Alda Judith Alves-Mazzott
2. Panorama atual
2.1 Construtivismo social
As correntes filosóficas que mais influenciaram o construtivismo social foram a fenomenologia e o relativismo.
Tal como a fenomenologia, o construtivismo enfatiza a intencionalidade dos atos humanos e o “mundo vivido” pelos sujeitos, privilegiando as percepções dos atores. Também como na fenomenologia, o método utilizado pelos construtivistas parece procurar “colocar entre parêntesis” as crenças e proposições sobre o mundo para melhor apreendê-lo, na medida em que consideram que a adoção de teorias a priori na pesquisa turva a visão do observador. Lincoln e Guba (1985) justificam essa posição afirmando que nenhuma teoria a priori é capaz de abarcar as “múltiplas realidade” que emergem em uma investigação, acrescentando que “acreditar é ver” e por isso o pesquisador construtivista “quer iniciar suas transações com os respondentes do modo mais neutro possível” (p. 41).
Entre os fenomenologistas, os construtivistas são particularmente afinados com a perspectiva de Schutz (1967) – uma das linhas da sociologia interpretativa – que procura estudar o comportamento social, interpretando seu significado subjetivo através das intenções dos indivíduos. Seu objetivo é “interpretar as ações dos indivíduos no mundo social e as maneiras pelas quais os indivíduos atribuem significado aos fenômenos sociais” (p. 11)
Por outro lado, os construtivistas subscrevem as teses relativistas, descartando qualquer possibilidade de objetividade no conhecimento. A este critério, Lincoln e Guba (1985) contrapõem o de imparcialidade. Afirmam eles que a idéia de objetividade supõe que existe apenas uma perspectiva verdadeira sobre um dado fenômeno; conseqüentemente, o pesquisador que aceita essa idéia corre o risco de desconsiderar outras perspectivas possíveis. O pesquisador que se guia pelo critério da imparcialidade atuaria à semelhança de um juiz que ouve as perspectivas de ambas as partes envolvidas num processo, procurando chegar a um ponto de equilíbrio, a uma posição que seja justa com ambas as partes.
Os pressupostos básicos do construtivismo social foram assim resumidos por Guba (1990):
1. Uma ontologia relativista: se em qualquer investigação há muitas interpretações possíveis e não há processo fundacional que permita determinar a veracidade ou falsidade dessas interpretações, não há outra alternativa senão o relativismo. As realidades existem sob a forma de múltiplas construções mentais, locais e específicas, fundadas na experiência social de quem as formula.
2. Epistemologia subjetivista: se as realidades existem apenas nas mentes dos sujeitos, a subjetividade é a única forma de fazer vir à luz as construções mantidas pelos indivíduos. Resultados são sempre criados pela interação pesquisador/pesquisado.
3. Metodologia hermenêutica-dialética: as construções individuais são provocadas e refinadas através da hermenêutica e confrontadas dialeticamente, com o objetivo de gerar uma ou mais construções sobre as quais haja um significativo consenso entre os respondentes.
O construtivismo social tem sido criticado, por diferentes razões, tanto pelos teórico- críticos como pelos pós-positivistas.
Uma primeira crítica feita pelos teóricos-críticos se refere ao fato de que os construtivistas estão interessados nos significados atribuídos à realidade social pelos diferentes atores, mas não se preocupam em saber como e por que certos significados são legitimados, prevalecendo sobre os demais. Além disso, eles se dedicam a investigar fenômenos micro-sociais (uma escola, um hospital, um grupo, uma pequena comunidade) sem a preocupação de relacionar a realidade observada a determinações sociais mais amplas que atuam sobre essa realidade. Intimamente relacionada a esta é a crítica que diz respeito á despreocupação dos construtivistas com a transformação da sociedade, o que os tornaria tão conservadores quanto os pós-positivistas. Tais críticas que, como vemos, são coerentes com a posição política adotada pelos teóricos-críticos, são generalizadas entre os autores dessa linha. Aprofundando essas críticas, Roman e Apple (1990) analisam as afinidades entre os construtivistas e os positivistas, mostrando que os primeiros, apesar de seu discurso antipositivismo, propõem uma metodologia que acaba por sucumbir às mesmas ilusões do positivismo mais ingênuo. O argumento básico é o de que, ao assumir o papel do observador distanciado e quase invisível – como “uma mosca na parede” – com o objetivo de minimizar a reatividade dos sujeitos à sua presença, ao se propor a iniciar a investigação com a “mente vazia”, para que suas relações e interações com os sujeitos não sejam contaminados por suas próprias teorias e valores, os construtivistas estariam assumindo uma neutralidade muito semelhante à buscada pelos positivistas. A distinção entre o “artificial” e o “natural”, no que se refere à situação de pesquisa, tem em comum com o positivismo o pressuposto de que a realidade e as relações sociais presentes no “campo” no qual se desenvolve a pesquisa são inteiramente distintas daquelas existentes na sociedade mais ampla, as quais são mediadas por relações desiguais de poder. Ignorar isto é presumir que a realidade social é atomística e, portanto, pode ser reduzida à descrição de “como as coisas são”, só que, neste caso, são os sujeitos da pesquisa que nos dizem “como as coisas são”.
Por outro lado, da perspectiva pós-positivista, Cizek (1995) critica os princípios do construtivismo social, questionando a afirmação, feita por seus adeptos, de que ele se propõe apenas a oferecer “resultados vinculados ao contexto de cada local pesquisado”, representando uma alternativa aos métodos de pesquisa tradicionais que são orientados por teorias, usam teste de hipóteses e pretendem generalizar resultados para outros contextos. (Peskin,
1993; Oldfather & West, 1994, são citados literalmente pelo autor, mas estes princípios são amplamente aceitos pelo construtivismo social.)
Para Cizek isto pode ser uma metáfora da ciência social autocentrada, mas certamente não é pesquisa. Diz ele:
Se uma pesquisa não se relaciona a coisa alguma que atualmente sabemos (isto é, não é orientada por uma teoria), se não está dirigida para uma questão de interesse do pesquisador (isto é, para o teste de hipótese) ou produz conhecimento que outros possam usar e é vinculado a um contexto específico (isto é, não generalizável), como, então, pode ser chamada de pesquisa? (p. 27)
Cizek finaliza sua crítica, afirmando que tal posição criou uma hegemonia da narrativa que faz dos pesquisadores construtivistas meros contadores de histórias.
Complementando estas críticas cabe assinalar o fato de que, até o momento, os construtivistas não conseguiram resolver satisfatoriamente o problema de como se dá o progresso da ciência, ou do conhecimento, como eles preferem dizer. De fato, se o conceito de “verdade” nessa abordagem se refere apenas ao “grau de correspondência entre o relato do investigador sobre a experiência vivida dos participantes e a visão dos próprios participantes sobre o assunto” (Schwandt, 1990, p. 273), e se todo conhecimento decorrente dessas pesquisas é válido apenas para o contexto e para o momento em que foi produzido (Le Compte, 1990), fica difícil explicar como se dá o progresso do conhecimento em uma dada área.
2.2 Pós-positivismo
O pós-positivismo costuma ser caracterizado nas ciências sociais como a abordagem que enfatiza o uso do método científico como a única forma válida de produzir conhecimentos confiáveis, defendendo a adoção desse método também por aquelas ciências, uma vez que não haveria qualquer obstáculo que impedisse que isto fosse feito. A adoção do método científico implicaria a preferência por modelos experimentais e quase-experimentais com teste de hipóteses, tendo como objetivo último a formulação de teorias explicativas de relações causais (ver, por exemplo, Greene, 1990; Le Compte, 1990; Schwandt, 1990). Em função dessas características, alguns autores (como, por exemplo, Guba, 1990) consideram que esta abordagem seria uma forma disfarçada do positivismo.
Os adeptos desta corrente não negam que consideram que as ciências sociais devam se guiar pelos princípios básicos que norteiam as pesquisas nas ciências naturais, mas isto não seria razão para se afirmar que o pós-positivismo é uma continuação do positivismo, uma vez que a chamada “nova filosofia da ciência”, há muito, descartou os princípios básicos dessa corrente. Assim, ao
contrário dos positivistas, os pós-positivistas se recusam a considerar a observação como, ao mesmo tempo, fundamento e árbitro do conhecimento científico, o que exigiria que todos os conceitos teóricos fossem traduzidos em termos observacionais. Admitem a subdeterminação da teoria, (isto é, o fato de que, independentemente das evidências disponíveis para confirmar uma dada teoria, há sempre a possibilidade de que uma outra teoria, referente aos mesmos fenômenos, seja desenvolvida), mas consideram que há critérios racionais que permitem escolher entre duas teorias rivais. Também admitem que a teoria adotada influencia a observação do fenômeno, não se podendo, portanto, dizer que uma observação é objetiva no sentido de que é “pura” ou livre de influências da teoria utilizada ou mesmo dos desejos e expectativas do pesquisador. Consideram, porém, que isso não é razão para que se abandone o uso de teorias a priori no processo de investigação, como sugerem os construtivistas. Argumentam que pesquisadores partindo de diferentes referenciais teóricos podem chegar a resultados consistentes entre si e, quando isto não ocorre, os resultados obtidos nas diferentes pesquisas podem ser discutidos e avaliados, com base nos procedimentos utilizados (Phillips, 1990a).
A questão central da posição pós-positivista é, portanto, a afirmação da possibilidade de objetividade nas ciências sociais. Sobre essa questão, Phillips (1990a) é categórico:
A noção de objetividade, como a noção de verdade, é um ideal regulatório subjacente a qualquer investigação. (...) Se abandonarmos essas noções, não tem sentido fazer pesquisa (p. 43).
Os pós-positivistas argumentam que a idéia de que as pesquisas qualitativas – ou quaisquer outras – não podem ser objetivas, parece se basear em uma noção ingênua de objetividade, como se ser objetivo significasse conhecer a realidade em seu “estado puro”. O uso do termo “objetivo” no que se refere a uma investigação significa que esta atende a certos critérios de qualidade, a padrões de procedimentos, embora a objetividade não garanta certeza quanto aos resultados. Apenas significa que essas investigações estão livres de erros grosseiros, o que deveria dar uma certa tranqüilidade, da mesma forma que um consumidor prefere comprar um artigo que tenha passado por um rigoroso controle de qualidade, embora isto não garanta que ele vá durar eternamente (Phillips, 1990b).
Para Phillips (1990b), o questionamento da noção de objetividade tem suas raízes na queda do fundacionismo. Epistemologias tradicionais eram fundacionistas no sentido de que acreditavam que o conhecimento era construído sobre (ou justificado por) algum fundamento sólido e inquestionável. Para os racionalistas esse fundamento era a razão, enquanto para os empiristas era a experiência trazida pelos órgãos dos sentidos. No século XX, porém, o fundacionismo foi banido pela “nova filosofia da ciência”, e isto parece ter contribuído para o esvaziamento da noção de objetividade, particularmente no que se refere às
ciências humanas. Abandonar o fundacionismo significa abandonar a certeza de que sabemos quando encontramos a verdade, mas não se deve confundir objetividade com certeza, pois todo conhecimento é sempre tentativo.
Em sua discussão sobre o fundacionismo, Popper (1982) lembra que, desde a Antigüidade, os filósofos sempre se indagaram sobre quais seriam as fontes mais seguras para o conhecimento, aquelas que não nos levariam ao erro, e às quais poderíamos recorrer em caso de dúvida. Popper considera que essa busca da gênese do conhecimento tem um caráter autoritário: quer saber a origem do conhecimento supondo que este possa ser legitimado pelo seu pedigree. Negando a existência dessas “fontes ideais”, propõe que essa questão seja substituída por outra: de que forma podemos identificar e eliminar o erro? E, para Popper, a esperança de eliminar o erro repousa no método crítico. Esta noção, segundo a qual a objetividade da ciência não se refere à objetividade de cientistas individuais e sim à tradição crítica, á crítica mútua exercida entre os cientistas, é também a da grande maioria dos pós- positivistas. Assim, o que é crucial para a objetividade de qualquer pesquisa é a aceitação da “tradição crítica”, isto é, do fato de que a investigação deve ser o mais possível aberta á análise, à crítica e ao questionamento da comunidade científica para que erros grosseiros e tendenciosidades do pesquisador possam ser eliminados.
Em sua crítica ao pós-positivismo, Guba (1990) questiona as distinções apontadas entre essa posição e o positivismo. Afirma que, cientes dos problemas nos quais se enredaram seus antecessores, os pós-positivistas teriam buscado rever os pontos insustentáveis, na tentativa de limitar as perdas. Esta seria a razão pela qual hoje admitem que a preocupação com a objetividade resultou em muitos desequilíbrios, os quais tentam corrigir, embora a previsão e o controle continuem sendo suas principais metas. Entre esses desequilíbrios, destaca:
1. Desequilíbrio entre rigor e relevância. Corresponde, em termos tradicionais, à inescapável barganha entre validade interna e validade externa4: a ênfase no controle das variáveis estranhas (como ocorre, por exemplo, nos experimentos de laboratório), diminuía a possibilidade de generalização dos resultados para situações naturais, onde esse controle não existe. A tendência atual seria abandonar a ênfase no controle em favor de ambientes mais naturais.
2. Desequilíbrio entre precisão e riqueza: a busca da precisão – essencial às metas de previsão e controle – levava a superenfatizar a quantificação, em
4 Os conceitos de validade interna a externa foram desenvolvidos no âmbito da pesquisa experimental, sendo
posteriormente estendidos a outros tipos de pesquisa como sinônimos de rigor e de possibilidade de generalização, respectivamente. O primeiro foi definido por Campbell e Stanley (1966), como “aquele mínimo básico sem o qual qualquer experimento seria ininterpretável: os tratamentos experimentais fizeram, de fato, diferença nesta instância experimental específica?”. Já a validade externa se refere a “que populações, contextos, variáveis de tratamento e medidas das variáveis pode este efeito ser generalizado” (p. 5).
detrimento da análise qualitativa que proporciona dados mais ricos. A inclusão de métodos qualitativos buscaria corrigir o desequilíbrio mencionado.
3. Desequilíbrio entre elegância e aplicabilidade. A preocupação com a predição e o controle levava também à valorização de teorias mais abrangentes, as quais não “funcionam” em contextos locais, que apresentam características específicas. O recurso a “grounded theories” ou teorias fundamentadas (isto é, teorias geradas a partir da análise indutiva dos dados) seria visto como uma forma de solucionar esse impasse.
4. Desequilíbrio entre descoberta e verificação. A descoberta era vista pelo paradigma tradicional como um mero precursor e não como parte integrante do trabalho científico, cujo propósito seria apenas a verificação. Este desequilíbrio vem sendo contornado definindo-se um continuum de investigações que vai da “pura descoberta” à “pura verificação” (p. 23).
Os pressupostos básicos do pós-positivismo são assim definidos por Guba (1990): 1. Uma ontologia crítico-realista, uma vez que assume a existência de uma realidade externa ao sujeito que é regida por leis naturais, embora estas nunca possam ser totalmente apreendidas, em razão da precariedade dos mecanismos sensoriais e intelectivos do homem.
2. Uma epistemologia objetivista-modificada, porque mantém a objetividade como um “ideal regulatório”, mas admite que o pesquisador dela pode apenas se aproximar, contando, para isso, com guardiães externos côo a tradição crítica (exigência de clareza no relato da investigação e consistência com a tradição na área) e a comunidade crítica (julgamento dos pares).
3. Uma metodologia experimental/manipulativa modificada, que enfatiza o “multiplismo crítico”, uma forma elaborada de triangulação que recorre a várias fontes de dados e procura corrigir os desequilíbrios anteriormente mencionados, usando mais métodos qualitativos e mais teorias fundamentadas e reintroduzindo a descoberta no processo de investigação.
Como pode ser observado, na descrição da metodologia pós-positivista feita por Guba não há qualquer evidência que justifique a classificação de experimental/manipulativa. O uso dos dois adjetivos, aliás, é desnecessário e redundante, uma vez que o modelo experimental é, por definição, manipulativo.5
5 Isto significa que o experimentador manipula uma ou mais variáveis independentes (por exemplo,
diferentes tipos de liderança exercidos sobre dois grupos) e observa o efeito sobre uma ou mais variáveis dependentes (por exemplo, a diferença entre os níveis de cooperação observados em cada grupo).