3 A COLEÇÃO DE FIGURINOS NEY MATOGROSSO
3.1 Construindo figurinos e contrariando regras
Juntamente com João Ricardo e Gerson Conrad, o cantor, sob o nome artístico de Ney Matogrosso, criou o grupo Secos & Molhados, que estreou profissionalmente em 1973 em São Paulo.
Com a dissolução dos Secos & Molhados, em 1974, iniciou carreira solo quando passou a interpretar compositores como Chico Buarque, Cazuza, Cartola, Milton Nascimento, Tom Jobim, realizando shows até os dias atuais.
Ney de Souza Pereira, nascido em agosto de 1941 na cidade Bela Vista no Matogrosso do Sul, começou a cantar durante a ditadura militar no País, fazendo parte de uma cultura hippie que preservava o trabalho artesanal e coletivo. Portanto, devemos considerar os figurinos usados no início de sua carreira dentro desse contexto. Como menciona Queiroz:
[...] a projeção de Ney Matogrosso no campo musical deu-se nesse período de expansão do mercado fonográfico. Desse modo, o artista passou a sofrer não só imposições oriundas dessa lógica de mercado, como também vetos de natureza moral pelos órgãos de repressão e censura do regime militar (QUEIROZ, 2009, p. 14).
Segundo o artista, “mesmo com tudo que ocorreu naquele período, as pessoas buscavam mais a liberdade” (Ney Matogrosso. Programa GNT Fashion
Especial.2012). Em função do momento político naquela década, vários de seus espetáculos foram vetados e censurados, como a estreia do show Bandido, no
Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro. Seu disco (LP) Feitiço, lançado em 1978, foi censurado e recolhido do mercado em função da nudez na parte interna do LP.
Em entrevista a Revista D´Obras, o artista fala sobre o início de sua carreira e seu modo transgressor de se vestir:
Desde que me entendo por gente contrario as regras. Nos anos 1960, no Rio de Janeiro, saía de camisetinha regata e as pessoas me xingavam, quase me jogavam pedras. Não entendia como, em uma cidade tão quente,
não se podia usar camiseta.
(MESQUITA,Cristiane;ARAUJO,Jackson,2013,p.43)
Essa mesma inquietação pessoal foi trazida para seus figurinos e para sua vida profissional, pois, para Ney Matogrosso, uma não é dissociada da outra. A proposta de utilização de uma maquiagem exagerada foi criada, segundo ele, desde os Secos & Molhados, como uma máscara, para que uma nova “ persona” pudesse se libertar, permitindo-lhe, inclusive, ficar nu sem nenhuma vergonha e preservando sua identidade e timidez. Sobre essa transformação artística, ele comenta: “quando eu perdi meu rosto, adquiri uma coragem incrível” (Ney Matogrosso. Programa GNT Fashion Especial .2012)
Na criação de seus figurinos, houve, em alguns momentos, a colaboração de amigos, estilistas e artesãos como Clóvis Bornay, José Gomes, Ocimar Versolato, Ricardo Zambeli, Vagner Ribeiro, Markito, Rafael Rabelo, Araceles de Maria e Zezé Braga. Mas, para a construção de sua imagem, ele nunca contratou ninguém e preferiu criá-la sozinho. Sua maior preocupação enquanto criador de seus figurinos era que a roupa lhe desse a sensação de liberdade em seus movimentos, como disse em entrevista à jornalista Lilian Pacce:
[...] Sempre gostei de roupas no meu corpo que ampliassem o meu movimento. Sem dúvida, a roupa de franjas usada nos Secos & Molhados, com uma pena de faisão na cabeça, foi a mais emblemática. Por isso, a nudez foi incorporada aos figurinos, pois sentia muito calor com as calças. Preferi então usar um tapa-sexo e pendurar nele vários elementos que cobrissem um pouco e que me dessem liberdade nos movimentos (Ney Matogrosso. Programa GNT Fashion Especial .2012)
O artista declarou nessa mesma entrevista ter uma relação muito intensa com a natureza, seja por ter nascido no Matogrosso ou pela influência do Candomblé. Sendo essa uma referência muito forte em seus figurinos, ele utilizou, durante muitos anos, partes de diversos animais77, como pele de cobra, tigre, tartaruga, baleia, carneiro, crina de cavalo, dente de macaco e muitas penas de aves diversas. Os materias escolhidos iam muito além dos tecidos, como também os processos criativos para o desenvolvimento dos figurinos.
Para a criação de figurinos artesanais, como o realizado para o show “Homem de Neanderthal”, em 1975, o processo foi bastante complexo, segundo ele:
[...] Fiz um figurino de crina de cavalos e ossos... Ricardo Zambeli era quem fazia meus primeiros figurinos. Eu tinha que ficar em pé em sua frente o dia todo, para que ele construísse as peças sobre meu corpo. A primeira roupa que usei era uma imensa pele de onça parda, transformada sobre mim... Ele fez o colete de crina de bode e atendeu meu pedido para usar os chifres de carneiro, enrolados como se fossem asas (Ney Matogrosso. Programa GNT Fashion Especial .2012)
Carmen Miranda foi sempre uma fonte de inspiração para o cantor e muitos de seus figurinos trazem detalhes dos figurinos usados pela cantora, como uma abertura lateral, babados e cintura baixa. Essa influência veio desde sua infância,
Figura 38
Ney Matogrosso ( centro) no inicio de sua carreira com o grupo Secos & Molhadoscomo ele comenta em entrevista: “Quando morava na Bahia aos 3 anos, fugia de casa para ir ao Candomblé, para ver aquelas baianas rodando com as roupas brancas, e achava que aquilo era Carmen Miranda... Depois voltava para casa, pegava um lençol e ficava imitando” (Ney Matogrosso. Programa GNT Fashion Especial .2012).
Quando analisamos os figurinos usados por Ney Matogrosso de uma maneira linear ao longo de seus quarenta anos de carreira, percebemos que uma grande ruptura estética ocorreu neles. O artista trocou suas apresentações com muita nudez, transparências e o uso de marcantes adereços de cabeça por um clássico terno branco, sem nenhuma maquiagem, no show “Seu Tipo” em 1980.
Essa mudança ocorrida na imagem do cantor, a partir de seus figurinos mais discretos, também foi observada por Queiroz em sua tese:
[...] a partir de 1979, quando se deu início ao processo de abertura política com a anistia, foi paradoxalmente o momento em que o cantor apresentou- se com uma imagem mais intimista. Sem pinturas e vestido com um distinto terno branco, estreou, em fevereiro de 1980 no Teatro Carlos Gomes, o espetáculo intitulado Seu tipo(QUEIROZ, Flavio de Araujo.2009)