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Contextualização do problema

No documento O Método nas Ciências Naturais e Sociais (páginas 180-182)

Alda Judith Alves-Mazzott

1. Contextualização do problema

A produção do conhecimento não é um empreendimento isolado. É uma construção coletiva da comunidade científica, um processo continuado de busca, no qual cada nova investigação se insere, complementando ou contestando contribuições anteriormente dadas ao estudo do tema. A formulação de um problema de pesquisa relevante exige, portanto, que o pesquisador se situe nesse processo, analisando criticamente o estado atual do conhecimento em sua área de interesse, comparando e contrastando abordagens teórico-metodológicas utilizadas e avaliando o peso e a confiabilidade de resultados de pesquisa, de modo a identificar pontos de consenso, bem como controvérsias, regiões de sombra e lacunas que merecem ser esclarecidas.

Essa análise ajuda o pesquisador a definir melhor seu objeto de estudo e a selecionar teorias, procedimentos e instrumentos ou, ao contrário, a evitá-los, quando estes tenham se mostrado pouco eficientes na busca do conhecimento pretendido. Além disso, a familiarização com a literatura já produzida evita o dissabor de descobrir mais tarde (às vezes, tarde demais) que a roda já tinha sido inventada. Por essas razões, uma primeira revisão da literatura, extensiva, ainda que sem o aprofundamento que se fará necessário ao longo da pesquisa, deve anteceder a elaboração do projeto. Durante essa fase, o pesquisador, auxiliado por suas leituras, vai progressivamente conseguindo definir de modo mais preciso o objetivo de seu estudo, o que, por sua vez, vai lhe permitindo selecionar melhor a literatura realmente relevante para o encaminhamento da questão, em um processo gradual e recíproco de focalização.

Esse trabalho inicial é facilitado quando existem publicações com revisões atualizadas sobre o tema de interesse do pesquisador. Embora a elaboração periódica dos chamados “estados da arte” seja uma prática comum nos países desenvolvidos, estes raramente são traduzidos para o português e, mais dificilmente ainda, são encontradas revisões de estudos feitos no Brasil. De qualquer forma, sempre que houver revisões recentes é conveniente começar por elas e, a partir destas, identificar estudos que, por seu impacto na área, e/ou maior proximidade com o problema a ser estudado, devam ser objeto de análise mais aprofundada. Caso não haja revisões disponíveis sobre o tema, é recomendável

começar pelos artigos mais recentes e, a partir destes, ir identificando outros citados nas respectivas bibliografias.

A leitura dessas revisões, entretanto, não é suficiente. Ela precisa ser complementada, buscando-se outros estudos que, por terem sido publicados posteriormente, ou por não atenderem aos critérios adotados nas revisões, nelas não tenham sido incluídos. Nesse processo de “garimpagem”, obras de referência (como os Abstracts e os catálogos de teses), bibliografias selecionadas, são de extrema utilidade na identificação e seleção de estudos para revisão. Atualmente, um grande número de redes de informação, base de dados, bibliotecas de universidades e de centros de pesquisa do mundo inteiro podem ser acessados por computador, através da Internet.

O exame dos “estados da arte” serve fundamentalmente para situar o pesquisador, dando-lhe um panorama geral da área e lhe permitindo identificar aquelas pesquisas que parecem mais relevantes para a questão de seu interesse. Mas, uma vez identificadas estas pesquisas, ele deve, sempre que possível, examinar os próprios artigos, isto é, deve se basear em fontes primárias e não em comentários ou citações de terceiros.

No caso das ciências sociais, a comparação entre resultados de pesquisas é dificultada pelo caráter fragmentário dessa produção e pela grande variedade de abordagens teóricas e metodológicas adotadas. Muitas vezes, resultados conflitantes entre pesquisas que focalizam um mesmo tópico são devidos a utilização de diferentes procedimentos, unidades de análise ou populações. Sempre que for este o caso, as diferenças devem ser avaliadas em termos de adequação do instrumental teórico e metodológico utilizado em cada estudo. Tal procedimento freqüentemente permite relativizar, ou até mesmo anular, a significância de certas incongruências entre resultados de pesquisa.

Mas, se uma certa quantidade de leitura é necessária ao investigador para a abordagem de um tema, isto não quer dizer que o leitor da pesquisa tenha que acompanhá-lo nesta longa e penosa caminhada. A visão abrangente da área por parte do pesquisador deve servir justamente para capacitá-lo a identificar as questões relevantes e a selecionar os estudos mais significativos para a conclusão do problema a ser investigado. A identificação das questões relevantes dá organicidade à revisão, evitando a descrição monótona de estudo por estudo. Em torno de cada questão são apontadas áreas de consenso, indicando autores que defendem a referida posição ou estudos que fornecem evidências da proposição apresentada. O mesmo deve ser feito para áreas de controvérsia. Em outras palavras, não tem sentido apresentar vários autores ou pesquisas, individualmente, para sustentar um mesmo ponto. Análises de trabalhos individuais se justificam apenas quanto a pesquisa ou reflexão, por seu papel seminal na construção do conhecimento sobre o tema, ou por sua contribuição original a esse processo, merecem destaque.

Em resumo, é a familiaridade com o estado do conhecimento na área que torna o pesquisador capaz de problematizar o tema e de indicar a contribuição que seu estudo pretende trazer a expansão do conhecimento. Mas apenas os aspectos básicos para a compreensão da “lógica adotada para a construção do objeto” (Warde, 1990, p. 74) devem aparecer, de forma clara e sistematizada, na Introdução do relatório, como vimos no Capítulo 7. É também a familiaridade com a literatura produzida na área que permitirá ao pesquisador selecionar adequadamente os estudos a serem utilizados, para efeito de comparação, na discussão dos resultados por ele obtidos.

No documento O Método nas Ciências Naturais e Sociais (páginas 180-182)