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CAPÍTULO 5 – INTRODUZINDO O CENÁRIO, A ORQUESTRA E A

5.1.1 Abordagem do Ciclo de Políticas

5.1.1.3 Contexto da prática

O contexto de prática é aquele em que a política oficial é manuseada e posta em prática por meio da criatividade de agentes locais específicos, conforme sua capacidade de interpretação do texto político e suas condições de implementação das ações. Nesse sentido, uma determinada política pode apresentar características e resultados diversos, uma vez que está sujeita a reinterpretações divergentes da proposta oficial. No campo das políticas educacionais, Bowe et al. (1992) chamam a atenção para a participação ativa dos professores que agem seletivamente conferindo legitimidade a alguns aspectos da política em detrimento de outros que consideram pouco relevantes. A esse modus operandi, Ball (1993), fundado na perspectiva foulcautiana de que “os discursos nunca são independentes de história, poder e interesses” (MAINARDES, 2006, p.54), situa-o na arena da práxis política. Em relação à criatividade dos agentes das políticas educacionais, Bowe et al (1992) adverte que,

[...] os profissionais que atuam no contexto da prática [escolas, por exemplo] não enfrentam os textos políticos como leitores ingênuos, eles vêm com suas histórias, experiências, valores e propósitos (...). Políticas serão interpretadas diferentemente uma vez que histórias, experiências, valores, propósitos e interesses são diversos. A questão é que os autores dos textos políticos não podem controlar os significados de seus textos. Partes podem ser rejeitadas, selecionadas, ignoradas, deliberadamente mal entendidas, réplicas podem ser superficiais etc. Além disso, interpretação é uma questão de disputa. Interpretações diferentes serão contestadas, uma vez que se relacionam com interesses diversos, uma ou outra interpretação predominará, embora desvios ou interpretações minoritárias possam ser importantes (BOWE et al. 1992, p.22).

A despeito da autonomia dos agentes lhes permitirem a adaptação e recriação da política oficial, o exercício dessa autonomia é posto em prática com base nos discursos que os constituem. E, considerando que tais discursos, em geral, são atravessados por ideologias

dominantes, esses agentes precisam ser revestidos de uma nova práxis política crítica para pautarem suas escolhas com base em critérios que promovam equidade na distribuição de condições sociais na política em uso.

Como já advertira noutro lugar sobre as intervenções realizadas por diferentes agentes no ciclo de uma política, retomo a importância de analisar os resultados e/ou efeitos (BALL, 1994) de uma política em seu contexto de aplicação imediato e subjetivo, considerando as histórias, experiências, valores e propósitos que motivam e gerenciam a política em âmbito local. A partir dessa acepção é que vi a necessidade de preencher este manuscrito com reminiscências do meu agir docente, na tentativa de que o leitor pudesse antever as motivações que orientaram este estudo e contextualizá-las ao objeto de pesquisa, visto que o mesmo objeto, estudado em outro contexto, poderá produzir outros resultados e encetar outras políticas.

Dada a natureza polissêmica do texto político e diante da real possibilidade de subversão de uma política dentro de um contexto local específico, a pesquisa deve emergir da práxis para aproximar o objeto da realidade. Nesse aspecto, o contexto da prática retoma o conceito de práxis de base marxista dialética, no qual a práxis constitui “o mundo material social elaborado e organizado pelo ser humano no desenvolvimento de sua existência como ser racional” (TRIVIÑOS, 2006, p.122). Para entender a relação dialética entre a política oficial e o processo de codificação do texto político, pelo agente, é preciso resgatar o processo dinâmico de constituição da racionalidade humana frente aos eventos materiais, ou seja, a constituição do conhecimento teórico (política como texto) que subjaz a prática (política em uso). Baseada na assunção marxista de que na verdade “existe uma prática e uma compreensão dessa prática” (MARX, Tese VIII sobre Feuerbach) e que “devemos conhecer a teoria que origina essa prática” (TRIVIÑOS, 2006, p.125). Assim, gostaria de ressaltar que neste estudo, o foco investigativo no contexto de prática visava identificar e descrever o conhecimento teórico empregado pelos agentes do CsF para lidar com a política oficial de internacionalização da educação e da ciência, tanto na gestão do programa, no topo, quanto nas IES, na ponta, incluindo os professores de LI.

Esclarecendo um pouco mais a práxis na concepção marxista, para tangenciá-la ao escopo do contexto de prática da ACP, o fundamento da práxis assenta-se no argumento de que as ideias não mudam a realidade material, mas a prática, que é material, pode transformar a realidade objetiva. Nessa ordem, a prática é, portanto, a base do conhecimento e, por conseguinte, da teoria. No que concerne à educação, e ao educador como agente de transformação da realidade material, Marx (1984) critica o materialismo contemplativo filosófico e coloca em destaque a relevância do professor. Para ele, o professor deve ser

preparado para transformar a sociedade. Nesses parâmetros Marx enfatiza que “a doutrina materialista da transformação das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias têm de ser transformadas pelos homens e que o próprio educador tem de ser educado” (MARX, 1984, p. 108).

Além disso, a emancipação que se espera para a educação e seus agentes não pode ser no plano apenas teórico, na subjetividade; antes, deve ser material, manifesta na práxis social e legitimada na transformação da realidade objetiva. Por fim, quando essa práxis social, manifestada, torna-se verificável, “então o conhecimento que surge dessas práticas pode ser denominado ciência, arte” (TRIVIÑOS, 2006, p.136). Nesse aspecto, todo meu empreendimento, neste estudo, assentou-se na possibilidade de que a práxis do CsF proveu níveis de verificação capazes de conduzir à produção de conhecimento sobre e para a práxis do professor de LI no cenário da internacionalização da educação e da ciência, e, portanto, ensaiar alternativas para preparar o professor de LI para transformar sua realidade material, emancipando-o para emancipar a ciência nacional.

Por fim, as categorias de análise nesse contexto não podem ser prescritas, visto que a materialidade dos contextos de aplicação da política é diversa. Nesse sentido, a estratégia de coleta foi promovida pelo confronto do texto político, ipsis literis, com a prática política averiguada in loco. Os dados foram representados nos aspectos divergentes entre texto político e prática política. A política prescrita foi aferida por meio dos documentos normativos do programa, e a política posta em prática, por meio do relatório de atividades do IFTO 2010-2018. Nesse aspecto, reitero que o contexto de prática no qual direciono o planejamento se refere ao IFTO – campus Paraíso.