Fotos 14 e 15 – fachada do Hipermercado Bourbon
4. SOCIOLOGIA AMBIENTAL E O CONSUMO DE ALIMENTOS
4.2 CONSUMIDOR FOOD SAFETY E A TEORIA DA SOCIEDADE DE RISCO
A teoria da Sociedade de Risco está ligada ao nome do autor alemão Ulrich Beck, que passou a ser considerado um dos mais destacados teóricos na atualidade depois da publicação de Risk Society (publicado inicialmente em alemão em 1986 e em 1992 em inglês) (GUIVANT, 2001), e que, juntamente com Anthony Giddens, elevou a Sociologia Ambiental a um papel-chave na compreensão das especificidades dos conflitos, dos processos de transformação e das formas de fazer política em nossa época (GUIVANT, 2005, p. 15). Para o autor vivemos em uma sociedade cujos riscos se distinguem dos característicos de períodos anteriores. Enquanto, na Sociedade Industrial, os riscos ligavam-se às distribuições de riqueza, ou seja, baseavam-se na luta entre o capital e o trabalho pelos frutos gerados pelo sistema industrial voltado para a criação de bens e serviços (2006, p. 133), atualmente riscos nucleares, químicos, ecológicos e biológicos não são delimitáveis nem social nem temporalmente, não são imputáveis de acordo com regras de causa, culpa e responsabilidade, e nem compensáveis ou asseguráveis (BECK, 1992). Em termos gerais, na Sociedade de Risco a disputa se dá em evitar os males gerados pela própria modernização.
Nas palavras do autor, os riscos são “produzidos industrialmente, externalizados economicamente, individualizados juridicamente, legitimados cientificamente e minimizados politicamente”. Este conjunto de riscos geraria uma “nova forma de capitalismo, uma nova forma de economia, uma forma de ordem global, uma nova forma de sociedade e uma nova forma de vida pessoal (BECK, 1992, p. 2-7). Nesse contexto de intensificação dos riscos ocorre o que o autor coloca como o “fim do outro” (2006, p. 134). Ou seja, os riscos de grandes conseqüências tendem a não restringir grupos sociais específicos, ao contrário do passado, quando determinados grupos humanos seriam foco da violência e exclusão social, como negros, judeus, exilados, mulheres, etc. Com os novos riscos a distância entre o “outro”
e o “nós” passaria a ter um limite difuso, gerando uma espécie de “igualdade negativa” (LENZI, 2006). As pessoas tornam-se iguais diante de riscos democráticos, gerando “comunidades de perigo”. Nesse caso, “o denominador comum que delimita os ‘outros’ não são fronteiras sociais específicas (território, identidade, etc), mas a simples condição de estarem submetidos aos mesmos riscos e perigos” (2006, p. 134).
Além de “democráticos”, por atingirem indistintamente a todos, os riscos também tendem a ser universalizantes e globalizantes. Em outras palavras, os riscos acompanham a globalização da produção industrial, tornando-se independentes do local onde são produzidos. Diante disso, a “comunidade de perigo” transcenderia, além das fronteiras sociais, também fronteiras políticas e geográficas (2006, p. 135).
Por fim, os riscos são, muitas vezes, imperceptíveis. Nesse caso, para Beck, a ciência assume uma importância complexa e destacada, pois em muitos casos “(...) requeremos os órgãos sensores da ciência – teorias, experimentos, instrumentos de medida – a fim de torná- los visíveis ou interpretáveis como perigos (BECK, 1992, p. 27). Ao mesmo tempo, Beck aponta para uma série de fatores que podem gerar equívocos da percepção científica e que contribuem para a criação, legitimação e proliferação dos riscos. Para ele, a ciência pode reconhecer os riscos e, mais do que isso, ser uma “fonte de soluções” ou, pelo menos, um passo para a resolução dos problemas (2006, p. 137), embora, ao mesmo tempo, esta também promova a hiperprodutividade, envolvendo-se diretamente na produção dos riscos via tecnologias de alto risco. Esse caráter dúbio da ciência afeta sua relação com a sociedade através da quebra da confiança. Com o surgimento dos riscos, os indivíduos tendem a questionar o papel da ciência, fazendo com que “(...) nenhum conhecimento sob as condições da modernidade” seja “conhecimento no sentido ‘antigo’, em que ‘conhecimento’ é estar certo” (1991, p. 46). Para Beck (e Giddens), a Ciência já não desempenha mais o papel de juíza da verdade, e, sob o princípio metodológico da dúvida (2002, p. 26), está aberta a
revisão e pode ser inteiramente descartada com o advento de uma explicação mais plausível. Giddens apresenta um conceito que dialoga com a sociedade diagnosticada por Beck e que demonstra como se dá a relação entre ciência e sociedade. Trata-se do conflito dos sistemas peritos ou especializados, que, grosso modo, refere-se a diferentes especialistas que trazem opiniões divergentes acerca de um mesmo assunto. Exemplificando, “os especialistas em seguros (involuntariamente contradizem engenheiros de segurança). Enquanto estes últimos diagnosticam risco zero, os primeiros decidem: impossível de ser segurado” (BECK, 1997, p. 22).
A mudança do caráter da ciência na Sociedade de Risco causa efeitos diretos na vida dos leigos, tendo em vista que são obrigados a fazerem suas próprias escolhas dentre as várias informações passadas pelos peritos, muitas vezes em conflito, sem contar com a segurança das comunidades locais, por exemplo. Mais do que optar, o indivíduo é ainda responsabilizado por estas, pois, segundo Beck (1997), “as ameaças, oportunidades, ambivalências da biografia, que anteriormente era possível superar em um grupo familiar, na comunidade da aldeia ou se reconhecendo a uma classe ou grupo social, devem ser cada vez mais percebidas, interpretadas e resolvidas pelos próprios indivíduos” (p.18). Ou seja, diante desse quadro, nesse contexto “individualizante”, os indivíduos são obrigados a construírem sua própria história ou, como afirma Sartre (apud BECK, 1997, p. 26) “as pessoas são condenadas à individualização”.
A Teoria da Sociedade do Risco é de grande valia para entender as mudanças de hábitos na sociedade em termos gerais. Para Oosterveer et al. (2007), o interesse por segurança alimentar surgiu devido a muitas crises alimentares e temores causados pela doença da vaca louca, os organismos geneticamente modificados, a gripe aviária ou a contaminação por pesticidas, que são uma nova forma de risco contemporâneo. Para eles, as idéias advindas da teoria da Sociedade do Risco contribuem para identificar parte da dimensão do aumento de
oferta e consumo de alimentos saudáveis; pois, diante desse contexto, consumidores tenderiam a buscar opções mais “seguras”, como os alimentos orgânicos. Nas palavras de próprio Spaargaren et al. (2007), os consumidores “food-safety”, apesar de não lerem Beck, reagem aos riscos contemporâneos descritos por ele, transformando objetivamente o consumo. Em 2001, por exemplo, ano de maior incidência da doença da vaca louca na Europa, segundo O GLOBO (2001), na Itália os vegetarianos saltaram de 1,5 para 2,5 milhões, na Alemanha o número dobrou para 6,6 milhões; o consumo de carne foi reduzido em 40% na França, ao mesmo tempo em que surgiram inúmeras ações governamentais, principalmente na Alemanha, para alavancar a produção de orgânicos, um dos motivos que explicaria o crescimento em área plantada de 250 mil hectares para 2,9 milhões em 2002 (GLOBO RURAL, 2001).