5. A defesa da objetividade: o racionalismo crítico hoje
5.3 Observações e testes que dependem de teorias
Como vimos, para Kuhn, qualquer observação depende do paradigma adotado: um defensor do flogisto vê o flogisto em um experimento, enquanto Lavoisier vê o oxigênio; da mesma forma, antes da descoberta de Urano os astrônomos viam uma estrela onde depois passaram a ver um planeta.
Mas, o que ocorreu em ambos os casos pode ser interpretado de outra forma: com um telescópio mais potente, Herschel pôde ver que Urano se assemelhava a um disco e não a um objeto puntiforme, como eram as estrelas. Além disso, mesmo com telescópios menores, pode-se ver o movimento diurno de Urano entre as estrelas. Essas observações contradizem a idéia de que Urano era uma estrela. Portanto, o que os astrônomos viam não era nem um planeta nem uma estrela, mas objetos puntiformes ou discóides, dependendo do instrumento usado. Se assumirmos que observações ao telescópio não são problemáticas (e, na época e nas condições em que Herschel usou o telescópio, essas observações eram consideradas não problemáticas por todos os astrônomos), temos uma refutação condicional da hipótese de que Urano era uma estrela (Andersson, 1994).
O raciocínio vale também para as primeiras etapas da revolução na química. Pristley, um defensor da teoria do flogisto, não “via” ar deflogistado, nem Lavoisier “via” oxigênio: ambos viam um gás formado quando um precipitado vermelho (óxido de mercúrio) era aquecido. Ambos achavam que este gás era o que hoje chamamos gás carbônico (“ar fixo”). Mas logo um teste mostrou que o gás não era facilmente solúvel em água, como era o gás carbônico. Esta conclusão sobre a solubilidade do gás era não problemática e foi aceita tanto por Lavoisier como por Priestley – ambos concordaram que o novo gás não podia ser o gás carbônico. Portanto, Lavoisier e Priestley viram as mesmas coisas, e
usavam os mesmos enunciados de teste, mas as explicavam de forma diferente – Priestley, com o flogisto e Lavoisier, com o oxigênio (Andersson, 1994).
A passagem da teoria do flogisto para a teoria do oxigênio de Lavoisier é um dos exemplos mais drásticos de revolução científica, uma vez que quase todos os conceitos e leis do flogisto foram rejeitados por Lavoisier (Thagard, 1992). Apesar disto, Lavoisier precisava explicar uma série de evidências sobre a qual todos concordavam: a combustão libera calor e luz e ocorre apenas em presença de ar; na calcinação as substâncias aumentam de peso; este aumento é igual ao peso do ar absorvido etc. A discordância era quanto à explicação desses fenômenos: a substância que sofre a combustão elimina flogisto ou se combina com o oxigênio?
Outra questão é a da circularidade de se testar uma teoria com um experimento carregado de teorias. Mas esta circularidade não precisa ocorrer: as teorias usadas no teste podem ser diferentes da teoria que está sendo testada. Um telescópio, por exemplo, foi construído com teorias ópticas que não dependem da mecânica newtoniana: a teoria ondulatória da luz pode ser verdadeira mesmo que a mecânica de Newton seja falsa e vice- versa – o próprio Newton achava que a teoria ondulatória era falsa e defendia a teoria corpuscular da luz. Como dizem Franklin et alii, “se a teoria do instrumento e a teoria que explica o fenômeno e que está sendo testada forem distintas, nenhum problema óbvio surge para o teste da teoria que explica o fenômeno” (1989, p. 230).
Para Franklin et alii, mesmo quando o aparelho (ou parte dele) depende para seu funcionamento da teoria em teste, a circularidade pode ser evitada. Suponhamos, por exemplo, que seja usado um termômetro de mercúrio para medir a temperatura de um objeto, e que esta medida faça parte de um teste para verificar se um objeto se expande ou não com a temperatura. Como o termômetro de mercúrio é construído a partir da teoria de que o mercúrio se expande com a temperatura, o teste parece ser circular. Neste caso, tudo que é preciso é que exista a possibilidade de calibrarmos este termômetro contra outro termômetro cuja operação depende de uma teoria diferente. O termômetro de mercúrio poderia ser calibrado com um termômetro a gás de volume constante, cuja pressão varia com a temperatura, por exemplo.
Se, por exemplo, um estudante disser que não acredita na existência das células que ele vê ao microscópio, afirmando que a imagem é uma ilusão de óptica produzida pelo aparelho, podemos pedir que ele observe uma pequena letra de jornal ao microscópio, mostrando que a imagem vista corresponde a uma imagem ampliada do que ele vê a olho nu. Podemos ainda utilizar experimentos que evidenciem a propagação retilínea da luz, as leis da refração e sua aplicação na construção de lentes etc. Esses experimentos forneceriam evidências a favor da fidelidade da imagem do microscópio – evidências essas que não dependem da existência de células.
Por isso, embora a teoria indique que tipos de testes devem ser feitos e até que tipos de problema precisam ser resolvidos, ela não determinará o resultado do teste – se este for independente da teoria em questão. Como vimos, a partir da teoria de Newton foi possível indicar a posição e a massa de um planeta desconhecido, mas o teste independente, que consistiu na observação ao telescópio do planeta, podia ter refutado essa previsão (como aconteceu no caso do planeta Mercúrio).
Em resumo, a circularidade pode ser evitada se usarmos testes que, embora sejam falíveis e dependentes de teorias, não dependam das teorias problemáticas que estão sendo testadas.