6. Expectativa quanto à paternidade e relacionamento com o bebê
6.5 Expectativas quanto a mudanças pessoais e conjugais
Esta subcategoria considerou as expectativas dos futuros pais quanto às mudanças pessoais e conjugais decorrentes do nascimento do bebê. De fato, a grande maioria dos futuros pais mencionou esperar alguma mudança pessoal (J1, J2, J3, J4, J5, J8, J9, A13, A15, A16, A17, A18, A19, A20, A21, A22, A23) e/ou conjugal (J1, J3, J4, J6, J7, J8, J9, J10, J11, J12, A13, A14, A15, A17, A18, A19, A20, A21, A23) após o nascimento.
Quanto às mudanças pessoais esperadas, foram citadas o aumento da responsabilidade (J1, J2, J5, J8, A22) e a redução da liberdade (J1, J4, A17, A18, A23).
De modo geral, os pais referiam-se às mudanças pessoais como casal (nós) e não
individualizando-as apenas para si mesmos (eu). Abaixo encontram-se trechos ilustrativos destas idéias dos participantes:
“Responsabilidade eu acho. A responsabilidade aumenta, agora não tem mais festinha, não tem mais. Só quando ele estiver maiorzinho de repente. Mas vai mudar a responsabilidade, tem que aumentar.” (J1)
“A gente sempre saía, fazia festa, ficava até tarde na rua. A gente vai ter que se reorganizar, eu acho, essas saídas, e no resto eu acho que não, de resto tudo se encaixa.” (A18)
Contudo, de modo geral, os futuros pais foram vagos em suas respostas, referindo que sua vida mudaria pouco (J2, J4, J9, A19, A20, A21) ou muito (J3, J5, J8, J12, A13, A15, A16, A22) após a chegada do bebê, poucas vezes citando os aspectos que seriam modificados. Alguns pais, mesmo comentando sobre o tema, referiram não terem uma idéia muito clara sobre o assunto (J2, J3, J5, J6, J11, J12, A19, A21):
“Ah, ela gostava de sair, gostava de trabalhar também, eu falei para ela ‘Não, vamos continuar como nós éramos antes, sair, se divertir, tu trabalhando e eu também, eu quero arrumar um serviço bom também, para mim cuidar do meu filho legal (...). Ah, não vai mudar muito, nós vamos fazer as mesmas coisas que nós fazíamos antes, mas com a atenção no nenê.” (J9)
“Olha, vai ser, bem dizer vai ser o mesmo, a única coisa que vai mudar é que vai ter mais um, ter mais um integrante nessa família, que será amado, vai ser uma alegria para nós, mais uma alegria, sabe, que uma criança todo dia ela descobre alguma coisa, é um passo novo, sabe, nós vamos ter que passar por muita coisa, então vai ser muito legal.” (A19)
“Vai mudar muito. Ah, não sei onde que vai ser as maiores mudanças, mas vai mudar. Não sei, acho que já está mudando.” (J5)
“A princípio vai mudar muita coisa, não... vai ter um espaço que é nosso, nossa casa ali, vai mudar muita coisa até dentro de casa, o jeito de pensar, o jeito de... vai mudar muita coisa, vai mudar muito.”
(A13)
“Tudo, tudo, vai ocorrer mudança na hora, desde a hora que ele abrir o olho até a hora que ele fecha, muda tudo, muda tudo.” (A22)
“Ai, um monte... ai, agora eu não sei explicar assim...” (J3)
De modo geral, percebe-se que tanto adolescentes quanto adultos possuem consciência das possíveis modificações pessoais decorrentes do nascimento de seu filho.
Contudo, a idéia em geral é vaga e os futuros pais não conseguem expressar claramente em que aspectos ocorrerão as maiores mudanças, muitas vezes acreditando que elas não
serão tão radicais quanto comumente se fala. O que aparece de modo geral é uma incerteza quanto a si mesmos no futuro, uma dificuldade de imaginar as modificações impostas pela nova vida, onde será necessária uma reformulação da forma habitual de viver. Isso reflete uma dificuldade de pensar adiante sobre a experiência atual da gravidez, e até mesmo o desconhecimento da situação, por serem todos “pais de primeira viagem”. Além disso, como comenta Stern (1997), as representações dos pais seriam menos modificadas que as das mães, o que poderia lhes dificultar pensar nas mudanças decorrentes da chegada do bebê.
Já para aqueles que conseguem vislumbrar de forma mais concreta as modificações pessoais que sofrerão com a chegada do bebê, a maior responsabilidade e a conseqüente redução da liberdade foram citadas por participantes de ambos os grupos.
Estas mesmas restrições impostas pela paternidade também foram citadas no trabalho de Belsky e Miller (1986).
No entanto, comparando-se as falas entre os grupos, sobressai-se uma tendência dos adolescentes a citarem o aumento de responsabilidade, enquanto que os adultos enfatizaram mais a redução da liberdade. Isto talvez se deva ao fato dos adultos já terem assumido muito mais responsabilidades em função até de sua idade e estado civil. Estas mudanças pessoais esperadas parecem ser uma continuação daquelas mencionadas como decorrentes da gravidez.
Quanto às mudanças conjugais, vários futuros pais pensam que sua relação com a companheira será modificada com o nascimento do bebê (J1, J7, J8, J10, J11, A13, A14, A15, A17, A19, A20, A22, A23), enquanto outros pensam que não haverá nenhuma modificação (J3, J4, J9, J12, A16, A18, A21). Dentre os que citaram mudanças, as respostas foram contraditórias: alguns mencionaram uma maior união do casal com o nascimento da criança (J7, J8, J10, J11, A19, A22, A23), enquanto alguns mencionaram um certo afastamento do casal, pois sua atenção seria a partir daí dividida entre a companheira e o bebê (J1, A14, A17, A20). Dois futuros pais citaram ainda um medo de que o casal pudesse se separar (J6, J11). Várias expectativas dos participantes são encontradas nos exemplos abaixo:
“É, eu acho que vai mudar nisso aí, a gente vai, vai se ver muito mais, e muito mais tempo. E vai ser aquilo... bah, a gente já é unido agora, que namorando a gente já era unido, imagina agora com filho e todo aquele, sabe, é um casamento, não, não precisa tu assinar no papel ou ir na Igreja te vestir, sabe. A partir do momento que tu tens um filho com a pessoa que tu gostas, acho que tu já te casastes, deu, sabe.
Claro, não precisa nem tu pores uma aliança no dedo, tu já estás unido para o resto da tua vida. Claro, nem que a gente se separe amanhã ou depois, que não vai acontecer, que a gente se separa amanhã ou depois, mas a gente vai estar sempre se vendo, sempre, sempre se falando, que a gente tem o L.” (J10)
“Eu acho, eu acho não, tenho certeza que vai solidificar muito mais o nosso relacionamento por causa do O., (...) não que o nosso relacionamento não seja um relacionamento sólido, ele é sólido, mas a tendência é solidificar cada vez mais, porque são duas pessoas direcionadas para que uma tenha as chances de crescer com uma casa legal, uma casa, um ambiente legal, uma casa onde todo mundo se sinta bem, onde ele possa ter a liberdade dele, vai ser bem legal.” (A22)
“Olha, porque as pessoas que a gente tem conversado falam que a criança toma muito tempo, e a gente passa a viver em função da criança, tudo, daí até a gente comenta alguma coisa, mas eu creio que até devido a ser mais uma pessoa, claro que a gente tem que se dedicar mais um tempo para a criança tudo, mas tem que levar tudo controlado, a minha vida, a vida da R., para que não venha se tumultuar uma com a outra assim.” (A14)
“Não, claro que agora, por exemplo, quando a gente está em casa, ela diz que não, mas a atenção... ela acha que eu dou mais atenção para a TV do que para ela, eu gosto de TV. Mas a atenção vai toda pra ela, a minha, a dela vem toda pra mim, agora a gente vai ter que dividir, vai ser a única coisa que vai...”
(A20)
Examinando-se as respostas dos dois grupos, constata-se que tanto adultos como adolescentes possuem consciência de que ocorrerão modificações em sua vida conjugal.
Contudo, comparando-se as falas por grupo etário, percebe-se que os adolescentes tendem a pensar mais do que os adultos que sua relação não mudará ou que o casal ficará ainda mais unido. Isto parece indicar a existência entre os adolescentes de expectativas irreais sobre sua relação, no sentido de pensar que o evento do nascimento não afetaria em nada o casal. Resultado semelhante foi encontrado por Nakashima e Camp (1984). Nesse sentido, também poderia indicar um desconhecimento dos jovens das demandas de um bebê real, que naturalmente desgasta cada um dos cônjuges e altera o relacionamento do casal (Stern, 1997). Essa consciência da interferência do bebê na vida do casal parece ser maior para os adultos, talvez por já terem conhecimento do fato pela experiência de outros casais amigos que já têm filhos, e até mesmo por já terem uma maior convivência como casal, sentindo desde a gravidez transformações em seu relacionamento. De fato, a paternidade e a maternidade, mesmo sendo experiências partilhadas, podem causar grandes tensões na relação conjugal, até que sejam feitos os devidos ajustes entre os membros (Belsky & Miller, 1986; Lewis &
Dessen, 1999).
Outro fato que poderia contribuir para isso é que todos os adultos moram junto com suas companheiras, e terão assim maior contato com ela e com o bebê futuramente.
Dentre os adolescentes, três não moram junto com a companheira, e os demais estão juntos a relativamente pouco tempo (em média em torno de 1 ano).
Por outro lado, a visão dos adolescentes de maiores mudanças positivas poderia ser um reflexo da nova realidade da paternidade, que muitas vezes une mais o casal e até poderia promover a maturidade psicológica do pai adolescente, conforme citado por Belsky e Miller (1986).
Quando questionados sobre como reagiriam às mudanças decorrentes do nascimento do bebê, vários futuros pais relataram uma reação positiva, compreensiva, até por já estarem preparados para isso (J1, J3, J5, A18, A20, A21, A22). Um participante disse que deveria estar preparado para tudo (J6) e outro que teria que se acostumar (J4). Dois pais disseram não saber como reagirão (J11, J12):
“Vou me sentir numa boa, porque eu vou entender quando ela der mais atenção, esquecer um pouco de mim, eu já sei que é normal isso daí. Como eu posso esquecer também e dar atenção só para a criança.
Mas numa boa.” (J1)
“Sabe que eu até nem me preocupo com isso, é que eu já me acho, eu acho que já estava tão na hora de ser pai que eu acho que eu já estou me preparando a tempo assim, até sem me preocupar em pensar muito, eu já estou preparado a tempo e nem penso que vai afetar assim, talvez eu estou me iludindo, que ele vá passar as noites chorando, que eu não vou conseguir trabalhar direito, mas eu, os meus colegas às vezes comentam que têm filho, que vai mudar, mas eu não, realmente eu não me preocupo com isso. Ah, se ocorrer mudanças tranqüilo, não tem problema, não tem problema.” (A21)
“Eu não sei, tem que ver.” (J12)
Estes relatos sugerem que os adultos parecem sentir-se mais preparados para aceitar as mudanças do que os adolescentes, que parecem nem conseguir pensar sobre o assunto, talvez até mesmo por uma limitação cognitiva que os impede de vislumbrar um futuro mais distante (McKinney, Fitzgerald & Strommen, 1977; Montmayor, 1986;
Piaget, 1976).