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Constituição da masculinidade e da feminilidade

No documento Dissertação - Ana Carolina de Godoy (páginas 69-101)

2.2 R EFLEXÕES SOBRE O GÊNERO : MULHERES , FEMINILIDADE E A CONSTRUÇÃO

2.2.3 Constituição da masculinidade e da feminilidade

A partir do pensamento ocidental de binaridade, Karen Giffin (1994) afirma que ideias sobre “masculino/feminino são refletidas/imbutidas também nos conceitos de cultura/natureza, razão/emoção, sujeito/objeto, mente/corpo” (p. 151), e se aplicadas à construção de gênero, o homem é identificado com a cultura/mente/razão e a mulher à natureza/corpo/emoção. Essa binaridade

possibilita entender como se constituem as diferenças mais significativas entre identificações masculinas e femininas. A autora cita os estudos de Chodorow (1978), em que conclui que as meninas desenvolvem a identidade de gênero a partir da identificação com a mãe, por meio de uma relação continuada. Por sua vez, os meninos, inicialmente, desenvolvem a identidade de gênero não por meio da identificação plena com o pai ou outro modelo masculino, mas pela rejeição à mãe, pois precisa separar-se das características e qualidades femininas para estabelecer sua identidade masculina.

A negação ao feminino para constituir a masculinidade nos leva a crer que o processo de identificação com o masculino foi realizado em bases frágeis, o que faz com que o homem sinta sua identificação constantemente ameaçada pelo medo da desidentificação daquela formação ao reproduzir discursos ou comportamentos pertencentes à formação discursiva oposta, a do feminino.

Segundo Giffin (1994, p. 153)

quando o menino é forçado a negar suas semelhanças com a mãe, ocorre uma ‘diferenciação falsa’, na qual o outro, ao invés de reconhecido como outro sujeito, é objetivado cognitivamente. A menina, por outro lado, se identifica com um outro (mãe) desvalorizado.

Tal afirmação reflete a naturalidade com que a mulher é objetificada, pois ambos, homem e mulher, construíram esse efeito em seus processos de identificação de gênero. Inconscientemente, por meio da diferenciação e do reconhecimento, a origem psicológica da dominação caminha lado a lado com a identificação.

Masculino e feminino constituem relações produzidas e legitimadas cultural e historicamente, fazendo com que as configurações de masculinidades variem conforme as condições em que são produzidas. Freitas (2015), com base em Badinter (1993), diz que o processo de identificação com o masculino envolve fatores psicológicos, sociais e culturais que não consideram a genética e que, talvez, desempenhem papel mais importante do que ela. Tal afirmação vai ao encontro do que diz Matos (2001), lida em Freitas (2015), criticando estereótipos masculinos ligados a características ditas biológicas e inerentes a eles, como, por exemplo, força, agressividade, decisão e poder.

Com base nos pressupostos aqui discutidos, passamos, em seguida, à descrição dos grupos de análise pertinentes a esse capítulo, a saber: “Imaginário e representações do sujeito-mulher: regularidades e equívocos” e “Sujeitos- masculinos: representação de força, sucesso financeiro e competência”.

Grupo I: “Imaginário e representações do sujeito-mulher: regularidades e equívocos”

Este grupo é composto por três materialidades que circularam entre os anos de dois mil e oito e dois mil e dezesseis. O “texto-imagem 01” é materializado na revista Adega, de fevereiro de 2008; o “texto-imagem 02”, na revista Go Where

Gastronomia, de março de 2012; e o “texto-imagem 03”, na revista Caviar, de julho-

agosto de 2016. Encontramos, nessas materialidades, regularidades relacionadas ao gênero, tais como a associação de mulheres a efeitos de sentido diretamente ligados a “moda”, “beleza”, “charme” e “elegância”, que remetem ao imaginário construído em torno das mulheres na posição-sujeito de liderança na cozinha, ou seja, ressoam efeitos que conferem ao sujeito-feminino a posição natural de cozinheira, mesmo quando ocupam a liderança. Por isso, talvez, as representações desses sujeitos, nessas revistas, causem certa estranheza, já que, parece-nos, as mulheres são representadas com certa futilidade, pois não estão autorizadas a ter destaque na posição-sujeito que ocupam, mesmo quando representadas na mídia especializada.

Em nossas análises, desenvolveremos melhor as premissas que aqui sustentamos.

Texto-imagem 01

Revista Adega, n. 28. Fevereiro/2008.14

Texto-imagem 02

Revista Go Where Gastronomia. Março/2012.15

Texto-imagem 03

Revista Caviar. Julho-Agosto/2016.16

                                                                                                               

14 Fonte: http://revistaadega.uol.com.br

Iniciamos nossas análises por três revistas especializadas em Gastronomia, isto é, revistas destinadas à formação discursiva da gastronomia, com matérias técnicas e/ou curiosidades sobre essa formação.

“Vinho & Moda”

O primeiro texto-imagem e a sequência discursiva de nosso corpus circulou na revista Adega, de fevereiro de dois mil e oito. Nele, vê-se a representação de uma mulher em preto e branco, com cabelos ondulados, olhos claros, colar e pescoço à mostra, anéis, unhas pintadas, tocando o pescoço com a mão direita e segurando uma taça de vinho com a mão esquerda. Ao lado da imagem, chamadas de matérias encontradas no interior da revista e, entre elas, a sequência discursiva que nos interessa:

O texto-imagem permite-nos destacar a representação de uma mulher bonita e elegante em meio a uma SD que sugere moda e elegância. Aqui, encontramos a primeira abordagem do sujeito-feminino relacionada a objetos de consumo, como, por exemplo, as joias e o vinho, que produzem efeitos de sentido apenas por aparecerem na imagem. Joias são relacionadas a luxo, delicadeza, elegância e poder. Este último não necessariamente relacionado às mulheres, mas a quem usa as joias. Trata-se de uma representação simbólica que constitui imaginários em torno de quem as adquire. O vinho, por sua vez, confere efeitos de sofisticação, conhecimento, classe e sacralidade. O efeito de sofisticação que ressoa a partir do vinho é histórico e ressoa pelo funcionamento de pré-construídos em torno da bebida.

Os sujeitos da forma-sujeito capitalista, interpelados pela ideologia capitalista, são amplamente bombardeados por estímulos ao consumismo e à exclusividade. A publicidade vende conceitos, estilos de vida, e não produtos, pois se desvencilhados de conceitos e ideologias, tais produtos não possuem valor de produção que                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

16 Fonte: http://mckassessoria.blogspot.com.br

justifique seus elevados valores finais. As joias utilizadas pela modelo do primeiro texto-imagem são um exemplo de valores ideologicamente atribuídos. A natureza não atribui valores monetários às pedras que produz, é o indivíduo interpelado em sujeito que pratica tal ação e é ele quem também define importância e valores.

O sentido de alto valor e, consequentemente, de exclusividade, mobilizam memórias que remetem ao universo da moda, em que mulheres, roupas, conceitos e corpos são trabalhados no imaginário como inatingíveis, únicos, glamorosos. Talvez seja esse efeito de sentido que a revista queira construir ao abordar o universo dos vinhos, sempre associados ao sucesso. Entretanto, o que nos provoca nesse texto- imagem é a figura da mulher para materializar a formulação de sentidos da revista. Aqui, efeitos de sentido ligados à elegância dão o tom da discursividade.

Outro ponto que nos chama atenção é a taça de vinho sustentada pela mulher. Por meio do vinho, ressoam memórias bíblicas, em que o vinho é a bebida sagrada, o sangue de Jesus. Foi o vinho a bebida multiplicada, materialização de um milagre. É o vinho a bebida oficial da Igreja, um Aparelho Ideológico de Estado. O vinho é carregado de sentidos, sua historicidade perpassa milênios e seu valor comercial é cada vez mais elevado.

Em um primeiro momento, do nosso lugar de análise, observamos efeitos de sentido que colocam a figura feminina representada nesse texto-imagem como enfeite ligado ao universo do consumismo e do luxo. Essa posição sustenta-se pela expansão e pela glamorização da formação discursiva gastronômica, materializada nas figuras do vinho e das joias, e pela histórica inferioridade imposta às mulheres. Vale destacar que a mulher aqui exposta não representa uma chef de cozinha, por isso nossa primeira interpretação ligada ao enfeite.

Não podemos deixar de lado os efeitos da dominação masculina abordada ao longo desse trabalho ao notarmos que, em meio às chamadas para as matérias contidas no interior da revista, duas palavras nos despertam atenção: “outros prazeres”. Os efeitos de sentido produzidos por essas palavras fazem com que interpretemos a dupla mulher e vinho como um prazer aos olhos masculinos; como algo palatável, degustável, consumível.

Um outro olhar faz com que concebamos o enunciado-imagem como algo da ordem do sagrado, em que o vinho produz efeitos de sacralidade, antiguidade, realeza, enquanto a mulher, com as mãos e o pescoço à mostra, é a pecadora, provocativa, aquela que seduz e, ao mesmo tempo, induz ao pecado. O trecho da

SD1 acerca dos “vinhos italianos” reforça nossa interpretação quando lembramos que o órgão máximo da Igreja Católica tem suas bases na Itália.

“Beleza à mesa”

A segunda sequência discursiva e o texto-imagem que nos propomos a analisar são encontrados na revista Go Where Gastronomia, de março de dois mil e doze. O texto-imagem é composto por enunciados-imagem de cinco mulheres com uniformes de chef, lenços coloridos e segurando utensílios domésticos – panelas, caçarolas, cupcakes – sobre um fundo vermelho e esses enunciados significam diferentemente, dependo do texto-imagem em que estão significando. A segunda sequência discursiva refere à beleza e ao sucesso, como vemos a seguir:

SD2: “Beleza à mesa: elas são jovens, lindas, bem sucedidas e exímias cozinheiras. Como nem tudo é perfeito, as mais belas chefs da cidade nunca estão livres nos fins de semana.”

Nessa sequência discursiva, os sujeitos-femininos são adjetivados como “lindas”, “jovens”, “belas” e “bem sucedidas”. Os adjetivos destacam marcas do sujeito perante a formação discursiva e social. Nesse caso, os sujeitos-femininos são marcados pela aparência, pela beleza e, por um tímido “bem sucedidas”, perdido em meio a tantas outras marcações. Um possível efeito de sentido que circula a partir das adjetivações relacionadas à aparência é o que confere a esses sujeitos a posição de naturalidade, pois o ambiente da cozinha é tão próprio da mulher que não faz sentido falar sobre as competências profissionais desses sujeitos, restando, apenas, observar suas características físicas.

Outro ponto relevante, nessa sequência discursiva, reside no enunciado “Beleza à mesa”, em que, gramaticalmente, a beleza é posta à mesa, servida. Outro possível efeito de sentido, proveniente desse enunciado, está na afirmação que a beleza dos sujeitos-femininos, amplamente adjetivada e explorada na sequência, está à disposição para ser consumida, comida. Sobre esse aspecto, Le Breton (2016) destaca que os sujeitos-femininos sempre são associados a alimentos, pois

Na língua francesa diz-se que a mulher é “um filé”, que é “apetecível”, “crocante”, “deliciosa”, “carnuda”, “deleitável”, “comestível”. Ou que ainda “está ao ponto”, “tragável” e “bem conservada”. Ela pode ser “devorada com os olhos”. Papos do gênero não são transferíveis ao sexo masculino (p. 460).

Não só na língua francesa, mas também na portuguesa, tais “adjetivos” também são atribuídos aos sujeitos-femininos. Dessa maneira, encontramos o trabalho da metáfora na sequência discursiva, pois os adjetivos citados por Le Breton (2016) foram substituídos por outros e condensados em uma única expressão – beleza à mesa – que produz o efeito de servir os sujeitos-femininos enquanto alimentos, objetificando-os.

As representações femininas contidas, no segundo texto-imagem, remetem às memórias de propagandas antigas, em que os sujeitos-femininos eram significados como representantes do lar, mães, esposas e pertencentes ao ambiente privado. A maneira como seguram os objetos domésticos evidenciam efeitos de sentido ligados a tais propagandas, pois, assim como ocorria nas décadas de 1940 e 1950, as mulheres aqui representadas parecem vender, oferecer utilidades domésticas. Arnáiz (1996 apud LUDERER, 2013, p. 141) discorre sobre a forma com que os meios de comunicação abordam os sujeitos-femininos ao longo do século XX

Os meios de comunicação social divulgam um papel importante com a difusão das imagens culturais femininas associadas à alimentação diária, em especial as revistas para o público feminino e a publicidade. Atualmente as representações respondem, majoritariamente, ao modelo de mulher mãe que cuida dos filhos, mulher esposa que assiste e serve ao marido, mulher dona de casa que mantém o lar, mulher facultativa que cura prescreve, mulher indivíduo que se forma, que consome e cuida de si mesma e mulher trabalhadora que produz. Portanto, se trata de imagens de mulheres polivalentes resultado do conjunto de representações ideais em torno do corpo físico canonizado, as funções reprodutivas e as atividades produtivas.

Nesse texto-imagem, todas as mulheres são chefs de cozinha, embora não estejam representadas como tal. Aqui, não vemos diferença entre os efeitos produzidos pelo primeiro e pelo segundo textos-imagem, pois, do nosso lugar, vemos sujeitos-femininos, profissionais da Gastronomia ou não, representados como produtoras de efeitos de sentido ligados ao consumo, à beleza e a serviço de outros sujeitos, supostamente masculinos.

doze, é impossível não associar o segundo enunciado-imagem ao discurso “bela, recatada e do lar”, produzido por uma revista de direita, conservadora, e que circulou em meados de dois mil e dezesseis, fazendo referência à atual esposa do não legítimo Presidente da República.

Ao mobilizarmos memórias do século passado, associamos o segundo enunciado-imagem a propagandas antigas. Mobilizamos, também, efeitos de sentido que circularam naquela época, como, por exemplo, a dona de casa cuidadora da família. As propagandas antigas tinham como foco esse sujeito que ocupava essa posição dentro daquela FD, diferente do que ocorre nos dias atuais. Ao adjetivar a esposa do não-Presidente como “do lar” a revista produz efeitos de valorização de práticas ideológicas bastante comuns há sessenta ou setenta anos, porém que já não são tão comuns nas atuais condições de produção de discursos, embora tal prática ainda exista.

Ao citar o episódio acima, colocamos os efeitos de sentido produzidos pelo segundo texto-imagem no mesmo patamar dos efeitos produzidos pelo discurso sobre a esposa, que reproduzem práticas antigas e continuam a produzir efeitos de sentido que coloquem o sujeito-feminino em posição inferior ao sujeito-masculino, seja como esposa, seja como profissional ocupante da mesma posição.

“As chefs”

A terceira sequência discursiva e texto-imagem analisados são encontrados na revista Caviar, de julho/agosto de dois mil e dezesseis. Essa última revista, além do nicho gastronômico, também traz matérias relacionada a estilo de vida e sociedade. Na segunda sequência discursiva, temos o seguinte enunciado:

SD3: “As chefs: elas conquistam pelo charme, pela elegância e pelo talento na cozinha”

Nessa sequência, ainda ressoam discursos que caracterizam os sujeitos- femininos pela aparência ao citar “charme” e “elegância”, porém traz um novo elemento produtor de sentidos, o “talento”. Tendo em vista que a primeira sequência discursiva é materializada nas condições de produção de dois mil e oito; a segunda, de dois mil e doze; a terceira é materializada nas condições de dois mil e dezesseis.

Parece um intervalo muito curto de tempo, porém é suficiente para alterar as condições de produção das sequências e enunciados.

Em dois mil e doze, a Gastronomia já havia alcançado grande visibilidade no Brasil, principalmente com a inserção de um restaurante brasileiro, comandado por um homem, entre os dez melhores do mundo. Em dois mil e dezesseis, muita coisa mudou. Restaurantes comandados por mulheres passaram a figurar entre os melhores do mundo e o surgimento de programas televisivos com participantes, juradas e comandantes mulheres proporcionou maior visibilidade aos sujeitos- femininos dentro da formação discursiva da gastronomia.

Voltando à SD3, ainda ressoam memórias que objetificam os sujeitos- femininos, como a atribuição de “charme” e “elegância”, além do verbo “conquistar”, que, ideologicamente e como forma de legitimar a hegemonia masculina, foi associado às mulheres com efeitos de sentido ligados a sedução, o que não deixa de ser um instrumento de poder. A aparência física dos sujeitos-femininos na FD da Gastronomia é abordada por Cynthia Luderer (2013, p. 142-143), que, novamente, cita Arnáiz (1996) e afirma que

[...] foi construído um novo estereótipo da mulher baseado nas super-

mulheres que vivem entre a carreira profissional e a família [...]. Segundo

esse modelo as mulheres o praticam sem conflito aparente – e sem descuidar de nenhum detalhe de sua aparência física [...], e o novo estereótipo não elimina a bagagem de dona de casa tradicional do modelo anterior; a mulher ideal atual é uma mulher emancipada economicamente, inteligente, ativa e sedutora que não se contradiz com a mulher mãe e esposa.

Entretanto, a inserção de “talento” na sequência discursiva produz novos efeitos, diretamente ligados aos efeitos circulantes na formação social de dois mil e dezesseis, em que os sujeitos-femininos têm maior visibilidade graças aos estudos e atuação desses mesmos sujeitos na atual formação social. As duas facas empunhadas pelo sujeito-feminino aqui representado parecem desafiar as construções sociais até então estabelecidas, destacando as novas formas de representação e os novos sentidos acerca desses sujeitos circulantes na atual formação social.

Grupo II: “Sujeitos-masculinos: representação de força, sucesso financeiro e competência”

No segundo grupo, o maior de todos os grupos, com seis materialidades, apresentamos cinco textos-imagem materializados na revista Go Where

Gastronomia e um materializado na revista Go Where Vinhos, um braço da revista

anterior, a qual, assim como a revista Adega é especializada em vinhos. A grande quantidade de materialidades inseridas nesse capítulo, justifica-se pela maior facilidade para encontrar textos-imagem que se estruturam por enunciados-imagens que representem os sujeitos-masculinos. Detectamos regularidades que provocam efeitos enaltecedores aos sujeitos-masculinos, tais como associações com os termos “fenomenais”, “reis”, “rentáveis”, “mestre” e “mercadores”.

Percebemos, portanto, que enquanto os enunciados e textos-imagem do grupo anterior adjetivam os sujeitos-femininos e provocam efeitos ligados à beleza, aqui, nesse grupo, os adjetivos estão bastante relacionados à grandeza, força e dominação. Esse funcionamento permite perceber a estreita relação entre a construção social da masculinidade e o sistema hegemônico dominante, fatores que invisibilizam os sujeitos-femininos na mesma posição que os masculinos.

Em nossas análises, desenvolveremos melhor o imaginário em torno dos sujeitos-masculinos na posição-sujeito chef de cozinha.

Texto-imagem 04

Revista Go Where Gastronomia, n. 44. 2011.17

Texto-imagem 05

Revista Go Where Gastronomia, n. 48. 2011.18

“Fenomenais”

No texto-imagem 04, encontrado na revista Go Where Gastronomia, em edição datada de dois mil e onze, há a representação de dois sujeitos-masculinos sob o destaque da SD 4, conforme segue

Esse texto-imagem permite significar os dois sujeitos-masculinos em posições bastante parecidas, de costas um para o outro. O primeiro, trajado com o uniforme profissional de chef, com um dos braços cruzados enquanto segura duas panelas                                                                                                                

17 Fonte: http://kaminaricomunicacao.com.br 18 Fonte: https://rogerioshimura.wordpress.com

SD 4: “Fenomenais: Um tem 18 estrelas Michelin em restaurantes de nove países que têm seu nome ou sua marca. O outro atrai mil pessoas num único dia para seu restaurante sertanejo em São Paulo”

com a outra mão; o segundo de terno e segurando um óculos com uma das mãos. Ambos olham em direção ao leitor.

Circulam, inicialmente, efeitos acerca da idade dos dois sujeitos-masculinos, pois enquanto o primeiro transmite jovialidade, o segundo transmite experiência. É fundamental, aqui, abordar a aparência física desses dois sujeitos. O primeiro exibe um corpo magro, jovem, cabelos curtos e barba. O segundo exibe corpo maduro, cabelos brancos e discreta calvície. O olhar que ambos direcionam ao leitor parece significar dominância, já que, nas condições de produção de cada sujeito e cada corpo, o primeiro soa carismático e assertivo, enquanto o segundo, com um discreto sorriso um tanto quanto irônico, parecem desafiar o leitor a surpreender-se com os feitos gastronômicos e, de certo modo, empresariais desse sujeito. A dominância também pode ser exercida por meio do carisma e da ironia.

A jovialidade e a experiência transmitidas por meio desse enunciado-imagem – os sujeitos masculinos dentro do texto-imagem – reforçam os estereótipos patriarcais de força e sabedoria e esses efeitos ressoam pelo trabalho da memória, mais especificamente, as memórias que irrompem no eixo da formulação e fazem com que os sentidos deslizem. O corpo jovem e o carisma do primeiro sujeito- masculino evocam efeitos de sentido ligados à força e à agilidade, sem deixar de lado a beleza desse sujeito. Entretanto, essa característica não é enaltecida em nenhum momento, diferente do que ocorre com os sujeitos-femininos. Os cabelos brancos, o sorriso irônico e os óculos empunhados pelo segundo sujeito-masculino produzem efeitos ligados à experiência, à inteligência, à competência e, do lugar de onde olhamos, ressoa também o poder.

É interessante destacar que na constituição do arquivo, do qual recortamos o

corpus desse trabalho, não encontramos sujeitos-femininos experientes

representados em capas de revistas, o que nos leva a acreditar fortemente que os sujeitos-femininos, no lugar de chef, são valorizados enquanto o sistema patriarcal da formação social pode explorar suas características físicas, sua jovialidade, e que, quando mais velhas, deixam de ser interessantes para o “consumo” que abordamos anteriormente, passando do lugar de belas para o lugar de matriarcas, culinaristas.

No documento Dissertação - Ana Carolina de Godoy (páginas 69-101)

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