Ao propor-nos pesquisar como os trabalhos voltados ao ensino de Ciências são desenvolvidos em um curso de formação inicial de professores polivalentes, fundamentalmente devemos nos reportar às definições que os saberes docentes podem assumir, tanto do ponto de vista deste sujeito em seu próprio processo formativo quanto de sua atuação como professor de outros sujeitos – nesta pesquisa, os educandos dos anos iniciais da Escola Básica. Neste sentido, consideramos que os saberes docentes – aqui entendidos enquanto um saber plural, formado pelo amálgama de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais (TARDIF, 2002, p.36) – constituem-se como elemento balizador de nossa discussão.
Os saberes docentes, propostos por Tardif (2002), inserem-se nesta análise por entendermos que, para além de uma competência técnica e pedagógica por parte do docente, necessário se faz que tais competências estejam ancoradas nos saberes necessários a uma prática docente que possa, necessariamente, promover uma formação indispensável às demandas tanto da sociedade quanto dos sujeitos aprendizes. Os saberes propostos por este autor são compostos e derivados de diversas fontes, dentre as quais a que se origina na academia, fruto da formação inicial e/ou continuada, de onde derivou nosso foco de análise.
[...] todo saber implica um processo de aprendizagem e de formação; e, quanto mais desenvolvido, formalizado e sistematizado é um saber, como acontece com as ciências e os saberes contemporâneos, mais longo e complexo se torna o processo de aprendizagem, o qual, por sua vez, exige uma formalização e uma sistematização adequadas. (TARDIF, 2002, p.35).
Posto isso, procedemos com uma breve descrição sobre os saberes docentes para, junto com os pressupostos para o ensino de Ciências aqui advogados, dialogar com os dados de nossa pesquisa, de forma a traçar uma descrição desta formação e analisar os aspectos mais fundantes, relacionados ao objeto de trabalho assim como as necessidades formativas derivadas da relação formativa profissional, no âmbito da universidade, e formativa pré- profissional, no âmbito de sua experiência anterior a sua formação acadêmica.
De acordo com Tardif (2002), os saberes dos professores articulam vários elementos. Entre eles, um próprio saber-fazer pessoal, os saberes curriculares, os presentes nos programas e nos livros/manuais didáticos e nos conhecimentos específicos das disciplinas ensinadas e, também, naqueles oriundos de sua formação profissional. Estes saberes também dependem de condições objetivas nas quais o trabalho se desenvolve bem como da personalidade e experiência profissional destes atores educacionais.
Neste sentido, os saberes que constituem o saber docente são compreendidos, segundo Tardif (2002, p.35-39), da seguinte maneira: saberes da formação profissional, que englobam os saberes profissionais (transmitidos pelas instituições formativas) e saberes pedagógicos (concepções emanadas das reflexões sobre a prática educativa); saberes disciplinares que correspondem aos conhecimentos das disciplinas transmitidos nos cursos de formação – saberes estes frutos da tradição cultural dos grupos sociais produtores de saberes; saberes curriculares que se apresentam sob a forma de programas escolares que o professor deve aprender e aplicar; e os saberes experienciais, que surgem a partir da experiência dos professores em sua prática diária, incorporando-se à experiência tanto individual quanto a coletiva sob a forma de habilidades, de saber-fazer e de saber-ser.
Posto isso, são, especialmente os saberes disciplinares, relacionados aos conhecimentos transmitidos nos cursos de formação inicial, que são utilizados na descrição e análise feita sobre a formação deste professor. A partir desta análise, os saberes experienciais também foram evidenciados na discussão, não mais apenas referindo a sua experiência enquanto professor (regente ou estágio), e sim, referindo à sua experiência enquanto discente da educação básica, entendidos também enquanto saberes pré-profissionais, dado que a fragilidade no que tange ao conhecimento de conteúdos específicos do campo das Ciências Naturais é muito presente nesta categoria profissional.
Tardif (2002), ao propor um modelo tipológico para os saberes dos professores, organiza-os considerando o tipo de saber, as fontes sociais de aquisição e os respectivos modos de integração no trabalho docente. Segundo este modelo, os saberes provenientes da formação para o magistério, cujas fontes referem-se aos cursos de formação docente (inicial ou continuada), integralizam-se ao trabalho docente mediante formação em si e socialização profissional nestes centro de formação (TARDIF, 2002, p.63).
Saberes dos professores Fontes sociais de aquisição Modos de integração no trabalho docente
Saberes pessoais dos professores A família, o ambiente de vida, a educação no sentido lato, etc.
Pela história de vida e pela socialização primária Saberes provenientes da formação
escolar anterior
A escola primária e secundária, os estudos pós-secundários não especializados, etc.
Pela formação e socialização pré- profissionais
Saberes provenientes da formação profissional para o magistério
Os estabelecimentos de formação de professores, os estágios, cursos de reciclagem, etc.
Pela formação e pela socialização profissionais nas instituições de formação de professores Saberes provenientes dos
programas e livros didáticos usados no trabalho
A utilização das “ferramentas” dos professores: programas, livros didáticos, cadernos de exercícios, fichas, etc.
Pela utilização das “ferramentas” de trabalho, sua adaptação às tarefas
Saberes provenientes de sua própria experiência na profissão, na sala de aula e na escola
A prática do oficio na escola e na sala de aula, a experiência dos pares, etc.
Pela prática do trabalho e pela socialização profissional.
Quadro 1: Tipologia dos Saberes dos professores Fonte: TARDIF (2002).
Além de registrar a natureza social e como estes se saberes comporá a sua ação junto ao trabalho docente, Tardif (2002) sinaliza que
[...] pode-se constatar que os diversos saberes dos professores estão longe de serem todos produzidos diretamente por eles, que vários deles são de certo modo ‘exteriores’ ao oficio de ensinar, pois provém de lugares sociais anteriores à carreira propriamente dita ou situados fora do trabalho cotidiano. (TARDIF, 2002, p.64).
Este mesmo autor considera que a partir dos tipos de saberes que o professor adquire ao longo da formação e antes mesmo dela, há aqueles que servem de base para o ensino caracterizado, aparentemente, por um sincretismo que significa, em primeira instância, que seria improfícuo procurar uma unidade teórica, mesmo que superficial, no conjunto de conhecimentos, posto que estes não se esforçam em unificá-la e, quando o fazem, não se baseiam em coerência teórica e, sim, pragmática e biográfica.
Em segunda instância, sincretismo significa que a “[...] relação entre os saberes docentes e o trabalho docente não pode ser pensado segundo o modelo aplicacionista da racionalidade técnica utilizado nas maneiras de conceber a formação do profissional”, quando o comum é a prática sucedendo a teoria, convergindo para a formação de um repertório de conhecimentos (TARDIF, 2002, p.65).
Quando consideramos que é os saberes da formação profissional o foco de análise para a discussão da formação do professor polivalente, percebemos que não são apenas os saberes veiculados nos cursos de formação docente os elementos de análise, uma vez que os conhecimentos pré-profissionais servirão de base para que qualquer saber possa ser desenvolvido junto às fontes sociais de aquisição.
Logo, são, conjuntamente, os saberes pré-profissionais e profissionais os saberes requisitados para a análise e discussão da formação do professor para atuação no ensino de Ciências na educação básica, dado que os conhecimentos pré-profissionais, presentes tanto na escolarização básica quanto na ambiência familiar, por exemplo, constituem a base para que os saberes provenientes da sua formação, enquanto professores, possam ser trabalhados junto aos currículos formativos das instituições de ensino superior.
É o conhecimento desenvolvido durante a escolarização básica que constituirá parte fundante do conhecimento que será desenvolvido na formação desse sujeito, nos cursos superiores de formação docente, quando estão presentes, na escolarização básica, três perfis de professores que trabalharam com o ensino de Ciências, considerados o Ensino Fundamental e Ensino Médio: o professor polivalente e o professor especialista.
Figura 1: O Professor Polivalente e a construção dos conhecimentos da formação escolar na Educação Básica Fonte: Elaborado pela autora (2012)
Considerando o perfil do professor que atua nos cinco primeiros anos do Ensino Fundamental, vários são os elementos que suscitaram desta análise. O primeiro corresponde à própria natureza plural dos saberes docentes, especialmente, em nosso caso, os referentes à formação profissional. Outros, de extrema relevância, são os saberes que servirão de base para a (re)construção, consolidação e aprofundamento destes conhecimentos durante a formação profissional, fruto do seu processo de escolarização básica, sem esquecermos, contudo, aqueles oriundos também de uma condição pré-profissional, referentes à sua socialização primária (família e ambiente).
Mas, para além de termos nos baseado, inicialmente, nos conhecimentos específicos em Ciências Naturais abordados na matriz curricular, categorizados como saberes disciplinares, o que mais se evidenciou como elemento carente de reflexões foi justamente o saber fruto da escolarização básica do professor em sua condição anterior de discente, pontos discutidos na análise dos dados da pesquisa. Posto isso, apresentamos os históricos do Curso de Pedagogia no Brasil e do Ensino de Ciências, de forma a compreendermos as bases destes dois campos formativos que se entrelaçam nesta pesquisa.