo rio Paraná, e por fatores tectônicos.
VIII.5 - Relações entre o perfil longitudinal e os processos morfogenéticos e