4. Vivências transgeracionais
4.3 Modelos de pai
Esta subcategoria englobou todos os relatos sobre modelos positivos e negativos de pai que os futuros pais gostariam ou não de seguir e suas razões para isso.
Em relação aos modelos positivos, os participantes citaram diferentes modelos.
A maioria dos futuros pais citou o próprio pai (J3, J4, J5, J6, J8, A15, A16, A17, A19, A20, A21, A23), por ter sido um bom exemplo, ter provido as necessidades básicas da famílias, sem contudo deixar de ser afetivo e firme. Nos exemplos a seguir pode-se perceber as justificativas dos futuros pais para a escolha do próprio pai como modelo:
“Sei lá, acho que meu pai. (...) Ai, que o meu pai sempre foi companheiro. Ele que passou a infância inteira, toda vida era ele que estava em casa. A gente ia, vinha do colégio, ele buscava. Ele ficava com a gente de tarde. Minha mãe, ela trabalhava o dia inteiro. Daí eu fui criado mais com o meu pai mesmo. É, acho tri.” (J5)
“Eu me imagino como o meu pai. Um cara bom, comedido, que sabe o que faz, sabe o que a gente está precisando, que é duro quando precisa, eu acho que vou ser assim pelo exemplo que eu tive.” (A20)
Em alguns destes casos os participantes mencionaram que imitariam o próprio pai, mas com algumas ressalvas (J3, J8, A17, A23), principalmente em relação a ser alcoolista:
“É que o meu pai era um alcoólatra, então ele são com os filhos era uma pessoa que não tinha o que tirar, uma pessoa carinhosa com os filhos, mas ele incomodava a minha mãe, então quer dizer que não adiantava ele ser carinhoso com a gente...” (A17)
Com menor freqüência foram citados outros familiares como modelo de pai, como o irmão (A13), o tio (A14), o cunhado (A21), amigos (J11, A14) e vizinhos (J6), por também serem carinhosos e dedicados aos filhos:
“Um bom pai eu imagino meu irmão, meu irmão para o guri dele é o melhor pai do mundo (...) Imagino meu irmão, ele troca fralda, dá atenção, ensina o guri, volta e meia ele está muito berrão, o meu irmão pega o guri, bota ele sentado e diz ‘Pode ficar aí sentado que nós vamos conversar’, tem que ver a brabeza dele, entende tudo.” (A13)
Chama a atenção que um bom número de participantes referiu não ter nenhum modelo positivo de pai (J9, J10, J12, A18), preferindo ser da forma como é ao relacionar-se com o filho (J1, J12, A22):
“Não, modelo não, eu quero ser eu mesmo, eu mesmo com ele.” (J12)
“... hoje eu não procuro um modelo, (...) porque um modelo fica na tua imaginação e às vezes tu não consegues passar aquilo para a realidade. Eu quero me tornar o meu modelo de pai, eu quero construir a minha características, as minhas atitudes, as minhas ações como pai, eu quero tirar isso do interior, isso aí eu sei que como ela nunca foi mãe, vai ser pela primeira vez, ela vai, isso vai aflorar dela, esse sentimento, da mesma forma acho que da minha pessoa também.” (A22)
Apenas um futuro pai referiu que poderia seguir qualquer modelo de pai diferente do seu próprio pai (J7):
“Menos o meu pai, eu seria qualquer outro...” (J7)
De forma global, os depoimentos dos futuros pais indicaram semelhanças no que diz respeito ao modelo positivo de pai, sendo o próprio pai a figura mais citada nos dois grupos. Em alguns casos, este foi citado com ressalvas. De qualquer forma, este achado apoia a literatura que diz que em geral a vivência com os genitores do mesmo sexo é o maior modelo parental para os futuros pais (Bowlby, 1989; Lewis & Dessen, 1999;
Parke, 1996; Riesch & cols., 1996). Além disso, na gestação a relação com os genitores seria revisada, podendo ser re-elaboradas as vivências passadas, tomando-se o pai como modelo direto ou indireto (Anderson, 1996; Brazelton & Cramer, 1992; Parke, 1996;
Riesch & cols., 1996; Slade & Cohen, 1996).
Chama atenção entre os grupos a valorização da afetividade e da educação global do filho. Estas características foram as mais citadas como motivo para “imitar”
os modelos citados. Nesse sentido, fica evidente uma mudança social de valores no que tange ao papel paterno, já bastante documentada na literatura como o novo pai. A ele não cabe somente o sustento material e a educação dos filhos, mas também a participação afetiva e prática na sua criação (Cabrera & cols., 2000; Daly, 1993;
Garbarino, 1993; Parke, 1996; Rotundo, 1985). Esta modificação do papel paterno teve lugar a partir de diversas transformações sociais e modificação da própria identidade masculina ocorrida neste século, a partir da qual foi possível aos homens colocar em prática uma parte maior da sua feminilidade (Silva, 2000).
No entanto, entre os grupos percebe-se uma tendência dos adolescentes de priorizarem o lado afetivo, ao contrário dos adultos, que parecem priorizar o lado educativo, formativo. Isto poderia estar relacionado à própria educação que tiveram. Os pais dos futuros pais adultos viveram em uma época bastante diferente culturalmente, tendo criado seus filhos conforme o modelo paterno da época, que valorizava a instrução e a educação (principalmente a colocação de limites aos filhos). Já os pais dos futuros pais adolescentes podem já estar sendo (e ter sido) influenciados pela nova mentalidade em relação ao novo papel paterno, mais participativo e afetivo (Cabrera &
cols., 2000; Daly, 1993; Garbarino, 1993; Parke, 1996; Rotundo, 1985; Szejer &
Stewart, 1997). Uma outra razão para esta tendência seria a própria idade dos adolescentes, em que o que buscam é justamente superar os limites impostos pelos pais e garantir sua autonomia. Nesse caso, este aspecto educativo não seria tão importante
para eles como o afetivo, o lado prazeiroso de ser pai, talvez também por não se acharem ainda em condições de colocar limites em outra pessoa, como em seu filho.
Além disso, constata-se uma tendência entre os jovens de não terem um modelo positivo de pai, preferindo descobrir-se ao longo do exercício de seu papel, o que não aparece tanto entre os adultos. A princípio, este achado iria contra o depoimento anterior dado por alguns destes jovens, no qual ressaltaram suas vivências positivas com o próprio pai. No entanto, poderia estar relacionado com a própria fase adolescente, em que está presente de forma marcante a oposição aos genitores e o desejo de autonomia.
Assim, os jovens tenderiam a querer diferenciar-se de seus pais, por melhores que tenham sido, como resultado de uma tarefa normal da adolescência (Blos, 1994; Sadler
& Catrone, 1983; Teti & Lamb, 1986). Um outro aspecto que poderia estar relacionado a esta situação é o próprio fato de muitos deles terem sido abandonados por seus próprios pais, não tendo assim um modelo paterno a seguir. Para Daly (1993), muitos pais nesta situação enfrentam dificuldade na construção de sua identidade parental, ao mesmo tempo em que o sentir-se sem modelos a seguir refletiria a mudança atual no que diz respeito ao ideal social do que seja ser pai.
Em relação aos modelos negativos citados pelos futuros pais, isto é, pessoas que eles não gostariam de seguir como modelo de pai, também foram encontradas respostas variadas. Na maioria das vezes, os participantes referiram um modelo negativo genérico, que inclui características como ser drogado, marginal, distante da criança, violento e/ou alcoolista (J2, J3, J5, J9, J10, J12, A15, A19, A20, A21, A22). Alguns participantes também mencionaram o próprio pai como modelo negativo (J7, A13, A14, A16, A17), por possuírem as mesmas características do modelo geral acima citado.
Outros participantes referiram não ter um modelo negativo (J1, J5, J6, A18). Alguns também citaram outras pessoas da família (J12, A21) ou amigos (J8). Todos estes exemplos de modelos negativos aparecem nos seguintes depoimentos:
“Um marginal, um drogado... Isso não é um modelo de pai. Um pai que larga... um pai que larga não é pai...” (J3)
“O meu pai seria uma referência assim que é, seria uma idéia assim do que ele viveu o meu filho procurar não viver, porque é uma pessoa... O contrário, então, seria aquilo ali invertido, tirei proveito e vou sempre tirar, mas não o modelo de vida assim, o estilo de vida do meu pai. É que o meu pai sempre foi ausente de nós, ele trabalhava fora e é uma pessoa, ele é alcoólatra, por causa disse daí eu penso que
ele não se importava muito com a gente, daí quando ele estava junto ele procurava estar mais próximo, mas ele sempre trabalhava fora...” (A14)
“Quando os meus pais não estavam e meu irmão mais velho não estava, ele é o segundo, ele era muito firme comigo e com os filhos ele deixa fazer o que quiserem, tanto que os guris me ouvem mais do que ouvem o pai, isso eu não quero, provavelmente isso eu não quero” (A21)
Analisando-se as falas dos futuros pais, percebe-se que tanto pais adolescentes como adultos concordam quanto ao tipo de pai que não desejariam ser para seus filhos, no caso, violento, ausente, viciado em álcool ou drogas, dentre outras coisas. Esse modelo parece refletir um ideal social do bom pai, no sentido de que os modelos negativos corresponderiam a pessoas que se comportam de forma oposta ao que socialmente se considera como sendo um bom pai (Cabrera & cols., 2000; Daly, 1993;
Parke, 1996). Além disso, os modelos negativos citados poderiam refletir o modelo de pai que muitos participantes têm ao seu redor, seja pelo ambiente em que vivem, seja pela realidade atual veiculada nos meios de comunicação de massa, por exemplo, em que se percebe a dificuldade de convivência e de diálogo entre pais e filhos. Não se pode esquecer também que o fato de terem citado modelos genéricos poderia ser decorrente de sua dificuldade em identificar determinadas pessoas como maus pais, e uma habilidade maior para identificar valores, ações e padrões que não gostariam de incorporar ao seu exercício do papel paterno (Daly, 1993). De fato, durante as entrevistas os participantes comentaram que costumavam prestar atenção ao comportamento de outros pais e mães e logo identificavam atitudes que não gostariam de “imitar”.
Um outro aspecto interessante diz respeito ao desejo dos futuros pais de que tudo desse certo em sua estréia na vida parental, conseguindo desempenhar com sucesso seu novo papel. Este desejo parece ser universal, conforme apontam Brazelton e Cramer (1992). Assim, todas as características que lhes dificultariam atingir este desempenho foram consideradas negativas, devendo ser evitadas.
Contudo, comparando-se os dois grupos, se percebe entre os adolescentes uma tendência a não indicar o próprio pai como um modelo negativo, tão freqüente entre os adultos, principalmente por ele ser (ou ter sido) alcoolista e/ou ausente. Este achado foi também encontrado por Anderson (1996) entre pais adultos. Quanto aos adolescentes, estes dados são contrários aos achados de Allen e Doherty (1996), de que os adolescentes teriam um modelo de papel paterno negativo proveniente dos próprios
pais. Nesse sentido, os adultos parecem ter maior consciência acerca do pai que tiveram e da necessidade de corrigir seus erros, mostrando um desejo de reparar suas vivências desprazerosas, proporcionando ao filho o que não tiveram. Nesse sentido, sabe-se que os pais podem ser usados como modelos diretos ou indiretos pelos futuros pais (Bowlby, 1989; Parke, 1996; Riesch & cols., 1996; Soulé, 1987; Trindade & Bruns, 1999). Contudo, entre os adolescentes este desejo de ser melhor que o próprio pai também apareceu, mesmo que não os tenham citado como modelos negativos. Assim, esta tendência não pode ser entendida como um indício de que os pais adolescentes teriam modelos de pais mais favoráveis que os adultos, mas sim como indício de um desejo “universal” de futuros pais a acertar, como foi comentado acima. Isto porque alguns adolescentes (3), até mesmo por não terem convivido com seus pais, os consideram como modelo a não ser seguido, ao contrário dos adultos, que mesmo tendo convivido com seus pais, guardam deles lembranças negativas.