CAPÍTULO III – CONSTRUINDO A LEI DO PISO: contradições e desafios
3.3 A construção da proposta da CNTE
A correção dos R$ 300,00 (trezentos reais) provenientes do Acordo Nacional, de 1994, resultou em R$ 1.050,00 (mil e cinqüenta reais), em números redondos, no início do ano de 2007. A referência escolhida para a atualização do valor foi o do Índice do Custo de
Vida (ICV), do Dieese. Houve duas razões para essa escolha: o Dieese é financiado pelo movimento sindical e sua metodologia nunca foi questionada pelos trabalhadores; o ICV foi o índice que mais valorizou o PSPN.
O valor de R$ 1.050,00 correspondia à habilitação de nível médio, como constava no Acordo Nacional. Superar esse nível de escolaridade tem sido um desafio para os gestores, especialmente porque a LDB fez constar, nas disposições transitórias da lei, a recomendação de que os professores deveriam, em dez anos, estar formados em nível superior. No entanto, além de muitos professores não terem logrado atingir esse objetivo, os funcionários de escola somente há poucos anos conseguiram o reconhecimento da profissionalização técnica, em nível médio.
Considerando, pois, um PSPN de R$ 1.050,00 para a habilitação de nível médio, a proposta da Confederação foi a de acrescer um percentual de 50% (cinqüenta por cento) para os profissionais com curso superior. Com esse acréscimo, o piso ficaria em R$ 1.575,00 (mil, quinhentos e setenta e cinco reais). Esse percentual representa a média das carreiras, embora, em alguns casos, como no Rio Grande do Sul, a diferença entre uma e outra habilitação seja de 85% (oitenta e cinco por cento). Na visão da Confederação, o PSPN não contemplaria os professores leigos, o que não significa a desconstituição de seu trabalho, mas a perspectiva de que o próprio Piso possa ser indutor de escolaridade e de qualificação profissional. Como viria a destacar o deputado federal Manoel Junior (PSB/PB) – que é filho de professora aposentada –, há dez, quinze anos, as professoras do nordeste ganhavam R$ 2,00, R$ 5,00, R$ 10,00, R$12,00 por mês... Contudo, apesar da superação dessa realidade, o Piso “é muito pequeno diante da importância que tem o professor na formação humana” (D-6).
Ocorreu um polêmico e rico debate sobre a questão do regime de trabalho. Em 1994, o valor de R$ 300,00 (trezentos reais) correspondia a “um novo regime de trabalho de 40 (quarenta) horas semanais, em que, pelo menos, 25% do tempo seja [fosse] destinado a trabalho extraclasse” (BRASIL, 1994, p. 22). Na ocasião, a superação da jornada parcial de 20 horas semanais representava um avanço, pois apontava para a profissionalização do trabalho.
Não se deve esquecer o grande contingente de mulheres que atua na educação básica. Historicamente, a possibilidade de atender o mundo privado e, ao mesmo tempo, exercer a atividade profissional, criou a falsa ilusão do trabalho de meio expediente. Na realidade, as professoras ocupavam muitas horas para atividades escolares, mesmo quando estavam em casa. Assim, a jornada de 40 horas com, no mínimo, 25% para trabalho extraclasse estava apropriada para o contexto do Acordo Nacional.
No entanto, na última década, o movimento sindical, especialmente a CUT, defende a redução da jornada de trabalho como forma de ampliar a empregabilidade da juventude e usufruir dos avanços tecnológicos que, em tese, deveriam exigir menos tempo de trabalho da população economicamente ativa. Na área da educação, já há estados que reduziram a jornada para 30 horas semanais, como é o caso do Acre.
Desse modo, a CNTE acordou em propor a jornada de 30 horas semanais, embora com resistências internas, já que, em muitos estados e municípios, há profissionais que atuam em duas redes, com dois contratos de 20 horas semanais. Ainda que houvesse o reconhecimento de que essas situações decorriam dos baixos salários, portanto, não de um desejo dos educadores, prevaleceram os argumentos de racionalidade pedagógica na definição da jornada de 30 horas. Quanto à composição da jornada, a posição unânime foi pela defesa de, no mínimo, 30% de atividade extraclasse, devendo-se estabelecer proporcionalidade para jornadas ampliadas ou reduzidas. Essa composição é especialmente reivindicada por professores com atuação nos anos iniciais do ensino fundamental, que passam quase todo o tempo escolar em atividades de interação com os alunos.
Ao longo do tempo, os baixos salários não só provocaram múltiplas jornadas como, também, foram compensados por toda sorte de remunerações. Desse modo, o básico das carreiras quase sempre é bem inferior às remunerações realmente recebidas pelos profissionais da educação. Essas descaracterizações são problemáticas para os profissionais e, igualmente, para os gestores. Há correções estruturais, como incorporação de abonos, que representam valores tão altos que os governos preferem mantê-los para não ter que enfrentar o desgaste político de não conceder reajustes.
O conceito de PSPN desafia essas realidades que foram se consolidando ao longo do tempo. Piso não é um somatório de remunerações que inclui completivos para integralizar o salário mínimo, ou que considera verbas indenizatórias, como vale-transporte e vale-refeição. No Acordo Nacional, “piso salarial [era] entendido como a remuneração total no início da carreira e excluídas as vantagens pessoais”. (BRASIL, 1994, p. 22). Por isso, a CNTE definiu o PSPN como o valor abaixo do qual não podem ser estabelecidos os vencimentos iniciais de carreira. Aliás, como analisaria o deputado federal Severiano Alves (PDT/BA), a propósito da redação final do texto da Lei nº 11.738/08, “a grande inteligência da lei não é a questão do valor, mas é a padronização nacional de um Piso, é o conceito, é isso que vocês queriam como professores, e eu, como educacionista, como diz meu mestre Cristovam” (D-2). Já a senadora Ideli Salvatti (PT/SC) alertou para a necessidade de “brigar” para que o conceito de
vencimento não seja deturpado pelos “jeitinhos” e “penduricalhos”. Daí, a importância estratégica do acompanhamento e da fiscalização da implementação da lei (D-4).
Deste modo, o conceito é mais importante do que o próprio quantitativo, pois constituiu um referencial de reconhecimento profissional. Não importa em que município ou estado brasileiro o educador atue, seu trabalho deverá ter idêntico reconhecimento. Ao mesmo tempo, Piso não deve ser considerado como teto. Por isso, é indissociável da carreira, que assegura vantagens pessoais por tempo de serviço e por merecimento. Outro aspecto a ser considerado é que, sempre que o município ou o estado puderem praticar valores mais altos, nada os impede de fazê-lo. O Salário Mínimo, por exemplo, já conta com experiências regionais que o valorizam. A condição para que isso ocorra, no entanto, é a referência no próprio SM.
Quadro 11: Demonstrativo da proposta de PSPN da CNTE
Especificação do item Proposição
Conceito
• Valor mínimo, abaixo do qual não podem ser fixados vencimentos iniciais de carreira; esse valor não inclui as vantagens pessoais que integram a carreira.
Abrangência • Profissionais da educação (professores e funcionários de escola) ativos e aposentados.
Valor / Nível de formação
• R$ 1.050,00 – habilitação de nível médio. • R$ 1.575,00 – habilitação de nível superior. Correção • Anual, de modo a garantir o poder aquisitivo.
Jornada • 30 horas semanais (admitindo-se jornadas ampliadas ou reduzidas até os sistemas poderem se adequar à norma). Composição da jornada • 30%, no mínimo, do total da jornada disponível para atividades extra- sala de aula (para professores). Carreira • Fixação de Diretrizes Nacionais de Carreira compatibilizadas com o
PSPN. Financiamento
• Recursos originários dos orçamentos dos estados e dos municípios – não exclusivos do Fundeb – com o aporte da União, sempre que necessário.
Fonte: a autora (2011)