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4.1 CONTEXTO E AÇÃO EMPREENDEDORA NA COMUNIDADE VÁRZEA COMPRIDA DOS

4.1.2 Contexto e os agentes de fomento ao empreendedorismo

Pombal possui uma população estimada em 32.443 habitantes (IBGE, 2016). O Município está localizado na mesorregião do sertão do estado da Paraíba. Sua área territorial é

de 218,7 km², com população de 32.110, estando a 372 km da capital João Pessoa - PB. É a 4ª cidade mais antiga do estado da Paraíba, com a expectativa de vida média da população estimada em 66,2 anos. O município tem 25.955 eleitores, 11.284 domicílios residenciais e 721 estabelecimentos comerciais. A economia é preponderantemente agrícola, mas há evidente comércio interno e algumas fábricas. De acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB, 2015), a média ficou entre 3.7 e 4.1 para os anos iniciais do ensino fundamental, índices considerados medianos, tendo em vista que, nos países desenvolvidos, índices abaixo de 6 são considerados insatisfatórios.

De acordo com Beto, agente da Pastoral da Terra, devido ao longo período de estiagem, a cidade de Pombal teve que perfurar poços artesianos para suprir a necessidade de água para as famílias da zona rural. Ação feliz para muitas famílias, já que foram encontradas vazão de água na maioria dos poços. Apesar de a vazão de água não ser tão intensa, ela demonstra ser suficiente para os plantios. Outro ponto positivo na cidade é que há mobilização de várias instituições para o desenvolvimento do empreendedorismo social, direta ou indiretamente, pois, apesar de algumas dessas organizações não terem sido mencionadas especificamente como provedoras de tal fenômeno, as ações relatadas fazem referências às suas características.

A associação local foi criada em 1993 e legalmente reconhecida em 1994. Ao ser questionada se a burocracia foi difícil, Solange negou enfaticamente. Todavia, a presidente da associação reconheceu que tal legitimidade ocorreu com a ajuda de outra comunidade próxima, informando todos os papéis e documentos que eram necessários, assim como todo o processo a ser desenvolvido junto ao cartório da cidade de Pombal.

No âmbito da agricultura familiar, a cidade de Pombal apresenta quantidade considerável de cultivos de hortaliças, mas os agricultores também apresentam outros tipos de plantio, como milho, feijão e outras atividades econômicas complementares, como a fabricação de doces e bolos. Sobre tais recursos produtivos, vale apresentar elementos da experiência que a comunidade vem desenvolvendo na criação de uma padaria comunitária.

4.1.2.1 A produção de hortaliças

A comunidade possui uma herança produtiva muito fortemente fundada na agricultura. As famílias com as quais se teve contato sempre sobreviveram do cultivo de hortaliças, pois seus chefes são filhos de pais agricultores. Coentro, cebolinha e alface são alguns dos principais produtos da comunidade. Há ainda aqueles que criam gado para complementar a

renda com o leite e derivados. Todos os sábados eles seguem para as feiras municipais para vender seus produtos, sendo estas um dos maiores observatórios de oportunidades para as agricultoras. A ideia de se comercializar outros produtos como bolos e doces surgiu das interações sociais que ocorrem nesses lugares.

A necessidade de vender ao consumidor final tem ganhado nova proporção: as mulheres pretendem vender para organizações, tanto que, atualmente, há a possibilidade de vender hortaliças em supermercados e escolas da cidade de Pombal. Todavia, a certificação de produto orgânico abriria novas portas às agricultoras. Elas poderiam expandir a produção ou mesmo ter outras alternativas de escoá-la, sobretudo frente a possíveis ameaças de mudanças de partidos políticos no poder. Dessa forma, o risco de se manter refém de um prefeito diminuiria.

4.1.2.2 A padaria comunitária

Uma das conquistas de grande relevância para a comunidade está sendo a construção de uma padaria para todos do sítio. Conseguiu-se acompanhar parte de sua construção/capacitação e seus vínculos com o empreendedorismo social.

Com a associação organizada, as mulheres tiveram a ideia de criar uma padaria comunitária para diversificar os produtos oferecidos e ampliar as alternativas de renda. A construção do espaço comunitário foi realizada junto à Pastoral da Terra, tendo o Sr. Beto como agente de condução dos recursos. A legalização desta vez não foi simples, pois eles tiveram que adequar o espaço construído de acordo com as normas de vigilância sanitária para poder receber recursos da Pastoral.

Em relação à padaria comunitária, foi observado o elevado comprometimento das mulheres em relação a esta atividade. Na pesquisa de campo, observou-se uma reunião da empresa com uma representante de um projeto municipal, o Empoderar, que tinha agendado uma reunião com as mulheres sobre uma capacitação da área de panificação. O projeto Empoderar estava com alguns problemas: a) formação de duas turmas de capacitação com 18 alunos em cada uma delas, totalizando 36 pessoas para poder disponibilizar o curso; b) contribuição da comunidade com os insumos necessários para o curso; c) acomodação para o instrutor do curso.

Para sanar estes problemas, foram propostas as seguintes soluções: como a associação era composta de apenas 21 mulheres, precisariam então de mais 15 alunos. A ideia sugerida pela agente do Empoderar foi complementar com jovens da comunidade que tivessem idade

superior a 16 anos. A maioria das mulheres da associação apoiou a ideia, mas uma delas fez

um questionamento importante: “Precisamos saber se os jovens irão querer participar”. O

questionamento desta agricultora leva à reflexão sobre até que ponto os jovens estão envolvidos com as causas da comunidade, algo que foi levantado pelo Sr. Beto, agente da Pastoral da Terra, em sua narrativa.

Além disso, para resolver os problemas das matérias-primas, a associação se comprometeu em fornecer parte dos insumos necessários para o curso, como leite e ovos, por exemplo. Isto mostra o envolvimento das mulheres na busca por melhorias no processo de fabricação, abrindo mão de parte da produção individual em seus respectivos cultivos para adquirir novos conhecimentos. A outra parte dos insumos seria fornecida pelo projeto municipal Empoderar.

A resolução do impasse da acomodação do instrutor foi uma das resoluções que mais chamou a atenção. A associação reservou a capela da comunidade para receber o instrutor, preocuparam-se com o quarto, a qualidade do colchão, a disponibilização de um frigobar, estabeleceram um rodízio do preparo de refeições em que cada mulher iria se prontificar em oferecer café da manhã, almoço, lanche e janta em dias alternados. O primeiro fator que leva a uma reflexão é o local onde o instrutor seria recebido: a capela da comunidade, um local de grande valor simbólico para a comunidade, recinto onde os sujeitos se reúnem para receber bênçãos. Este mesmo local foi disponibilizado para o instrutor, o que leva à percepção de que as mulheres da associação têm apreço semelhante entre a sua fé e a busca por conhecimento. Uma foto de um dos dias de fabricação nos foi concedida na realização entrevista (Figura 5).

Figura 5 - Equipe Bolo das Oliveiras

Fonte: Pesquisa de campo (2016).

A fabricação de bolos tem se mostrado como uma grande oportunidade para a comunidade. E aqui, mais uma vez, percebeu-se a importância do município neste processo de fabricação, visto que a prefeitura compra R$ 11.000,00 reais em bolos da comunidade. A vantagem acaba se tornando ambígua, já que as mulheres de Várzea Comprida dos Oliveiras demonstraram preocupação com a ameaça da não continuidade desta compra considerável da prefeitura frente à incerteza da gestão da prefeita atual.

E além disso tudo que eu expliquei, o que mais alavancou esse grupo foi ela comprar 11 mil, não dá pra gente fazer mais coisa porque o grupo é grande, é muito grande, é 21, retira todas as despesas, tudo que é feito, e o restante que fica divide por 21, Então não se torna um lucro maior porque é muita gente, se tivesse um grupo de 5 pessoas o lucro seria outro. (Solange, presidente da associação).

Ficou claro no discurso das agricultoras o medo de não ter para quem vender a produção iminentemente potencializada com a concretização da padaria comunitária. Apesar do medo aparente, a determinação da presidente da associação é notória; segundo ela, “o

prefeito que assumir o poder tem a obrigação de continuar a apoiar a comunidade”.

4.1.2.3 Entidades de apoio (ou agentes de fomento ao empreendedorismo?)

As entidades de apoio são uma das grandes características do fomento ao empreendedorismo social na região. Uma primeira organização relatada foi o Cooperar, que

proporcionou recursos a mulheres que estão à frente de famílias rurais. A elas foi concedido incentivos financeiros para a estruturação de negócios de fabricação de bolos na cidade. Segundo os relatos, antes mesmo de essas mulheres trabalharem com bolos nos mercados, elas já negociavam suas hortaliças nesses locais e tinham também a predisposição para fazer bolos em suas casas. Com o dinheiro repassado, elas conseguiram inclusive adquirir veículos para transportar os bolos.

Aqui elas passaram por um problema: o veículo do tipo picape comprado não tinha cobertura em sua cabine traseira, o que impedia a certificação do produto para ser vendido nas escolas da cidade, gerando custos que não tinham sido previstos no gasto dos recursos. Esta situação leva a refletir que as concessões de recursos financeiros não levaram em consideração a certificação dos produtos, algo que foi também evidenciado pela diretora operacional do projeto Cooperar. De acordo com a presidente da associação, os subprojetos do Cooperar no eixo produtivo buscavam melhorar a estrutura de produção das famílias, entretanto, tais aprimoramentos não levavam em consideração a necessidade de cumprir requisitos de certificação. De acordo com Mônica, diretora operacional do Cooperar, a nova fase do projeto PB Rural Sustentável levará em consideração esta necessidade.

Ainda há outras instituições provedoras de empreendedorismo social na cidade de Pombal: a Comissão Pastoral da Terra, que recebe recursos de uma organização alemã, e a Misereor, para aprimorar a estrutura dos negócios das famílias do campo. A prefeitura também investe nesta área, oferecendo recursos para as famílias rurais. E, mais recentemente, outra organização conhecida como Fundo Casa tem desenvolvido projetos de energia solar para as famílias rurais.

Nos últimos dez anos, o Brasil constituiu uma nova agenda nas políticas públicas. A partir de uma reorientação da ação do Estado e uma diferente proposta de governo, buscou-se atender demandas de grandes parcelas da sociedade brasileira. A taxa de investimentos do setor público cresceu em 51% no período de 2003 a 2012 e, como parte desse programa, expandiram-se não apenas investimentos em logística e energia, mas também em infraestrutura social e urbana, a exemplo do Comunidade Cidadã, Minha Casa Minha Vida, Água e Luz para Todos, incluindo obras de saneamento, infraestrutura viária, equipamentos para estradas vicinais, educação, saúde, dentre outros (BUTTO et al., 2014). Tais ações valeram-se de um discurso de amplo processo de estímulo à participação social.

As maneiras pelas quais esse objetivo pode ser alcançado variam de acordo com os meios propostos, o que, por sua vez, está relacionado com o contexto ideológico, que adota uma visão coletiva de cidadania. Em se tratando de um construto que promove relações com o

empreendedorismo social, percebe-se a geração de uma perspectiva que reforça a importância de se entender o empreendedorismo social como um fenômeno que reduz a pobreza política/social de uma comunidade (RODRIGUES, 2015; BUTTO et al., 2014; LIMA, 2008; KERLIN, 2006; DESS, 1998). Tal esforço tem apresentado uma considerável rede de mobilização de agentes de fomento, apresentada na figura 6.

Figura 6 - Agentes de fomento atuantes no sítio Várzea Comprida dos Oliveiras

Fonte: Elaborado pelo autor (2017).

Estes agentes fomentam o empreendedorismo a partir de suas ações, que, por sua vez, remetem às dimensões adotadas na fundamentação teórica: consciência cidadã, missão social, atuação em áreas críticas e novas relações com o Estado. A consciência cidadã é desenvolvida a partir do incentivo à participação popular; a missão social, a partir das declarações institucionais de tais entidades; a atuação nas áreas críticas, a partir da melhoria da infraestrutura local que proporciona bem-estar às famílias; e as novas relações com o Estado através de projetos que beneficiam a comunidade por meio de políticas públicas. Percebe-se o protagonismo de diversas entidades no desenvolvimento da comunidade de Várzea Comprida.

As políticas governamentais também foram enfatizadas na fala das entrevistadas.

Aí veio o PRONAFque melhorou muito, incentivo do Pastoral da Terra e esses programas que Lula criou e lá vem. O Lula criou a merenda escolar, né? 30% que antigamente nós não tínhamos direito de vender, quem tinha direito de vender pra

Comuni- dade de Pombal Pastoral da Terra Prefeitur a de Pombal Projeto Empoder ar (Pombal) Fundo Casa IFPB UFCG Programa Cooperar Banco do Nordeste Governo Federal Outras comunida des

merenda escolar era quem ganhava licitação né? Mas Lula criou o agricultor familiar. (Solange, presidente da associação).

Elas creditaram o desenvolvimento, a priori, ao governo Lula, mas, no decorrer da narrativa, outras entidades, sobretudo internacionais, receberam também o crédito pelo desenvolvimento rural: a Pastoral da Terra foi uma das protagonistas, auxiliando na construção do espaço da associação; o Banco do Nordeste, oferecendo crédito para a compra de equipamentos de irrigação; o governo estadual, levando energia elétrica para a comunidade de Várzea Comprida; o Fundo Casa que, em parceria com o IFPB, levou energia solar para a comunidade; e a UFCG, que proporcionou acompanhamento nutricional para a região. O governo municipal também teve papel importante, pois, além de levar água encanada para a região, também compra as hortaliças da comunidade para a merenda escolar das escolas de Pombal e ainda auxilia na indicação de projetos, elaborando-os em muitas ocasiões para prospecção de recursos para a comunidade.

Um exemplo da atuação do Cooperar na região foi a construção de poços artesianos e de cisternas para armazenamento da água da chuva. A elaboração do projeto foi feita por agentes do município que pleitearam junto ao Cooperar a possibilidade de levar o recurso para Várzea Comprida. É certo que o interesse municipal permeia a garantia de votos para a continuidade do mandato das famílias. Mas também é notória a potencialidade de mobilização da comunidade para buscar tais recursos.

As mulheres entrevistadas não possuem letramento suficiente para escrever tais projetos, todavia elas não descansam enquanto não conseguem encontrar meios de resolver os problemas da comunidade, buscando pessoas capacitadas para a elaboração e certame em editais de incentivo governamental.

Uma das vivências relatadas pelas agricultoras foi recorrente e demonstra ter grande importância para o desenvolvimento empreendedor da comunidade: a panificadora comunitária. De acordo com os relatos, a ideia se iniciou a partir da percepção das próprias agricultoras nas feiras livres. Ao levar as hortaliças para o mercado, percebiam o interesse dos clientes por outros tipos de produtos, como bolos e doces, e elas passaram a produzi-los individualmente.

Concomitantemente, e com a ajuda de agentes do município, a comunidade pleiteou recursos do programa Cooperar para a aquisição de equipamentos, fardamento e de um veículo para o transporte dos bolos.

A logomarca foi elaborada por alunos do curso de Engenharia de Alimentos da UFCG, campus Pombal. Além da logomarca, os alunos, juntamente com a professora Dra. Mônica

Tejo Cavalcanti, elaboraram um guia nutricional para a fabricação dos bolos através da Incubadora de Agronegócios das Cooperativas, Organizações Comunitárias, Associações e Assentamentos Rurais do Semiárido da Paraíba (IACOC).

A questão da titulação e do reconhecimento de outras entidades ainda afeta a percepção das mulheres enquanto cidadãs e empreendedoras. Aos serem questionadas sobre se elas se viam enquanto cidadãs, elas afirmaram que sim e que essa condição é reforçada por meio de sua participação junto à prefeitura, a qual escuta e atende as reivindicações da comunidade. Ou seja, para elas, ser cidadão é ter suas necessidades atendidas, cumprindo com o seu papel (produtivo).

Aí começou o governo de Poliana em 2000, não 2008, e pra nós aqui alavancou, foi uma prefeita melhor, num sei se você já ouviu falar, aqui não tinha agua encanada, e nós conseguimos um projeto de água nas torneiras, todo mundo aqui tem água nas torneiras, a gente conseguiu este carro que lhe mostrei, todo dia tem água, de 6 da manhã às 12 horas a bomba tá ligada, todo mundo tem água, só que a gente fez um controle de 12 horas desligar a bomba porque se deixasse o dia o povo ia instruir o dia todo, ai desliga de 12 e só liga no outro dia. (Solange, presidente da associação).

De modo semelhante, ao serem questionadas se elas se viam enquanto empreendedoras, as mulheres não sabiam dizer, apesar de demonstrarem em suas práticas a sua potencialidade de observar o mercado, buscar investir em novos produtos, novos processos, aproveitar as oportunidades que surgem e preservar o bem comum da comunidade. A presidente da associação, Solange, ainda vai mais além nesse questionamento ao afirmar que ela ainda não se sente plenamente empreendedora por não ter a certificação de produtos orgânicos. Segundo ela, “só me reconhecerei como empreendedora mesmo quando as pessoas

me virem como orgânica”.

Manifestações de empreendedorismo social mostram-se bem desenvolvidas, e as agricultoras demonstram tal vínculo por meio das vivências relatadas na comunidade, na organização da associação e nas feiras livres. O problema, aparentemente, se dá: a) no âmbito das certificações; b) na limitação cognitiva das mulheres; e c) na pseudogenuinidade das ações políticas da prefeitura.

As certificações ainda são um entrave para a comunidade de Várzea Comprida. As capacitações produtivas que até então beneficiaram as famílias não se preocupavam com este aspecto, pois até então a pretensão das mulheres era negociar nas feiras livres com produtos melhores desenvolvidos em seus plantios.

As mulheres da comunidade não têm o hábito de escrever os projetos. Elas preferem demandar esta atividade para pessoas de confiança, seja da Pastoral da Terra, da prefeitura ou

de seus indicados. Pelos relatos das mulheres entrevistadas, os jovens também não parecem demonstram tal interesse, pois ainda se dissemina a ideia de que o melhor preparo se dá no saber fazer algo, ou seja, na capacitação de produção. Juntamente a esta percepção relatada, acrescenta-se uma pouca legitimidade das políticas das prefeituras, pois, no contexto da comunidade, elas reforçam tanto a limitação cognitiva das famílias como também geram uma maior dependência das atividades de elaboração de projetos.

As limitações percebidas no labor empreendedor das famílias não anulam o potencial da comunidade e nos ajudam a promover uma reconfiguração de significado das categorias de pesquisa.