1. Vivenciando a gravidez
1.5 Contato com o bebê
Em relação ao desejo dos futuros pais em acompanhar a gestante na hora do parto, alguns pais referiram querer estar presente neste momento (J7, J8, J9, J12, A15, A19), apesar de não terem ainda definido esta questão. Isto se deve também em virtude de circunstâncias externas, como a permissão da equipe e o desejo da gestante de ser acompanhada, conforme pode ser visto a seguir:
“... eu pergunto para ela ‘Tu vais querer que eu fique junto contigo, esteja lá te dando uma força (na hora do parto)?’, (...) eu falei para ela ‘Se tu te sentires inibida comigo ao teu lado, eu posso te esperar fora da sala, mas se tu quiseres te sentir um pouco mais segura, se tu achares que eu estando contigo lá é melhor, eu posso ficar.’ (...) (J7)
“Estou pensando sim [em assistir ao parto[, eu pensei e vou participar, assistir. É permitido. A minha idéia é (...) ficar lá, se eu, se der, se eu agüentar...” (A15)
Considerando-se globalmente as falas dos futuros pais, percebe-se que tanto adolescentes como adultos desejam assistir ao parto. Contudo, quando comparados os dois grupos, percebe-se que os adolescentes mencionaram mais freqüentemente o desejo de assistir ao parto do que os adultos. Estes achados poderiam estar relacionados aos comentados acima, em que se encontrou uma maior participação dos adolescentes no pré-natal da companheira, em função de ter maior tempo livre. De modo geral, percebe-se que estes participantes estão bastante influenciados pela tendência atual da prepercebe-sença do homem no momento do parto, o que poderia indicar que este momento também se tornou um assunto do casal (Sherwen, 1986; Szejer & Stewart, 1997).
“Quando eu falo ela se mexe... eu estou deitado com a C., ela fica me chutando assim, às vezes a C. está dormindo, eu fico mexendo na barriga, ela fica se mexendo assim, até acorda ela. Mexe bastante...
quando eu boto a mão ela mexe um monte. Me conhece já” (J3)
“... eu curto ele, boto a mão na barriga dela, converso com ele, e vendo o jogo converso com ele, ele fica chutando aqui, chutando ali, então externamente a gente está tendo um contato bem afinado mesmo, estou sentindo que ele reconhece a minha voz, a A. me fala que quando eu saio de manhã e bato a porta, ele sente, ele para de se mexer, aí ele retoma o sono dele de novo, mas enquanto eu estou me vestindo, estou mexendo alguma coisa de manhã cedo antes de sair de casa ela não consegue mais dormir, porque ele fica chutando, empurrando, de noite, ou quando ele está se manifestando, ela encosta a barriga no colchão assim para o pezinho dele bater no colchão. Eu estou curtindo bastante, estou bem próximo dele” (A22)
Muitos pais enfatizaram que conversavam com o bebê (J5, J8, J9, A13, A14, A19, A20, A22), em geral à noite, quando estavam deitados com suas companheiras:
“Ah, eu converso com ele, converso, fico conversando e conversando com ela [a companheira], daqui a pouco ele começa a se mexer, eu começo a falar com ele...” (J9)
“Ah, [quando ela se mexe] eu me sinto um deus, sabe aquela sensação assim ‘Eu que fiz essa...’, um pedacinho meu que está ali. E eu converso, ela se mexe. Às vezes eu ponho a mão e ela fica... eu sinto a mãozinha dela, é um troço sensacional! Quase toda a noite a gente deita na cama e eu converso com ela, passo a mão na barriga, deito e beijo e falo, praticamente toda a noite. Ela reage, chuta, se mexe. Às vezes quando, tem dia que eu não sei se ela está meio irritada, o que ela está, que eu faço, faço e ela não se mexe, aí eu tiro a mão e ela vai lá e faz. E tem dia que eu faço, converso com ela e ela chuta, se mexe, e eu sinto direitinho, com a mão assim, em mim” (A20)
Porém, alguns pais relataram uma certa dificuldade de conversar, por pensarem que o bebê não os entenderia ou pelo seu jeito tímido de ser (J2, A15, A16, A17, A18):
“... na barriga eu não me sinto bem conversando porque eu acho que... (...) ... acho que escuta, mas não está entendendo, então fico meio assim para falar, mas falo porque ela está pedindo, sabe.... (...) Não gosto de falar, eu gosto de chegar e tocar a barriga dela” (J2)
“... não sou muito [de conversar], ela conversa mais, ela que fala, eu passo a mão na barriga dela e ela fica falando que é o papai que está passando a mão” (A17)
Já em relação a tocar ou acariciar a barriga da companheira, os pais não demonstraram dificuldades, ao contrário, comentam ser essa experiência bastante gratificante, algo que fazem instintivamente (J2, J4, J9, J10, J11, A13, A15, A16, A17, A18, A19, A20, A21, A22):
“... (...) é uma coisa assim que é um instinto, quando tu vês, tu já estás com a mão em cima, já vai passando, tu começas a procurar onde tu vais colocar a mão, às vezes ele, quando ele está mexendo
muito, tu colocas a mão, ele para, fica bem quietinho, e de repente já começa de novo. Mas é um instinto, não adianta.” (A19)
Analisando-se os depoimentos dos futuros pais, constata-se que todos eles já haviam percebido os movimentos intra-uterinos de seu bebê, sentindo que ele reagia à sua presença e por isso ficando felizes. Ao mesmo tempo, muitos participantes, em ambos os grupos, mencionaram certa dificuldade para perceber os movimentos do feto.
Esta dificuldade dos futuros pais poderia ser decorrente de seu medo de reconhecer a realidade e a autonomia do filho (Soulé, 1987), pois este é mais um fator que colabora para restringir as fantasias do casal sobre o bebê imaginado. Ou ainda, poderia ser decorrente da vivência indireta da gravidez do homem, uma vez que não sente dentro de si os movimentos, e sim de forma mediada pela companheira (Szejer & Stewart, 1997).
Ao mesmo tempo, os achados do presente estudo concordam com a literatura, que diz que a partir do momento que os pais percebem os movimentos do bebê, um novo contato parece ser estabelecido com o feto, que se torna mais real, e passa a ser visto muito mais como um ser autônomo e completo, inclusive com personalidade (Brazelton & Cramer, 1992; Szejer & Stewart, 1997). Isto pode ser constatado também nos depoimentos de alguns pais que pensam que o bebê será agitado porque movimenta-se bastante (J6, J7, J9, A21).
“Ela vai ser bastante agitada, ela se mexe bastante.” (J7)
“Talvez seja um pouco parecido comigo, que dizem que eu sou elétrico desde criança, e a médica já disse que é elétrico, que ela tenta escutar e ele mexe bastante, vai para um lado e para o outro...” (A21)
Quanto ao contato com o bebê, a forma mais utilizada pelos futuros pais adolescentes e adultos para estabelecer contato é tocar ou acariciar a barriga da companheira e conversar com ele. Porém, conversar com o bebê parece ser mais difícil para os participantes do que o toque. Essas dificuldades dos futuros pais poderiam refletir a vivência da gravidez do homem, que em geral se dá de forma indireta, simbólica, uma vez que não acontece dentro de si mesmo (Szejer & Stewart, 1998).
Chama atenção a grande participação dos pais no que diz respeito a ter contato com o bebê. Em geral eles procuram mostrar-se ao bebê, talvez a fim de aproximar-se e fazer-se reconhecer por ele. Nesse sentido, a dificuldade de alguns pais de conversarem com o feto e de perceberem seus movimentos parece justamente refletir essa exclusão
da díade (Soulé, 1987). Além disso, o grande desejo de manter contato pode ser uma forma de lidar com o luto inerente à condição masculina, de que não conseguirá gerar um filho dentro de seu ventre, como a mulher consegue (Soulé, 1987).
Já quando se compara os depoimentos dos futuros pais entre os grupos, constata-se que os adolescentes mencionaram acariciar a barriga menos que os adultos. Ao mesmo tempo, os adultos foram os que mais mencionaram dificuldade para se comunicar com o bebê através da fala, utilizando mais o toque como forma de contato.
Esta dificuldade dos adolescentes para acariciar a barriga da gestante poderia estar relacionada ao mencionado na próxima subcategoria (1.6), em que deixaram transparecer uma menor aceitação das mudanças do corpo da companheira. Até mesmo pelo desconhecimento, eles poderiam ter medo de tocá-la.
Especificamente no que tange à reação dos futuros pais aos primeiros movimentos intra-uterinos do bebê, poucos participantes referiram alguma reação.
Dentre os que mencionaram o tema, em geral a reação foi boa, de grande emoção (J3, J5, J6, J9, J10, A22). Um pai adolescente referiu sua reação como inexplicável (J4), como pode ser visto a seguir:
“... ela estava deitada na cama e eu estava fazendo suco para ela, (...) e ela botou a mão na barriga e [disse] ‘Bah, I., vem aqui ligeiro!’, aí eu ‘Bah, vem aqui por quê?’, ‘O nenê está mexendo!’, aí eu botei a mão na barriga assim e não mexeu na hora. Aí eu comecei a falar com ele, aí ele começou a chutar, a se mexer, aí eu falava com ele, falava com ele, ele se mexia, cada vez que eu falava com ele, ele se mexia.
Bah, eu fiquei tri emocionado!” (J9)
“Ai, foi super legal,, eu nunca tinha visto assim, porque eu nunca tinha tocado na barriga de uma gestantepara saber. Mas é super legal, eles começam a fazer ondinha assim...” (J6)
“... me deu um negócio por dentro, não tem como explicar, sabe...” (J4)
No entanto, houve também reações de estranheza e surpresa com o fato, além de descrença (J8, J11, J10, J12) e medo (J5). Dois pais também mencionaram dificuldade para perceber os movimentos iniciais do bebê (A21, A22):
“...eu estava deitado e eu já senti um movimentozinho, sabe, bem levezinho, só um movimentozinho assim... Eu ‘O que que é isso?’, ela ‘Ah, é a tua filha!’, (...) e eu ‘Ai, mentira!’, ela ‘Ah, é sim!’, mas era só assim um movimentozinho bem de levezinho. Mas depois ela começou a ficar mais fortezinha, começou a dar chute” (J11)
“A primeira vez foi tri, que ela estava deitada assim, ela ‘Ah, põe a mão aqui, põe a mão aqui!’. Eu coloquei assim, ele mexeu. Ah, foi tri. (...) No início deu até um medo” (J5)
“... ele mexe, a K. me fala, eu vou lá e toco, mas na verdade eu sinto pouco, eu não consigo sentir, mal o pezinho, que ele estava atravessado, agora ele já ajeitou, mas ele, sei lá, às vezes [sinto] uma mexidinha assim...” (A21)
“No início eu sentia a barriguinha dela crescendo, não sentia o movimento, porque externamente é difícil da gente avaliar, porque o homem não está sentindo isso internamente, ele está sentindo externamente, pelo que vê, então eu me baseava muito pelo que ela estava dizendo, e a gente vinha conversando com ele e tal. Aí quando eu comecei a sentir realmente o movimento dele na minha mão, eu senti que se eu colocava a mão na barriga dela, ele sentia o calor da minha mão, ele vai onde a minha mão está, foi uma sensação fora do comum.” (A22)
Dentre os poucos participantes adolescentes e adultos que referiram alguma reação aos primeiros movimentos intra-uterinos, em ambos os grupos percebe-se reações positivas, de felicidade por terem mais uma confirmação da existência do bebê e de seu estado de saúde, e indiretamente de seu novo papel de pai.
No entanto, comparando-se os grupos, entre os adolescentes ressalta-se a presença de reações de estranheza, surpresa, descrença e medo em relação ao fato, não encontradas entre os adultos, cuja reação foi predominantemente positiva. Estas reações referidas pelos adolescentes poderiam ser decorrentes de seu menor conhecimento sobre a gestação e o desenvolvimento intra-uterino do bebê, uma vez que a literatura documenta amplamente o desconhecimento por parte dos adolescentes quanto aos estágios de desenvolvimento e capacidades do bebê (Bolton & Belsky, 1986; Harris, 1998; Lamb & Elster, 1986; Montmayor, 1986; Parke, Power & Fisher, 1980; Reis &
Herz, 1987; Rhein & cols., 1997).